Israel sabia dos ataques do Hamas e volta a matar na Palestina

01 de dezembro 2023 - 10:56

No dia em que o New York Times revela que oficiais israelitas tinham conhecimento há um ano que o Hamas preparava ataque, Israel volta a bombardear causando nas primeiras horas pelo menos mais 32 mortes. A ONU confirma os números gerais de mortes do Ministério da Saúde de Gaza. Presos palestinianos queixam-se de tortura.

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Bombardeamentos em Gaza esta manhã. Foto de ATEF SAFADI/EPA/Lusa.
Bombardeamentos em Gaza esta manhã. Foto de ATEF SAFADI/EPA/Lusa.

O cessar-fogo entre Israel e Hamas terminou esta sexta-feira depois do acordo ter permitido a libertação de mais de oitenta israelitas e perto de vinte estrangeiros para além de 240 palestinianos. Na versão dos militares do Estado sionista foi o grupo islamita radical que primeiro “violou” a “pausa operacional” nos combates por ter sido lançado um foguete a partir de Gaza e depois a sua aviação e peças de artilharia pesada voltaram a bombardear o território na manhã desta sexta-feira. O resultado são pelo menos mais 32 palestinianos mortos de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza.

O repórter Tareq Abu Azzoum, da Al Jazeera, informa que “a Faixa de Gaza está sob fogo de artilharia pesada e até bombardeamentos das forças de ocupação. Nas próximas horas, poderemos testemunhar um grande aumento no número de ataques israelitas em todo o território”, acredita.

Já na Cisjordânia, Israel diz ter prendido 15 palestinianos durante esta madrugada.

ONU: Números de mortos do Ministério da Saúde de Gaza estão corretos

A ONU estima que dois terços dos habitantes da Faixa de Gaza, perto de 1,7 milhões de pessoas, foram obrigados a abandonar as suas casas devido aos ataques israelitas que terão destruído cerca de 300.000 habitações. Haverá desaparecidas sob os escombros dos ataques do exército sionista cerca de 6.500 pessoas.

A mesma instituição contrariou esta quinta-feira a propaganda israelita que se tem esforçado por fazer passar a ideia de que os números de mortos e feridos que vão sendo divulgados pelo Ministério da Saúde do território seriam exagerados. De acordo com Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, estes dados “estão fundamentalmente corretos”. Aponta-se para que tenham morrido desde 7 de outubro mais de 15 mil palestinianos.

Israel sabia há mais de um ano do plano de ataque do Hamas

Numa investigação realizada a partir de documentos, e-mails e entrevistas, o New York Times revela esta sexta-feira que os detalhes do ataque do Hamas a território israelita do passado dia 7 de outubro era já conhecido por oficiais do exército israelita há perto de um ano mas estes não acreditaram que tal fosse possível.

Os serviços secretos israelitas teriam tido acesso a um documento de 40 páginas, com o nome de código “Muro de Jericó” que elaborava o plano de ataque com drones para destruir câmaras de segurança e com a entrada de guerrilheiros a pé, de mota ou de parapente.

A investigação não descobriu se o alto escalão político israelita teve acesso a estes documentos.

Prisioneiros palestinianos trazem relatos de tortura

O jornal Público compila casos de denúncias de palestinianos que sofreram violência e tortura nas prisões israelitas. De acordo com o diário, o número de presos palestinianos quase duplicou e um terço de todos os prisioneiros não é alvo de qualquer acusação formal : “desde 7 de Outubro, Israel já prendeu mais de 3.200 palestinianos, incluindo 200 menores e 30 jornalistas. Muitos terão sido alvo de tortura física e psicológica nas últimas semanas. Pelo menos seis prisioneiros morreram, em circunstâncias que continuam por esclarecer”.

As detenções “administrativas”, ou seja sem qualquer acusação formal e por tempo indeterminado “dispararam”, acrescenta-se “tal como as rusgas noturnas e incursões militares”.

Por exemplo, Mohammed Mattar e Mohammed Khaled, que estavam numa aldeia a leste de Ramallah na tentativa de “ajudar uma série de famílias a fugir da crescente violência na Cisjordânia” foram presos, ameaçados de morte pelos israelitas e espancados. Em relato à Amnistia Internacional contaram que lhe urinaram sobre o corpo, que os queimaram com cigarros e houve tentativas de agressões sexuais com um objeto.

Fatma Shaheen foi detida acusada de tentativa de esfaqueamento de um colono em abril. Foi alvejada “várias vezes”, no abdómen, nas costas e numa perna, ficando dependente de uma cadeira de rodas. Depois de sete meses de detenção foi libertada sem que tivesse chegado a haver qualquer caso ou condenação.

Os palestinianos que chegam a ser condenados são-no por tribunais militares acusado de não serem parciais e que têm “taxas de condenação que chegam a atingir os 99%” avança ainda o mesmo jornal.

O ativista palestiniano Ramzi Abbasi, libertado esta semana, conta que os prisioneiros estão “em condições terríveis. Há 60 dias que não vemos o Sol. Há 60 dias que somos agredidos” e que “sofríamos abusos constantes e inimagináveis. Na prisão al-Naqab estão mais de 3000 prisioneiros, está a tornar-se um cemitério. Alguns tinham pernas partidas, braços partidos.”

“Comemos uma refeição por dia. Muitas vezes dormimos sem cobertores, em colchões no chão. Confiscaram tudo. Ontem tomei o meu primeiro banho em duas semanas, estou a usar a mesma t-shirt há 60 dias. O cheiro era insuportável”, acrescenta. É mais um dos que nunca chegou a saber do que seria acusado.

Para além disso, a mesma reportagem informa que as famílias destes presos “têm denunciado rusgas às suas casas antes do regresso dos detidos e ameaças de retaliação pelos militares israelitas caso falem com jornalistas”. À Al-Jazeera Mohammad Tamimi, um jovem de 18 anos, conta que foi avisado pelos guardas: “diz aos teus amigos que se fizerem uma grande festa tu voltas para a prisão”. O próprio ministro do Interior israelita tinha avisado que não podiam haver manifestações de alegria com o regresso de alguns dos prisioneiros, ordenando a repressão forte e afirmando que “manifestações de alegria equivalem a apoiar o terrorismo. Celebrações de vitória dão força a essa escumalha humana, a esses nazis.”