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Japão: o império das dúvidas

O Japão era o país das certezas na década de 70, e aparentava superar, inclusive, o Tio Sam. A transformação que sofreu desde Março, depois do terramoto, do tsunami e da crise nuclear, foi muito grande.
O declínio económico japonês, acentuado pela tragédia de 11 de Março, pode ser uma espécie de buraco negro que engula a todos. Foto de M.V. Jantzen

A primeira dúvida, e a mais importante é: o que é o Japão? Muitos especialistas, historiadores, geógrafos, políticos podem responder a esta pergunta, cuja resposta, obviamente, terá todas as nuances das diferenças sociais existentes. Mas, se formos mais precisos: O que é o Japão depois do 11 de Março? Diria que pouquíssimos são capazes de esboçar uma resposta adequada.

O Japão era e continua a ser, depois da tragédia do 11 de Março (terramoto, tsunami e Fukushima 1), a segunda potência imperialista do planeta. Já que, nesse sentido, nada mudou com a tragédia, e o pais não perdeu nenhuma posição no cenário mundial. Alguns poderiam argumentar que é um desperdício de tempo preocupar-se com a resposta a uma pergunta dessa natureza. Muito ao contrário, acredito que uma resposta aproximada da situação real japonesa tem grande relevância, uma vez que o que ocorrer com o Japão, nas próximas semanas ou meses, terá profunda repercussão no próprio sistema capitalista. Os sucessos ou fracassos da segunda potência imperialista repercutem, inevitavelmente, no processo de desenvolvimento do capitalismo mundial, que passa, segundo algumas opiniões, por uma grave crise – e os críticos mais agudos afirmam que vivemos um processo de recessão mundial.

O impacto económico da tragédia

O terramoto e o tsunami destruíram uma gigantesca quantidade de riqueza material. Construções destruídas e abaladas na região Tohoku (nordeste) e, inclusive, Kanto, onde se localiza Tóquio. A destruição da indústria pesqueira da região, uma das mais importantes do pais, já que servia de base para a alimentação de duas das maiores cidades japonesas: Tóquio e Yokohama. A destruição da indústria de turismo. Matsushima, na província de Miyagi, é considerada um dos três pontos mais belos do arquipélago e uma tradicional atracção turística. Um amigo, Yona, que esteve há semanas nesta localidade efectuando trabalhos de reparação eléctrica comentou-me que ficou impressionado com a quantidade de moscas. Cordões que servem para matá-las (as moscas ficam coladas nos cordões), pendurados no tecto, pareciam cordas negras, devido à enorme quantidade. Quando se atreveu a comer a sua marmita ao ar livre, Yona relatou que a tampa ficou imediatamente negra, com a quantidade de moscas que pousaram em cima. Além da destruição e das suas consequências, não há como veranear num local onde morreram milhares de pessoas e, ainda por cima, é assolado pela radiação nuclear que escapa de Fukushima 1. O tsunami alagou também uma vasta área plantada. Destruiu e afectou igualmente uma grande quantidade de indústrias de todos os sectores locais, e multinacionais como Toyota, Honda, Sony, entre outras.

A crise nuclear da central Fukushima 1 gerou a maior crise energética do Japão pós-guerra. Além do aspecto recessivo, imediato, das empresas que ficaram impossibilitadas de operar. No Verão, que acaba de passar, temia-se o colapso do sistema eléctrico em Tóquio, cuja utilização chegou aos 90% da capacidade nos momentos de pico. Para evitar o colapso foi necessário impor um corte de 15% no consumo, que vigorou até há poucos dias. As empresas tiveram de reduzir a sua produção e mudar os dias de trabalho, trabalhando nos sábados e domingos e folgando nos dias de semana. Algumas cadeias de retalho como a Seven Eleven, de lojas de conveniência, decidiram trocar todas as antigas luzes por novas de LED, que consomem menos energia. O principal aspecto da crise energética é que ela não acabou com o Verão. Teremos alguns dias de trégua, mas já se pergunta se o sistema conseguirá manter-se no Inverno, onde a utilização de aquecedores eléctricos e ar-condicionado aumentam consideravelmente. Essas incertezas fazem com que as empresas não tenham possibilidades de planear qualquer espécie de crescimento a curto prazo, e tampouco a médio. Isso por si só já impossibilita o Japão de crescer a nível interno, mesmo a médio prazo. A utilização da energia nuclear é repudiada, hoje, pela maioria da população japonesa, o que impede a reutilização das centrais que se encontram paralisadas.

A contaminação nuclear assestou um profundo golpe no campo. Existe uma grande rejeição pelos produtos do nordeste, desde verduras, frutas, legumes, inclusive o arroz, assim como a carne bovina. Essa situação já levou vários produtores à falência e é também uma fonte imensa de preocupação para as donas de casa. Ninguém quer servir à sua família produtos de qualidade duvidosa, que podem estar contaminados pela radioactividade, sem falar na água de torneira, que ninguém quer beber. Também o pescado da região é colocado sob suspeita, uma vez que a Agência de Energia Atómica do Japão declarou, na semana passada, que o nível de radiação do mar é três vezes (!) maior do que foi divulgado na época, quando a TEPCO despejou uma grande quantidade de água contaminada pela radioactividade no Pacífico.

Essa situação interna já obriga as grandes empresas a levar parte da sua produção interna para outros países. Não há como averiguar o impacto desta medida neste momento, mas não restam dúvidas que haverá, em maior ou menor escala. O governo anunciou, na semana passada, que o PNB teve um declínio de 2.1%. O que, sem dúvida, não é uma boa notícia. O que já estava mau ficou ainda pior com as enchentes da semana passada que, além das mortes causadas, provocou também uma significativa destruição no sul do arquipélago.

Os perigos da miragem e o buraco negro japonês

Não deixa de causar espanto que um país que passou por esta situação e não é capaz de ver a saída no fim do túnel tenha a sua moeda valorizada, como ocorreu com o iene nos últimos dias. A subida recorde do iene representa acima de tudo a deterioração da economia mundial, que se vê obrigada a crer que agarrar-se a uma folha, numa enchente, pode salvar a própria vida, como é o caso actual. Agarrar-se ao ouro parece-me mais realista, e tentarei explicar os porquês desta afirmação

Os optimistas incansáveis sempre afirmam que as coisas estão a melhorar. Mas, apesar deles, o Japão vem em declínio há mais de duas décadas, desde que explodiu a bolha económica, nos anos noventa. Entrando na parte final do ano, não consigo encontrar indícios que permitam dar base aos argumentos dos optimistas. Continuo propenso a acreditar que estamos na rota da recessão japonesa, ainda que não seja capaz de dizer se se trata do início ou do meio. Não há optimismo no meio empresarial. O 11 de Março deitou por terra, definitivamente, qualquer sombra de optimismo existente da população japonesa.

Durante todas estas semanas senti-me solitário, sendo uma espécie de profeta do Apocalipse, ao argumentar que uma nova tragédia poderia engolfar o Japão. Foi por isso com espanto que vi na edição vespertina do Yomiuri, da última sexta-feira, o resultado de uma sondagem nacional feita por esse jornal: 78% dos entrevistados, numa sondagem nacional, temem que um grande terramoto possa ocorrer em breve. Como se pode deduzir, nem era o profeta do Apocalipse, nem estava a sofrer sozinho (para o meu alívio pessoal!).

Os terramotos fazem parte da história japonesa e alguns ocorrem regularmente, como o que ocorreu em 11 de Março, ainda que as pessoas só acreditem nessas tragédias quando elas, concretamente, entram porta adentro. Pois bem, o grande terramoto de Tokai, que abrange, principalmente, as províncias de Shizuoka e Aichi, segundo os especialistas, pode ocorrer a qualquer momento. E não restam dúvidas que essa perspectiva foi o que fez o antigo primeiro-ministro, Naoto Kan, a solicitar a paralisação da central nuclear de Hamaoka, localizada nessa região. Como medida preventiva para que se possa reutilizá-la, projecta-se construir um muro de 18 metros, para protegê-la de um possível tsunami, que pode ocorrer a qualquer momento. E sabemos que um muro dessa altura (se é que é suficiente), diferente dos sonhos, não é construído da noite para o dia. O terramoto de Tokai, no pior dos cenários (bastante provável), afectaria também a província de Kanagawa, onde se localiza Yokohama, a segunda cidade do país e um grande centro industrial. Afectaria também Nagoya, outra grande cidade japonesa e a Toyota, a maior fábrica automobilística mundial, cujo centro operativo também se encontra na província de Aichi. Mas o mais importante é que pode inundar Tóquio e criar um verdadeiro pandemónio

Esse cenário, que não fui eu que inventei, transforma o Japão numa grande miragem económica e explica, em parte, a delirante subida do iene nos últimos dias. Num país assolado por uma poderosa actividade sísmica, a aposta no iene pode ser a aposta na zebra ou no cavalo manco. Quanto valerá o iene no dia em que um poderoso tsunami adentrar a baía de Tóquio? Poderia o sistema capitalista sobreviver a uma crise derivada de uma situação como essa?

Independente de uma nova grande tragédia anunciada, a velha tragédia, o declínio económico japonês, acentuado pela tragédia de 11 de Março, pode ser uma espécie de buraco negro que engula a todos. E faça parte do processo que nos arraste não só a uma grande recessão mundial, como a uma coisa mais pavorosa, um grande depressão mundial.

O Japão, que era o pais das certezas na década de setenta e aparentava superar, inclusive, o Tio Sam, transformou-se, desde Março, no império das dúvidas.

O massacre fiscal e a necessidade de um bloco de esquerda

Depois de várias tragédias, o novo gabinete do primeiro-ministro Noda cozinha uma nova reforma fiscal. O seu objectivo aparente é reordenar as finanças públicas, e na verdade a organização do maior ataque aos bolsos dos trabalhadores. Um dos pilares dessa reforma, o aumento do imposto sobre o consumo, dos actuais 5 para 10%, representa, se for aprovada, a diminuição imediata do poder aquisitivo dos trabalhadores.

Os trabalhadores japoneses, no plano político, têm apenas o velho Partido Comunista como representação. A exemplo dos companheiros portugueses, precisam de um novo instrumento para organizar a luta contra a presença das bases americanas no arquipélago. Assim como para acabar com a utilização da energia nuclear, que se transformou numa gigantesca ameaça à vida e derrotar o gabinete Noda, cuja tarefa principal é enfiar goela abaixo dos trabalhadores receitas imperialistas bem amargas.

Este é o quarto e último de uma série de artigos sobre o tema. O primeiro foi Japão: seis meses depois de Fukushima; o segundo foi Crise nuclear japonesa e festival de mentiras; o terceiro, O cardápio atómico japonês

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