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"Fukushima é muito pior do que se imagina"

“Fukushima é a pior catástrofe industrial da história da humanidade”, disse Arnold Gundersen, ex-executivo da indústria nuclear, à rede de televisão Al Jazeera. Por Dahr Jamail
“Fukushima é a pior catástrofe industrial da história da humanidade” - Foto da Carta Maior

O terremoto de 9 graus que atingiu o Japão no dia 11 de março causou um imenso tsunami que danificou os sistemas de esfriamento da central nuclear da Tokyo Eletric Power Company (TEPCO), em Fukushima, Japão. Também causou explosões de hidrogénio e derretimentos de reactores que obrigaram o governo a evacuar moradores num raio de 20 quilómetros da central.

Gundersen, operador licenciado de reactores com 39 anos de experiência no desenho de centrais nucleares e na administração e coordenação de projectos em 70 centrais de energia nuclear em todos os Estados Unidos, diz que a central nuclear de Fukushima tem provavelmente mais núcleos de reactores expostos do que se acredita comummente.

“Fukushima tem três reactores nucleares expostos e quatro núcleos de combustíveis expostos”, afirmou. “Provavelmente, há cerca de 20 núcleos de reactores por causa dos núcleos de combustível e todos necessitam desesperadamente ser esfriados. O problema é que não há meios para esfriá-los efectivamente”.

A TEPCO tem lançado continuamente água sobre vários dos reactores e núcleos de combustível, mas isso tem provocado problemas ainda maiores, como a radiação emitida na atmosfera em forma de vapor e na água do mar, assim como a geração de centenas de milhares de toneladas de água marinha altamente radioactiva. “O problema é como manter o reactor frio”, diz Gundersen. “Estão a lançar água e o problema é o que vão fazer com os dejectos que saem desse sistema, pois eles vão conter plutónio e urânio. Onde vão colocar essa água?”

Apesar da central ter sido fechada, os produtos da fissão nuclear, como o urânio, continuam a gerar calor, o que exige o resfriamento. “Agora os combustíveis são uma massa disforme derretida no fundo do reactor”, acrescentou Gundersen. “A TEPCO anunciou que tiveram um “melt trough”, ou seja, um derretimento no qual o combustível passa através do fundo do reactor para o meio ambiente. Uma fusão do núcleo (“meltdown”) é quando o combustível derretido cai no fundo do reactor, e um “melt trough” significa que ele atravessou várias camadas. Essa massa disforme é incrivelmente radioactiva e agora há agua sobre ela. A água absorve enormes quantidades de radiação, o que exige mais água para resfriá-la, o que gera centenas de milhares de água fortemente radioactiva”.

Cientistas independentes têm monitorizado a localização de lugares radioactivos perigosos em todo o Japão e os seus resultados são desconcertantes. “temos 20 núcleos expostos, os tanques de combustível têm vários núcleos cada um, ou seja, há um potencial para libertar 20 vezes mais radiação do que ocorreu em Chernobyl”, afirma Gundersen. “Os dados que estou a ver mostram que estamos a encontrar lugares perigosos mais distantes do que no caso de Chernobyl, e a quantidade de radiação em muitos deles era a quantidade que levou a que algumas áreas fossem declaradas terra arrasada em Chernobyl. Essas áreas encontram-se a 60, 70 quilómetros do reactor. Não se pode limpar tudo isso. Ainda há javalis radioactivos na Alemanha, 30 anos depois de Chernobyil”.

Monitores de radiação para crianças

A Central de Reacção de Emergência Nuclear do Japão acabou por admitir no início deste mês que os reactores 1, 2 e 3 da central de Fukushima sofreram derretimentos nucleares totais. A TEPCO anunciou que o acidente provavelmente libertou mais material radioactivo no ambiente do que Chernobyl, convertendo-se no pior acidente nuclear conhecido. Enquanto isso, um assessor de resíduos nucleares do governo japonês informou que é provável que cerca de 966 quilómetros quadrados ao redor da central – uma área de aproximadamente 17 vezes o tamanho de Manhattan – se tenham tornado inabitáveis.

Nos EUA, a doutora Janette Sherman e o epidemiologista Joseph Mangano publicaram um ensaio assinalando um aumento de 35% na mortalidade infantil em cidades do noroeste (dos EUA), após o acidente nuclear em Fukushima, o que poderia, segundo eles, ser o resultado de chuva radioactiva originada da central nuclear acidentada. As oito cidades incluídas no informe são San Jose, Berkeley, San Francisco, Sacramento, Santa Cruz, Portland, Seattle e Boise, e o período considerado inclui as dez semanas imediatamente posteriores ao desastre.

“Existe – e deve haver – preocupação sobre a exposição de população jovem, e o governo japonês vai entregar monitores de radiação para as crianças”, disse o doutor MV Ramana, físico do Programa sobre Ciência e Segurança Global na Universidade de Princeton, e especialista em temas de segurança nuclear. Ele acredita que a ameaça primordial da radiação continua a existir, sobretudo para residentes que vivem num raio de 50 quilómetros da central. “Haverá áreas fora da zona de evacuação obrigatória de 20 quilómetros do governo japonês onde a radiação será maior. De modo que isso poderia significar que haja zonas de evacuação também nestas áreas”.

Gundersen assinala que foi libertada muito mais radiação em Fukushima do que o declarado pelas autoridades japonesas. “Voltaram a calcular a quantidade de radiação libertada, mas as notícias não falam realmente do tema. Os novos cálculos mostram que, na primeira semana depois do acidente, foi libertada de 2 a 3 vezes tanta radiação como a que pensaram que tinha sido libertada nos primeiros 80 dias. Segundo Gundersen, os reactores e núcleos de combustível expostos continuam a libertar micra de isótopos de césio, estrôncio e plutónio. São as chamadas “hot particles” (partículas quentes ou partículas perigosas). “Estamos a descobrir partículas perigosas em praticamente todas as partes do Japão, inclusive em Tóquio”, revelou.

“Os cientistas estão a encontrá-las por toda a parte. Nos últimos 90 dias essas partículas perigosas continuaram a cair e estão a depositar-se em altas concentrações. Muita gente está a absorvê-las pelos filtros de ar dos motores dos automóveis”. Os filtros de ar radioactivos em automóveis em Fukushima e Tóquio tornaram-se comuns e Gundersen diz que as suas fontes já encontraram filtros de ar radioactivos na região de Seattle, nos EUA. As partículas perigosas que contêm também podem provocar cancro.

“Elas fixam-se nos pulmões ou no trato gastrointestinal e provocam uma irritação constante”, explicou. “Um cigarro não te mata, mas com o tempo acaba por fazer isso. Essas partículas podem causar cancro, mas não podem ser medidas com um contador Geiger. Evidentemente, a população de Fukushima aspirou essas partículas em grandes quantidades. Evidentemente, há pessoas na Costa Oeste superior dos EUA que estão a ser afectadas. Essa região foi bastante afectada (pela radiação) em Abril”.

Culpar os EUA?

Como reacção à catástrofe de Fukushima, a Alemanha vai eliminar progressivamente todos os seus reactores nucleares durante a próxima década. Num referendo na semana passada, cerca de 95% dos italianos votou a favor de interromper a retoma da energia nuclear no seu país. Uma recente sondagem realizada no Japão mostra que cerca de três quartos dos entrevistados estão a favor de uma eliminação progressiva da energia nuclear no seu país.

A empresa nuclear Exelon Corporation foi uma das maiores doadoras da campanha eleitoral de Barack Obama e é uma das grandes empregadoras em Illinois, Estado onde Obama foi senador. A Exelon doou até agora mais de 269.000 dólares para as suas campanhas políticas. Obama também nomeou o presidente executivo da Exelon, John Rowe, para a sua Comissão Faixa Azul sobre o Futuro Nuclear nos EUA.

O doutor Shoji Sawada é um físico teórico de partículas e professor emérito da Universidade Nagoya, no Japão. Os modelos de centrais nucleares no Japão o preocupam, assim como o facto de que a maioria delas foi desenhada nos EUA. “A maioria dos reactores do Japão foram desenhados por empresas que não estavam preocupadas com o efeito de terremotos”, disse Sawada a Al Jazeera. “Penso que este problema se aplica a todas as centrais de energia nuclear em todo o Japão”.

O uso de energia nuclear para produzir electricidade no Japão é produto da política nuclear dos EUA. O doutor Sawada pensa que essa é uma parte muito importante do problema. “A maioria dos cientistas japoneses naquela época, em meados dos anos cinquenta, considerava que a tecnologia da energia nuclear estava em desenvolvimento ou não suficientemente estabelecida, e que era demasiado cedo para dar-lhe um uso prático”, explicou. “O Conselho de Cientistas do Japão recomendou ao governo japonês que não utilizasse essa tecnologia, mas o governo aceitou o uso de urânio enriquecido para alimentar centrais de energia nuclear e, assim, viu-se submetido à política do governo dos EUA”.

Quando tinha 13 anos, o doutor Sawada viveu o ataque nuclear dos EUA contra o Japão, desde a sua casa, situada a apenas 1.400 metros do epicentro da bomba de Hiroshima. “Penso que o acidente de Fukushima levou a povo japonês a abandonar o mito de que as centrais de energia nuclear são seguras”, disse. “Agora, as opiniões do povo japonês mudaram rapidamente. Muito mais da metade da população acredita que o Japão deve voltar-se para a electricidade natural”.

Um problema de infinitas proporções

O doutor Ramana espera que os reactores e os núcleos de combustível da central estejam suficientemente frios para um encerramento dentro de dois anos. “Mas será preciso muito tempo antes que o combustível possa ser removido do reactor”, acrescentou. “Não há dúvida de que será preciso enfrentar o problema das rachas, da estrutura da central e da radiação na área durante vários anos”. Sawada não é tão claro sobre quanto poderia demorar um encerramento completo, mas disse que o problema serão os efeitos do césio-137 que permanece no solo e a água contaminada ao redor da central eléctrica e debaixo dela. Enfrentar esse problema levará um ano, ou mais.

Gundersen assinalou que as unidades continuam a emitir radiação. “Ainda estão a emitir gases radioactivos e uma quantidade enorme de líquido radioactivo. Levará pelo menos um ano até que deixe de ferver, e até que isso ocorra, estará a produzir vapor e líquidos radioactivos”.

Gundersen está preocupado com possíveis réplicas do terremoto, assim como com o resfriamento de duas das unidades. “A unidade quatro é a mais perigosa e corre o risco de colapsar. Depois do terremoto em Sumatra houve uma réplica de 8,6 uns 90 dias depois, de modo que ainda não estamos a salvo. E estamos numa situação na qual, se ocorrer algo, não existe ciência para isso, ninguém nunca imaginou que teríamos combustível nuclear quente fora do tanque. Não encontraram ainda uma maneira de esfriar as unidades três e quatro”. A avaliação de Gundersen sobre uma solução para essa crise é sombria:

“As unidades um, dois e três têm dejectos nucleares no fundo, o núcleo fundido, e contêm plutónio, que levará algumas centenas de milhares de anos para ser eliminado do ambiente. Além disso, terão que entrar com robôs e conseguir colocá-lo num contentor para guardá-lo infinitamente, e essa tecnologia não existe. Ninguém sabe como recolher o núcleo fundido do solo, e não existe uma solução actualmente para o fazer”.

O doutor Sawada diz que a fissão nuclear gera materiais radioactivos para os quais simplesmente não existe conhecimento necessário para nos informar sobre como lidar de modo seguro com esses dejectos radioactivos. “Até que saibamos como lidar com segurança com os materiais radioactivos gerados por centrais nucleares, deveríamos postergar essas atividades para não causar mais danos às futuras gerações. Fazer outra coisa é simplesmente um acto imoral, e acredito nisso tanto como cientistas quanto como sobrevivente do bombardeamento atómico de Hiroshima”.

Gundersem acredita que os especialistas precisarão de pelo menos dez anos para desenhar e implementar o plano. “Assim, daqui a 10 ou 15 anos, a contar de agora, talvez possamos dizer que os reactores foram desmantelados e, neste período, conseguir-se-á terminar a contaminação da água. Já temos estrôncio 250 vezes acima dos limites permitidos no nível aquífero em Fukushima. Os níveis aquíferos contaminados são incrivelmente difíceis de limpar. Portanto, penso que teremos um aquífero contaminado na área da central de Fukushima durante muito, muito tempo”.

Desgraçadamente, a história dos desastres nucleares parece confirmar a avaliação de Gundersen. “Com Three Mile Island e Chernobyl, e agora com Fukushima, pode-se precisar o dia e a hora exacta em que esses desastres começam, mas nunca quando terminam”.

Tradução de Katarina Peixoto, para Carta Maior

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