Tem sido um ano problemático para a academia israelita. O crescente sentimento nacionalista entre o governo, os legisladores e a sociedade civil configurou-se em lutas nos campi país afora. Grupos nacionalistas como o IsraCampus, Israel Academia Monitor, e o ultranacionalista Im Tirtzu passaram a alvejar a academia, procurando a demissão de membros da faculdade e o controle sobre o currículo, além de incitar doadores estrangeiros a retirarem os seus fundos. Publicaram listas negras e classificaram cada universidade e departamento de acordo com sua legitimidade política. Muito desse poder de fogo foi direcionado contra a Universidade Ben Gurion. De acordo com uma matéria do NRG, publicada após a entrevista abaixo, um doador ameaçou suspender as suas doações se certas posições políticas não fossem oficialmente repudiadas pela administração da Ben Gurion.
Um resultado surpreendente foi a politização de conceitos sociais básicos que deveriam ser parte de um consenso, conceitos já considerados acima da política. Deste modo, o termo “democracia” é visto pelos ultranacionalistas como parte de uma política ideológica da esquerda, e é crescentemente deslegitimado no discurso israelita. O conceito de direitos humanos é ainda mais controverso. Para os estudantes e organizações ultranacionalistas, o termo “direitos humanos” simboliza um apoio unilateral aos palestinianos e às tentativas subversivas de destruir o Estado. O universalismo liberal que sustenta os valores dos direitos humanos é um anátema para uma noção provinciana de Estado, e confronta a rasteira raison d’état.
Por isso, uma conferência de direitos humanos planeada pelo Departamento de Política e Governo na Universidade Ben Gurion, no começo de Abril, foi um alvo fácil para os nacionalistas. O Im Tirtzu lançou uma bem orquestrada campanha para pressionar o reitor da Universidade, professor Rivka Carmi, para cancelar a conferência, sob o pretexto de que ela não estava “equilibrada”. O dr. Dani Filc, chefe do Departamento, respondeu que sete palestrantes de direita haviam sido convidados, mas recusaram o convite. Ainda assim as exigências continuaram, chegando às autoridades da Universidade, ao ministro da Educação, Gideon Saar, e ao chefe do Comité de Educação Knesset, Alex Miller. A conferência ocorreu como previsto.
Neste ambiente carregado, o professor Neve Gordon concordou em conceder uma entrevista. Ele foi chefe do Departamento de Política e Governo na Universidade Ben Gurion durante grande parte deste período controverso, e é o autor do livro Ocupação de Israel, sendo um crítico ferrenho das políticas do governo israelita frente aos palestinianos.
A Universidade de Ben Gurion está no olho do furacão. Qual é a situação neste último ano?
Houve um ataque à academia israelita em geral. Isto envolve uma aliança entre forças como o IsraCampus e o Israel Academic Monitor, por um lado, que tentaram convencer os doadores a pararem de doar dinheiro para universidades que contratam pessoas de esquerda, e o Im Tirzu, que tenta mobilizar os ministros do governo e membros do Knesset para pressionar os altos executivos das universidades a disciplinar os seus académicos rebeldes. Há uma aliança entre elementos da sociedade civil, um punhado de doadores, e o governo, para suprimir a liberdade académica e a desaprovação em relação às políticas israelitas. O fenómeno não está só na esfera académica… Também inclui, por exemplo, os ataques às organizações de direitos humanos em Israel.
Como eu vejo, o ataque tem um objetivo duplo. A ideia é prevenir o fluxo de informação de Israel para o exterior, pelo facto de que tanto os académicos quanto a comunidade israelita dos direitos humanos têm fortes conexões fora de Israel, e são frequentemente alvejados. Simultaneamente, há uma tentativa de sufocar o debate interno, ao reduzir as discussões sobre as políticas que levam a injustiças sociais e mais violência e agressões.
Foram bem sucedidos?
Até certo ponto. Estamos vendo um fenómeno totalmente novo na academia israelita: estudantes nas classes filmando as aulas e depois passando informações aos grupos monitores e aos média. As gravações são quase sempre editadas, de maneira que a informação não reflita o que realmente aconteceu na aula. Estes estudantes consideram- se monitores das aulas, mais do que pessoas que foram à universidade para estudar, expandirem os seus horizontes e os seus conhecimentos… Não muito diferente da Era McCarthy nos Estados Unidos, alguns estudantes israelitas se vêem como agentes do Estado, como espiões.
Quer dizer então que eles não vão às aulas verdadeiramente para aprender, mas sim para confirmar as suas opiniões?
Alguns têm a mente mais aberta, outros menos… Nós somos presenteados com estudantes excelentes. Acho que os estudantes espiões ainda são uma pequena minoria. Mas eles definitivamente existem.
Outra questão são os doadores estrangeiros. As doações são uma percentagem relativamente pequena do orçamento, por vezes 10% ou menos. Ainda assim os doadores exercem grande influência… Os monitores mandam informações aos doadores nos Estados Unidos ou na Inglaterra, e um punhado destes doadores manda cartas aos administradores das universidades, pressionando-os a suprimir a liberdade académica.
Então há ataques do Comité Knesset e dos doadores estrangeiros, e o mecanismo dos monitores académicos alimenta a ambos.
E os doadores israelitas?
São pouquíssimos. Mas creio que eles seriam menos influenciados, pois a esfera de discurso legítimo é ainda muito mais ampla dentro de Israel, quando se trata de criticar políticas do governo.
Qual tem sido o impacto destas campanhas da sociedade civil?
É difícil julgar em tão pouco tempo, mas acredito que vamos ver que eles serão bem-sucedidos em grande parte no longo prazo. Até agora, não conseguiram fazer com que ninguém fosse demitido das universidades porque ainda temos um sistema de posse. Mas eles criaram “porteiros”. Está se tornando gradualmente impossível contratar pessoas que sejam críticas do governo de Israel, ou que tenham assinado alguma petição crítica… Se os potenciais candidatos souberem disso antes, eles vão parar de expressar as suas opiniões e, se decidirem falar o que pensam, será mais difícil serem contratados… Não só os monitores do IsraCampus, como também políticos, os média e os administradores universitários agora concordam que está certo os estudantes filmarem os seus professores nas aulas e monitorizarem as petições que eles assinam. Este é um grande sucesso para estes movimentos.
É extremamente perturbador, porque o estudante não compreende o seu papel na universidade, e vê-se como um agente acrítico do Estado… Em última instância, as críticas são internalizadas, e muitos professores pensam duas vezes ou temem ao expressar as suas opiniões.
A direita distorce toda a noção de liberdade académica nas suas cabeças – dizem que pessoas como eu são as que suprimem a liberdade de expressão. Acho que a implicação de que nós controlamos o discurso em Israel é absurda. Basta ligar a televisão ou ler um jornal. Pessoas que pensam como eu estão à margem e as suas visões raramente são ouvidas nos grande média.
E o que dizer sobre as frequentes acusações de grupos como o Im Tirtzu, de que as opiniões políticas da direita não são aceites ou penalizadas?
Os dois últimos editores do jornal estudantil do Departamento de Política e Governo em Ben Gurion estavam envolvidos com o Im Tirtzu. As pessoas que protestaram contra a conferência de direitos humanos eram membros do nosso Departamento. Estou orgulhoso que eles se sintam confortáveis para fazer isso, sabendo que não serão punidos. A ideia de que as opiniões são suprimidas é uma mentira que certos activistas estão a disseminar para a imprensa… O Departamento e a Universidade Ben Gurion provaram-se abertos a uma pletora de pontos de vista.
Mas aqueles que atacam a liberdade académica não querem realmente debater, querem atacar. Eles não querem aparecer nas nossas conferências – convidamos pessoas que representam o outro lado e eles recusaram-se a comparecer… Membros do Knesset, doadores e manifestantes exigiram que a nossa conferência dos direitos humanos fosse “equilibrada”, incluindo-se pessoas que fossem contra os direitos humanos. Toda esta noção de “equilibrada” agora está sendo usada como uma arma contra a esquerda. Se há uma conferência sobre Darwin nós não precisamos convidar criacionistas. Para uma conferência do Holocausto nós não deveríamos convidar aqueles que negam o Holocausto – embora possa ser dito que em nome do equilibro nós devêssemos fazê-lo. Porque é de perguntar se deveríamos convidar pessoas que são contra os direitos humanos? Nós devemos perguntar em que países as conferências de direitos humanos são criticadas? Irão, China, Síria. São estes países que queremos tomar como exemplos?
A direita radical quer criar uma situação onde somente as suas visões sejam ouvidas. O recente pedido para me suspender de ensinar disciplinas obrigatórias é extremamente revelador. [Há algumas semanas, Otniel Schneller, do partido Kadima, escreveu a Alex Miller (do partido Israel Beitenu), chefe do Comité Knesset de Educação, Cultura e Desportos, exigindo que “minimamente, Gordon seja impedido de ensinar disciplinas obrigatórias que forçam os estudantes a ouvirem as suas opiniões difamatórias”.]
Como reagiram outras universidades em Israel?
Os professores têm-se organizado para assinar petições (contra tais ataques), e houve discussões. Mas ainda não há realmente nenhuma tentativa organizada, estratégica ou acordada para lidar com este fenómeno.
Porque está isto a acontecer agora?
As universidades não são ilhas, são parte da sociedade israelita, e o ataque à liberdade académica meramente reflecte o ataque mais geral aos valores liberais. Os ataques às organizações de direitos humanos, o facto de que o Ministro da Educação quer apagar os estudos de democracia e cidadania do currículo e substituí-los por sionismo e judaísmo, e a inundação de legislação racista e antidemocrática que está a acontecer no Comité Knesset, bem como a recente sondagem das atitudes da juventude, são todos parte da mesma tendência na sociedade israelita.
Você teme pelo futuro da democracia israelita?
Não precisamos imaginar um futuro sombrio, já estamos nele. A democracia está severamente cerceada, estamos num caminho obscuro, e a não ser que haja alguma mudança radical e que ocorra um milagre, e creio que não ocorrerão nos próximos muitos anos, as últimas reminiscências da democracia israelita podem estar perdidas. O padrão pode ainda mudar, mas se as sondagens à juventude estão correctas, a legislação Knesset no futuro estará ainda pior. A democracia será destruída.
O que os académicos deveriam fazer sobre isso?
Não tenho a certeza se é papel dos académicos mudar a sociedade. As pessoas deveriam protestar em apoio à democracia e criticar elementos antidemocráticos, mas não necessariamente por meio da academia. Os movimentos da sociedade civil deveriam liderar… Os académicos não são somente académicos, eles são algo além, são também membros da sociedade civil. E como membros da sociedade civil, os académicos deveriam lutar por justiça social, localmente e nacionalmente.
Qual é o papel da universidade na sociedade?
Acredito que ela tenha três grandes papéis. Um é procurar a verdade e o conhecimento. O segundo é ensinar estudantes a pensar criticamente. E o terceiro papel é educar os estudantes para serem bons cidadãos. O nosso papel não é tentar convencer os estudantes das nossas visões. Quando fazemos isto, tornamo- nos somente didáticos e, ao invés de encorajarmos o pensamento crítico, nós encorajaríamos o dogma. Nós queremos que eles sejam pensadores independentes, não dizer a eles o que pensar.
Artigo publicado originalmente em Countercurrents, traduzido por Cainã Vidor e disponível no site da Revista Fórume em Envolverde.