Depois do silêncio inicial após o anúncio do cessar-fogo por parte dos Estados Unidos e do Irão, o gabinete do primeiro-ministro israelita fez saber à imprensa que apoiava a pausa de duas semanas nos combates, mas que este cessar-fogo não abrange a sua guerra no Líbano que desde 28 de fevereiro já fez cerca de 1.500 mortos e obrigou a deslocar mais de um milhão de pessoas naquele país.
As declarações atribuídas ao governo israelita contrariam as do primeiro-ministro paquistanês, que mediou o cessar-fogo e afirmou que este incluía as guerras travadas pelos aliados de ambas as partes, referindo expressamente o Líbano. Também o Hezbollah anunciou que iria cumprir o cessar-fogo acordado, deixando de alvejar as tropas israelitas que invadiram território libanês.
Entrevista
A guerra contra o Líbano é consequência da “ausência de responsabilização” por Gaza
Na manhã de quarta-feira, Israel continuou a bombardear e emitir ordens de evacuação para várias localidades, enquanto o governo libanês aconselhou os seus cidadãos a não regressarem às suas casas no sul do país nem se aproximarem das zonas controladas pelos militares israelitas. O líder do parlamento libanês, o xiita Nabih Berri, contactou o embaixador paquistanês para he dar conta das repetidas violações do cessar-fogo por parte de Israel. A Al Jazeera noticia que até meio d manhã as autoridades libanesas ainda não tinham sido postas ao corrente dos detalhes do acordo de cessar-fogo que dizem respeito ao seu país.
Na Europa, o presidente francês Emmanuel Macron veio defender que o cessar-fogo se deve aplicar ao Líbano, tal como o fez o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol. Também o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Johann Wadephul, diz ter contactado o homólogo israelita para transmitir a posição de que Israel se deve limitar a “ações de autodefesa necessárias” contra o Hezbollah. Após estas intervenções, um porta-voz da Comissão Europeia apelou a Israel para que cesse as operações militares no Líbano.
Em Israel, onde passadas dez horas do anúncio do cessar-fogo o governo ainda não fez uma declaração ao país, o líder da oposição Yair Lapid não poupou críticas a Netanyahu pelo seu apoio ao cessar-fogo, responsabilizando-o pelo “fracasso político e estratégico” do acordo entre EUA e Irão. “Nunca vimos um desastre político como este na nossa história. Israel nem sequer esteve presente quando foram tomadas decisões sobre o cerne da nossa segurança nacional”, afirmou Lapid na rede social X, concluindo que “levará anos a corrigir os danos políticos e estratégicos que Netanyahu causou devido à sua arrogância, negligência e falta de planeamento estratégico”. Merav Ben Ari, outra deputada do mesmo partido, o Yesh Atid, criticou o silêncio do governo e prevê que “tal como em Gaza, o temporário tornar-se-á permanente e ninguém tomará uma decisão. Há um presidente nos EUA, ele é o soberano; todo o resto da liderança aqui é um bando de lacaios”.
A reação ao anúncio de cessar-fogo foi de alívio em todo o mundo, sobretudo após a ameaça de Donald Trump de cometer genocídio, quando afirmou que iria destruir “uma civilização inteira” numa noite. O primeiro-ministro espanhol destoou desta mensagem, afirmando que “o alívio momentâneo não pode fazer-nos esquecer o caos, a destruição e as vidas pedidas” e concluindo que o seu governo “não aplaudirá os que incendeiam o mundo por depois aparecerem com um balde”.
A diplomacia chinesa também saudou o acordo, com um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros a sublinhar que a China também contribuiu para uma solução de paz duradoura. A imprensa internacional tinha noticiado que a intervenção chinesa foi decisiva para o Irão chegar a um entendimento. Pelo Kremlin falou a ministra Maria Zakharova para referir a “derrota esmagadora” dos EUA e Israel e lembrar que a Rússia sempre disse que não havia solução militar para a situação.