India no G20 e nos BRICS

05 de novembro 2023 - 17:59

Nesta entrevista, Sushovan Dhar aborda o papel da India na atual geopolítica, no G20 e a sua participação nos BRICS. Este artigo é a segunda parte de “Índia no plano geopolítico e diplomático”.

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Cimeira do G20 – Nova Delhi, 10 setembro 2023, Foto de India Press Information/Epa/Lusa - “O primeiro-ministro indiano afirma que o seu país está “a tornar-se a voz do Sul”
Cimeira do G20 – Nova Delhi, 10 setembro 2023, Foto de India Press Information/Epa/Lusa - O primeiro-ministro indiano afirma que o seu país está “a tornar-se a voz do Sul”

Sushovan Dhar é ativista laboral e membro do CADTM (comité para a abolição das dívidas ilegítimas) Índia. A entrevista foi dada a Pierre Rousset, a propósito da cimeira do G20 realizada em Nova Delhi, capital da Índia, em setembro de 2023 e publicada em ESSF – Europe Solidaire Sans Frontières. A primeira parte da entrevista foi publicada no artigo “Índia no plano geopolítico e diplomático”.

A China esteve ausente do G20. Pensas que foi por que razões? Os conflitos fronteiriços e os novos mapas de áreas fronteiriças contestadas publicados em Pequim? A concorrência económica entre as duas potências?

Quando os dirigentes mais poderosos do mundo se reuniram em Nova Deli, no mês passado, foi estranho constatar que o líder chinês Xi Jinping não estava entre eles, ele que nunca faltou a uma cimeira do G20, desde que chegou ao poder em 2012. Como é frequentemente o caso com o opaco processo de tomada de decisões de Pequim, nenhuma explicação foi dada para a decisão de Xi Jinping de não participar numa grande reunião global à qual a China deu grande prioridade no passado.

No entanto, no contexto da rivalidade entre a China e os Estados Unidos, os analistas estimam que a ausência de Xi do G20 poderá também ser o sinal da sua desilusão com o sistema mundial de governação e as estruturas existentes, que considera como demasiado dominadas pela influência americana.

Há um elemento de desobediência deliberada em relação à Índia, mas também poderá ser uma declaração de que Xi Jinping estima que existem diferentes estruturas de governação importantes e que o G20 talvez não seja uma delas. Pequim irritou-se com os laços crescentes de Nova Delhi com Washington, em particular com o seu envolvimento no Quadrilateral (Quad)1, um grupo de segurança coletiva liderado pelos EUA e considerado por Pequim como uma "NATO Indo-Pacífico". A China vê a Índia no campo anti-chinês e, portanto, não quer acrescentar valor a uma grande cimeira internacional organizada pela Índia.

Em que medida a Índia pode oferecer uma alternativa aos capitais que pretendem reduzir a sua dependência da China? Comparando com outros países, como o Vietname? Estamos a falar de ecossistemas económicos que consolidaram a força de atração chinesa e que não são fáceis de reproduzir…

Um relatório recente do Rhodium Group, um grupo de investigação neoliberal, sublinha que as empresas norte-americanas e europeias estão a transferir os seus investimentos da China para outros mercados em desenvolvimento, com a Índia a receber a grande maioria destes capitais estrangeiros reorientados, seguida por México, Vietname e Malásia. Estas empresas viram as costas à segunda maior economia do mundo, apesar de a sua quota no crescimento mundial continuar a aumentar. O valor dos investimentos anunciados dos EUA e da Europa na Índia disparou cerca de 65 mil milhões de dólares, ou 400%, entre 2021 e 2022, enquanto os investimentos na China caíram para menos de 20 mil milhões de dólares no ano passado, depois de atingirem um pico de 120 mil milhões de dólares em 2018.

Os círculos oficiais indianos e os meios de comunicação social mostraram-se eufóricos com estes desenvolvimentos recentes. Dado que a economia indiana é assolada por muitas incertezas, especialmente a crescente crise na criação de empregos, a notícia de uma transferência de investimentos da China para a Índia constituirá um impulso para o governo Modi. Os economistas, os analistas e os especialistas são da opinião de que cada vez mais pessoas estão à procura de emprego, especialmente os jovens, procurando empregos ocasionais mal remunerados ou recorrendo a empregos independentes pouco fiáveis, apesar de se prever que a economia da Índia, como um todo, cresça 6,5% durante o exercício financeiro que termina em março de 2024, o que é um recorde mundial.

O desemprego urbano na Índia disparou durante a pandemia da COVID-19, atingindo um máximo de 20,9% no trimestre abril-junho de 2020, enquanto os salários caíam. Embora a taxa de desemprego tenha diminuído desde então, há menos empregos a tempo inteiro disponíveis. É importante notar que em 2022/23, a economia indiana teve um crescimento de 7,2%, mais forte do que o previsto, impulsionada por investimentos em capital do governo. Mas o consumo privado, que representa 60% do PIB da Índia, cresceu apenas 2-3% no segundo semestre, à medida que as despesas eram cortadas e os efeitos de base se desvaneciam.

Apesar de um mercado importante e em constante crescimento, de uma oferta abundante de mão-de-obra barata e de um crescimento económico decente, a Índia está a ter dificuldade em atrair capital estrangeiro suficiente para aumentar o investimento global e as taxas de crescimento e tirar partido da atual situação geopolítica favorável.

O investimento direto estrangeiro (IDE), incluindo lucros reinvestidos e compras de ações, caiu 16,3%, para 71 mil milhões de dólares, no ano fiscal encerrado em 31 de março passado. O IDE líquido registou um declínio ainda mais acentuado, caindo 27% para 28 mil milhões de dólares, num contexto de maior repatriação de lucros.

É surpreendente constatar que isto está a acontecer numa altura em que os países e as empresas estão interessados em reduzir a sua exposição à China e parece considerarem a Índia de forma favorável, pelo seu potencial para se tornar a próxima fábrica do mundo.

Os apoiantes do governo do primeiro-ministro Narendra Modi afirmam que o declínio atual é um fenómeno temporário e que a situação deverá melhorar em breve. No entanto, não é segredo para ninguém que o Vietname tem sido até agora um beneficiário muito maior do investimento de empresas que se deslocam para uma cadeia de abastecimento “China mais um”2.

Por trás dos números-chave, pode-se observar que o IDE na Índia, proveniente de países asiáticos como Singapura, Japão e Emirados Árabes Unidos, aumentou substancialmente no ano passado. Foram os fluxos provenientes de fontes mais tradicionais de IDE, como os Estados Unidos, a ilha Maurícia, os Países Baixos, as ilhas Caimão e a Alemanha, que diminuíram.

Os relatórios também indicam que as fábricas chinesas estão a mudar-se, mas não para a Índia ou o México. As empresas que procuram alternativas à China descobrem que o vasto interior do país ainda oferece grandes vantagens.

Na ausência de Moscovo e Pequim, Modi teve facilidade em apresentar-se como porta-voz do Sul ou dos não-alinhados, como dizem alguns, uma frase com conotações históricas progressistas. Mas o contexto mundial e os regimes políticos mudaram muito desde os anos 50 e 60. Que achas?

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, afirma que o seu país está “a tornar-se a voz do Sul”. A Índia “em ascensão” agiu agressivamente para defender as nações em desenvolvimento, procurando compromissos em tempos de polarização e prometendo fazer ouvir as suas vozes na América.

O primeiro-ministro indiano afirma que o seu país está “a tornar-se a voz do Sul”

O governo Modi afirma que, com a ajuda de outros países em desenvolvimento, a Índia persuadiu os Estados Unidos e a Europa a suavizar a sua declaração sobre a invasão russa da Ucrânia, para que o fórum pudesse concentrar-se nas preocupações dos países mais pobres, incluindo a dívida global e o financiamento climático. A Índia também presidiu à admissão da União Africana no G20, colocando-a em pé de igualdade com a União Europeia.

Não se pode negar que, numa altura em que uma espécie de nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China parece enquadrar todas as discussões mundiais, o discurso da Índia tem uma certa atração. Nem os Estados Unidos nem a China são particularmente populares entre os países em desenvolvimento. Os Estados Unidos são criticados por se concentrarem mais no seu poder militar do que na assistência económica. A peça central da ação da China – a sua iniciativa de infraestruturas “nova rota da seda” – provocou reações negativas, uma vez que Pequim se opôs à renegociação de uma dívida esmagadora que deixou muitos países a enfrentar risco de incumprimento de pagamento.

O que temos hoje não é o regresso do antigo não-alinhamento, mas a emergência de uma nova atmosfera política e de uma nova constelação política que procura precisamente o seu lugar na escala imperialista

O termo “não alinhados” é cada vez mais utilizado para se referir a esta nova tendência na política internacional. Este termo tem origem na Conferência dos Não-Alinhados realizada em Belgrado (Jugoslávia) em 1961 e que se apoiou nas bases lançadas na Conferência Ásia-África realizada em Bandung (Indonésia) em 1955. Na altura, os países não-alinhados diziam respeito a países liderados por movimentos enraizados no projeto profundamente anticolonial do Terceiro Mundo, que procurava estabelecer a soberania de novos Estados e a dignidade dos seus povos. Este momento de não-alinhamento foi eliminado pela crise da dívida da década de 1980, que começou com o incumprimento do México em 1982. O que temos hoje não é o regresso do antigo não-alinhamento, mas a emergência de uma nova atmosfera política e de uma nova constelação política que procura precisamente o seu lugar na escala imperialista.

A solidariedade com as pessoas não deve ser identificada com o alinhamento com os Estados... Vale a pena recordar isto num momento de alargamento dos BRICS.

Como sabemos, o “anti-imperialismo dos BRICS” não é necessariamente anti-capitalismo. Noutros termos, Putin, Modi, Ramaphosa, Xi Jinping e outros podem dizer algumas coisas contra os Estados Unidos, mas isso não significa que as suas políticas internas favoreçam os pobres ou a classe trabalhadora. Infelizmente, muitos progressistas são apanhados pela retórica antiamericana dos BRICS e vêem uma forte virtude no baluarte sino-russo contra a maior hegemonia imperialista do mundo, os Estados Unidos. Eu penso que eles estão a ser induzidos em erro pela aparente retórica anti-imperialista radical destinada a dissimular um conservadorismo profundo e os ataques aos membros da sua própria classe trabalhadora.

É neste contexto que devemos insistir na solidariedade dos povos, ou naquilo que antigamente se chamava internacionalismo proletário. A unidade dos povos do mundo inteiro tem em conta a natureza social dos Estados e, como tal, vai contra os interesses dos Estados que procuram perpetuar a ordem capitalista.

A Índia faz parte de alianças de geometria variável, como a Quad... Joe Biden parece ter compreendido que era vão esperar conquistar Nova Delhi para uma aliança exclusiva. No entanto, ele sabe até que ponto este país contribui para o reforço das receitas petrolíferas da Rússia, vitais para apoiar o seu esforço de guerra na Ucrânia. Longe vão os dias em que Modi era persona non grata nos Estados Unidos após o massacre de muçulmanos em Gujarat!

Modi passou do estatuto de persona non grata, indesejada em solo americano, para se tornar uma celebridade convidada na cimeira da Casa Branca. Durante quase uma década, os Estados Unidos recusaram emitir visto a Modi, acusado de ter participado nos motins religiosos que mataram grande parte dos muçulmanos no estado indiano de Gujurat em 2002. Neste contexto, a chegada de Modi a Nova Iorque, após o seu acesso ao cargo de Primeiro Ministro da Índia, teve a aparência de uma volta vitoriosa.

Modi passou do estatuto de persona non grata, indesejada em solo americano, para se tornar uma celebridade convidada na cúpula da Casa Branca

A celebração de Modi em Washington pode ser vista como o culminar da crescente proximidade entre a Índia e os Estados Unidos, iniciada após o fim da Guerra Fria. Hoje, a Índia é cada vez mais vista no Ocidente como um contrapeso às ambições de poder da China, o que tornou o país mais atraente para os seus parceiros europeus e americanos. A Índia é também um dos poucos países que navega entre a China e a Rússia, por um lado, e o Ocidente e os seus aliados, por outro. É membro da Organização de Cooperação de Xangai, liderada pela China, e do grupo BRICS de países emergentes, ao mesmo tempo que faz parte da Quadrilateral, a aliança informal anti-China liderada pelos Estados Unidos.

A Índia é também um dos poucos países que navega entre a China e a Rússia, por um lado, e o Ocidente e os seus aliados, por outro

A Índia consolidou-se como um importante interlocutor das principais potências mundiais. Contudo, a ascensão de Nova Delhi está mais ligada aos recentes desenvolvimentos geopolíticos do que com a destreza diplomática do governo indiano. Acontece que a ascensão de Narendra Modi ao poder na Índia coincidiu com grandes mudanças geopolíticas no mundo, que está agora profundamente polarizado. As sementes destas divisões já tinham sido lançadas com a guerra na Crimeia, mas foram exacerbadas nos últimos meses, em particular desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Os anos marcados pela Covid-19, ao agravar a situação humanitária e económica, aprofundaram as divisões, que explodiram no período pós-Covid com a eclosão da guerra na Ucrânia.

Para concluir, como está a esquerda política e social na Índia? Como é que os seus diversos componentes tentam lidar com uma situação muito difícil, quando as leis sobre a segurança nacional permitem que a repressão atinja indiscriminadamente?

Infelizmente, a esquerda na Índia está no seu ponto mais baixo. Falo aqui da esquerda política e social. Os movimentos sociais de esquerda indianos, outrora poderosos, estão confrontados com o maior desafio da sua história, à medida que o partido ultranacionalista de Narendra Modi consolida a sua tomada de poder. Este momento de crise exige que os socialistas indianos repensem completamente a sua teoria e a sua estratégia.

A esquerda indiana está no seu ponto mais baixo, provavelmente no pior momento da sua história. A corrente principal da esquerda parlamentar, representada pelo Partido Comunista da Índia e pelo Partido Comunista da Índia (Marxista), não tem visão da luta anticapitalista e está a perder a sua base eleitoral. Há muito reduzidos a uma força eleitoral com uma base de quadros cada vez menor, que se agarra às velhas verdades estalinistas quando pensam no marxismo, os seus quadros, com algumas exceções em alguns lugares, perderam a capacidade e o interesse de prosseguir a política de mobilização popular em torno de reivindicações autênticas e justificadas. A crise que estes partidos enfrentam é muito pior do que a do Partido do Congresso. Nas eleições parlamentares de 2019, estes dois partidos conquistaram colectivamente apenas um assento no outrora suposto bastião da esquerda, Kerala, e quatro assentos no estado de Tamil Nadu, no sul, graças só à sua aliança de coligação com o partido de extrema esquerda Dravida Munnetra Kazhagam (DMK), ou Conferência Dravidiana Progressista.

As organizações maoistas estão confinadas às florestas da Índia central, isoladas pelo seu sectarismo político. Entre os vários grupos maoistas que evoluíram para a política parlamentar, a CPIML (Libertação) é a força mais importante, presente em todo o país. Infelizmente, o radicalismo da organização, que tinha sido um ponto de atração no início dos anos 1990, está limitado aos campus universitários como a Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Delhi. A orientação geral do partido, embora se agarre a uma certa variante do estalinismo, está orientada para o parlamentarismo. Procura preencher o vazio criado pela retirada dos principais partidos comunistas através da via eleitoral. Atualmente, procura desesperadamente integrar-se na aliança eleitoral anti-BJP e possivelmente ganhar alguns assentos .

Na era dos hipernacionalismos em duelo, a esquerda deve construir uma alternativa às duas versões dominantes do nacionalismo, a do Congresso e a do BJP. Esta alternativa deve ser laica e democrática – democrática no sentido de que a nação não deve ser imposta ao povo; ele deve ter a escolha de aceitá-la ou rejeitá-la. A única opção realista é a criação de uma nova força de esquerda, muito mais radical, através de um processo que durante muito tempo será de acumulação molecular, mas que, para além de um ponto crítico, o seu crescimento poderá tornar-se muito mais repentino e espetacular. O desenvolvimento de quadros ideologicamente treinados e disciplinados, envolvidos em lutas concretas em múltiplas frentes e guiados por uma visão transformadora mais ampla de construção de um socialismo que transcende o capitalismo, cujo caráter democrático será muito mais profundo do que qualquer coisa que a democracia capitalista liberal possa esperar oferecer, estará no centro deste processo.

A luta para destruir a hegemonia do hinduísmo não pode ser separada deste outro projecto contra-transformador que é a construção de um socialismo democrático.


Segunda parte da entrevista de Sushovan Dhar a Pierre Rousset e publicada em ESSF – Europe Solidaire Sans Frontières (em francês e em inglês). Tradução de Carlos Santos para o Esquerda.net

Notas:

1 Diálogo de Segurança Quadrilateral, conhecido como Quad, fórum que inclui Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia. Criado em 2007, teve a primeira conferência de líderes em setembro de 2021 na Casa Branca.

2 Estratégia de grandes empresas internacionais de investirem não só na China, mas também noutro país asiático.