Extracto publicado pelo Telegraph
Decorridos oito meses desde a publicação encadernada do Freefall, os acontecimentos têm-se desenvolvido (infelizmente) muito de acordo com as expectativas: o crescimento continua fraco, suficientemente anémico para que o desemprego continue obstinadamente elevado; as execuções hipotecárias têm continuado a um ritmo acelerado, e ainda que os bónus e lucros bancários tenham recuperado, o fornecimento do crédito não acompanhou esta tendência, embora a sua revitalização tenha sido supostamente a razão para o resgate bancário.
Algumas questões – a crise na Europa e as continuadas práticas fraudulentas e imorais dos bancos – foram piores do que o esperado, e outras questões – o tamanho das perdas no financiamento aos bancos – um pouco menores. As reformas na regulamentação do sistema financeiro são mais fortes do que eu esperava.
Contudo, os bancos conseguiram moderar suficientemente a regulamentação para que a perspectiva do ressurgimento de uma nova crise não se mantenha insignificante; ou seja, conseguiu-se um pequeno de tempo extra até à próxima crise e, talvez, até reduzir o provável custo para a nossa economia.
A verdadeira novidade nos últimos oito meses tem sido a aceitação lenta, tanto pelos governantes como pelos economistas, da triste imagem do futuro imediato sobre a qual eu adverti: uma nova “normalidade” com maiores taxas de desemprego, menor crescimento e baixos níveis dos serviços públicos nos países industrializados avançados.
A prosperidade foi substituída por um mal-estar à japonesa, sem fim à vista. Mas pelo menos na “década perdida” do Japão, apesar do baixo crescimento, o desemprego manteve-se baixo e a coesão social elevada.
Na Europa e na América, em contraste, alguns economistas falam de uma persistente taxa de desemprego de 7,5 por cento, bem acima dos 4,2 por cento que gozávamos em 1990. A crise financeira provocou, na realidade, danos a longo prazo na nossa economia, do qual só gradualmente iremos recuperar.
Não foi só o sector privado que viveu num mundo de sonho sustentado pela especulação da habitação e do mercado de acções. Os governos partilharam indirectamente desse sonho, pois receberam alguns “rendimentos fantasma” dessa especulação, sob a forma de receitas fiscais.
Para países fiscalmente irresponsáveis como os Estados Unidos e a Grécia, as questões foram ainda mais desagradáveis. Em 2009, o défice dos Estados Unidos disparou até quase 9,9 por cento do PIB, e o da Grécia até 13,6 por cento.
Reduzir esses défices a zero não será apenas uma questão de esperar pela recuperação, porque esses países tiveram défices mesmo quando as suas economias desfrutavam de um quase pleno emprego e as suas receitas fiscais eram enriquecidas por impostos sobre os lucros da especulação, mas implicarão aumentos substanciais nos impostos ou cortes nas despesas. Mas aqui está o problema: com a falta de recuperação mundial, quaisquer cortes ou aumentos de impostos levarão certamente a um crescimento ainda mais lento, talvez empurrando muitas outras economias a um segundo mergulho em recessão.
Apesar destas duras perspectivas para a economia mundial, gritos para travar os défices irão em breve surgir de Wall Street e dos mercados financeiros.
A sua falta de visão criou esta crise, e agora continuam com falta de visão ao exigirem políticas que irão conduzir à persistência da mesma.
Exigiram cortes ao orçamento. Sem esses cortes, advertiram, em conjunto com as agências de notação, os juros bancários iriam subir, e seria cortado o acesso ao crédito, e os países não teriam outra alternativa senão voltar a cortar.
Mas assim que em Maio passado a Espanha anunciou cortes ao orçamento, logo as agências de notação e os mercados responderam, alegando, e eu creio que correctamente, que os cortes iriam abrandar o crescimento.
Com crescimento mais lento, as receitas fiscais iriam diminuir, as despesas sociais (tais como os subsídios de desemprego) iriam aumentar e os défices continuariam elevados. A Fitch, uma das três principais agências de notação, baixou a classificação da dívida de Espanha, e as taxas de juros que teria de pagar continuaram a aumentar. Evidentemente que os países seriam condenados quer cortassem nas despesas quer não.
Estes resultados revelam-se ainda mais angustiantes quando se considera que houve um momento de unidade nacional e internacional no auge da crise, quando os países se juntaram para enfrentar a calamidade económica mundial. Pela primeira vez, o G20 juntou países desenvolvidos com países de mercado emergente para solucionar o problema mundial. Houve um momento em que todo o mundo era Keynesiano, e foi desacreditada a ideia equívoca de que os mercados desenfreados e não regulamentados eram estáveis e eficientes.
Existiu a esperança de que um novo e mais atenuado capitalismo e uma nova e mais equilibrada ordem económica iriam surgir – uma ordem que conseguisse finalmente alcançar maior estabilidade a curto prazo e que visasse problemas de longa data, como a grande e crescente desigualdade entre ricos e pobres, adaptando a nossa economia à ameaça do aquecimento global, libertando-a da sua dependência do petróleo e reestruturando-a para competir eficazmente com os países emergentes na Ásia.
A esperança que confundiu aqueles primeiros meses da crise está a desaparecer rapidamente. Em seu lugar há um novo clima de desespero. O caminho para a recuperação pode ser ainda bem mais lento do que eu sugeri, e as tensões sociais podem ser ainda maiores. Os altos funcionários dos bancos levam para casa bónus de sete dígitos enquanto o cidadão comum enfrenta não só o desemprego mas um subsídio de desemprego que não está à altura dos desafios da Grande Recessão.
Os críticos afirmam que a economia Keynesiana apenas adia o dia do reconhecimento. Mas bem pelo contrário, eu defendo que se não voltarmos aos princípios fundamentais da economia Keynesiana, o mundo está condenado a uma recessão prolongada.
A crise tornou o mundo em território inexplorado, com grandes incertezas. Mas há uma coisa sobre a qual podemos estar relativamente certos: se os países industriais avançados continuarem no mesmo caminho em que parecem ter hoje embarcado, a perspectiva de uma breve recuperação robusta é desoladora; como resultado, as relativas posições económicas e políticas da América e da Europa serão substancialmente diminuídas; e também o será a nossa capacidade para enfrentar os problemas a longo prazo do qual depende o nosso futuro bem-estar.
Quase três anos após o início da recessão, está claro que, embora a economia possa estar a caminho da recuperação, esse caminho está marcado por obstáculos imprevisíveis.
Entre os factores mais imprevisíveis que nos aguardam estão as mudanças de políticas e atitudes públicas.
Mesmo antes de o crescimento económico ter sido restaurado e até mesmo de os Estados Unidos parecerem estar atolados numa elevada taxa de desemprego, a atenção – pelo menos em alguns sectores – tem sido deslocada para a inflação e a dívida pública. Neste momento, a inflação não é uma ameaça, e é improvável que o seja enquanto o desemprego se mantiver elevado. As baixos taxas de juros das obrigações a longo prazo e os títulos indexados à inflação emitidos pelo governo para pagar a dívida pública sugerem que o “mercado” propriamente dito não está muito preocupado com a inflação, nem sequer a longo prazo.
Para mim, os verdadeiros problemas – não agora, mas possivelmente nos próximos anos – não são tanto a inflação e a dívida, mas as preocupações dos mercados financeiros sobre a inflação e a dívida. Se o mercado começar a antecipar a inflação, então vai exigir juros mais elevados para compensar o valor reduzido dos dólares recebidos do reembolso. Taxas de juro mais elevadas conduzem a défices e dívidas governamentais mais altos, que combinados com as preocupações da inflação, vão criar pressão para cortes nos gastos do governo antes de a economia estar em pé firme.
Hoje, os verdadeiros problemas continuam a ser o desemprego e a falta de exigência agregada, precisamente o problema que John Maynard Keynes enfrentou há 75 anos durante a Grande Depressão. Políticas monetárias, então e agora, já atingiram os seus limites: novas descidas nas taxas de juros ou são impossíveis ou não terão um grande impacto para estimular a economia.
Precisamos então de confiar na política fiscal para ajudar a restaurar a saúde económica. A evidência de que irá resultar é esmagadora. A China implantou um dos maiores pacotes de estímulo do mundo e teve uma das recuperações mais fortes, apesar de ter enfrentado choques significativos na sua economia. Na Europa e na América, os pacotes de estímulo foram demasiado pequenos para compensar na totalidade o “choque” do sector financeiro, mas se não fossem estas acções, as taxas de desemprego teriam sido bem mais elevadas.
O ataque dos mercados financeiros contra a Grécia mostra que os défices não podem ser ignorados. Défices muito elevados podem levar a aumentos das taxas de juro, agravando os problemas fiscais de um país.
Mas a resposta ingénua – cortar nas despesas e/ou aumentar os impostos – só vai piorar a situação, tal como a resposta do mercado à contenção da Espanha o mostrou de forma tão dramática.
Há uma metáfora que compara os governos às famílias; no entanto, esta maneira de ver as finanças públicas não só é errada como perigosa. Famílias que vivem além das suas possibilidades – ou seja os seus gastos excedem os seus rendimentos – e que não consigam encontrar um banco para financiar o seu consumo desenfreado não têm alternativa senão cortar nos seus gastos. Uma redução suficientemente grande irá colocar as suas contas em ordem. Mas quando os governos cortam nas despesas, o crescimento diminui, aumenta o desemprego, e o rendimento – e as receitas fiscais – caem.
Há uma solução para este aparente dilema. Preocupações sobre o tamanho da dívida podem levar a uma mudança no padrão de gastos do governo, relativamente a despesas que podem originar um maior retorno económico.
Por isso, a estrutura de impostos também pode mudar, levando a um maior crescimento e défices mais baixos. Aumentar os impostos sobre o rendimento a empresas que não reinvestem nos seus negócios, e baixá-los àquelas que o fazem (através de créditos fiscais ao investimento), é um exemplo. O aumento do investimento dá origem a um crescimento mais elevado, e um crescimento mais elevado dá origem a mais receitas fiscais. Aumentar os impostos a indivíduos de rendimentos elevados e baixá-los aos de baixos rendimentos é outro exemplo.
O Governo pode fazer ainda mais para ajudar o sector privado a crescer – se os velhos bancos não emprestam, criem-se alguns novos bancos que o façam. Por uma fracção do que tinha sido gasto em lidar com maus empréstimos dos velhos bancos, o Governo podia ter criado um conjunto de novas instituições financeiras, não contaminadas pelas más decisões antigas.
Quando o euro foi criado como moeda única na Europa, levantei algumas preocupações juntamente com muitos outros. Países que partilhem uma moeda têm uma taxa de câmbio fixa uns com os outros, o que os priva de uma importante ferramenta de ajuste.
Se a Grécia e a Espanha tivessem sido autorizados a diminuir o valor das suas moedas, as suas economias teriam sido fortalecidas pelo aumento das exportações. Além disso, ao mudarem as suas moedas para o euro, os dois países perderam outro instrumento de reacção às crises: a política monetária. Se não o tivessem feito, teriam conseguido responder às suas crises baixando as taxas de juro para estimular o investimento.
Em vez disso, os países da Zona Euro estavam de mãos atadas. Enquanto não houvesse choques, o euro estaria bem. O teste viria quando um ou mais países enfrentassem uma recessão. A recessão de 2008 proporcionou esse teste – e parece que a Europa pode estar a falhar no teste.
Para compensar as perdas destas ferramentas vitais de ajuste, a Zona Euro deveria ter criado um fundo para ajudar aqueles que enfrentassem problemas adversos. Os Estados Unidos são uma zona de “moeda única”, mas quando a Califórnia tem um problema, e a taxa de desemprego sobe, uma grande parte dos custos são suportados pelo governo federal.
A Europa não consegue ajudar países que enfrentem problemas graves.
A Espanha tem uma taxa de desemprego de 20 por cento, e 40 a 50 por cento são jovens. Antes da crise tinha um excedente financeiro, depois da crise o seu défice excedeu 11 por cento do PIB.
Mas segundo as regras do jogo, a Espanha deve agora cortar nas suas despesas, o que irá certamente fazer subir ainda mais a taxa de desemprego. Como a sua economia desacelera, a melhoria da sua situação fiscal pode ser mínima.
A Espanha pode estar a entrar numa espécie de espiral de morte que afligiu a Argentina há uma década. Só quando a Argentina cortou a paridade cambial da sua moeda com o dólar é que começou a crescer e o seu défice a baixar. De momento, a Espanha não tem sido atacada pelos especuladores, mas pode ser apenas uma questão de tempo.
Talvez não tenha sido surpresa a Grécia ter sido o primeiro país a ser atacado. Os especuladores gostam de países pequenos – podem montar um ataque com menos dinheiro. E os problemas da Grécia foram, de muitas formas, os mais sérios (embora a sua taxa de desemprego de 10 por cento estivesse em conformidade com a média da Zona Euro, o seu défice de 13,6 por cento do PIB em 2009 era o segundo mais alto da Europa, depois da Irlanda). A sua dívida era de 115 por cento do PIB. Tal como os Estados Unidos, tinha um défice antes da crise (5,1 por cento do PIB em 2007, ainda pior que o dos Estados Unidos, que era de 2,5 por cento).
Tal como muitos governos e muitas empresas do sector financeiro, a Grécia estava envolvida em contabilidades enganosas, auxiliada e encorajada por empresas financeiras. Empresas financeiras americanas, ao descobrirem como podiam utilizar essas práticas contabilísticas e produtos financeiros (como derivados e reposições) para enganarem os accionistas e o governo, comercializaram essas técnicas e produtos para governos que quisessem esconder os seus défices.
A preocupação é que há uma onda de austeridade em construção por toda a Europa (e, como observei anteriormente, atingindo mesmo a costa dos Estados Unidos). Como tantos países cortaram nas despesas prematuramente, a procura agregada mundial vai diminuir e o crescimento irá desacelerar – talvez até conduzir a uma dupla recessão.
A América pode até ter causado a recessão mundial, mas a Europa está agora a responder.
A Zona Euro precisa ter melhor cooperação económica – não apenas aquela que meramente reforça as regras orçamentais, mas cooperação que possa também assegurar que a Europa permanece em pleno emprego, e que quando os países experimentarem grandes choques adversos, possam obter ajuda de outros.
A Europa criou um fundo de solidariedade para ajudar novos países a entrar na União Europeia, muitos dos quais eram mais pobres que outros. Mas falhou por não ter criado um fundo de solidariedade para ajudar qualquer parte da Zona Euro que enfrente o stress. Sem um fundo desse tipo, as perspectivas de futuro do euro são sombrias.
Há uma solução: a saída da Alemanha da zona euro ou a sua divisão em duas sub-regiões.
O euro foi uma experiência interessante mas, como o quase esquecido sistema MTC (Mecanismo de taxas de câmbio) que o precedeu, e que se desmoronou quando os especuladores atacaram a libra esterlina em 1992, não tem o apoio institucional necessário para a fazer funcionar.
Se a Europa não conseguir encontrar uma maneira de fazer estas reformas institucionais, então talvez seja melhor admitir o falhanço e seguir em frente do que pagar um alto preço no desemprego e sofrimento humano, tudo em nome de falsos arranjos institucionais que não estão à altura dos ideais dos seus criadores.
A primeira década do século XXI já está marcada como a década perdida. Para a maior parte dos americanos, o lucro no final da década foi menor do que no início. A Europa começou a década com uma experiência totalmente nova, o euro – uma experiência que pode estar agora a falhar.
Em ambos os lados do Atlântico, o optimismo do princípio da década foi substituído por uma nova melancolia. À medida que as semanas da recessão – o Novo Mal-Estar – se estendem a meses, e os meses a anos, uma nova palidez cinzenta lança a sua sombra.
No início deste ano, escrevi que não bastava deambular, e que ainda não era tarde de mais para estabelecer um curso alternativo. Continuamos a deambular – em algumas áreas, como a reforma regulamentar, melhor do que eu temia, mas pior do que eu esperava; em outras, como a criação de uma nova visão, os meus temores foram totalmente realizados. Ainda não é tarde de mais. Mas a janela da oportunidade pode fechar-se rapidamente.
Extraído do Epílogo da Freefall: Free Markets and the Sinking of the Global Economy Por Joseph Stiglitz, versão encadernada de 14 de Outubro da editora Penguin.
Tradução de Noémia Oliveira para o Esquerda.net