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A importância do 8 de março no contexto pandémico

Muito mais que um dia festivo ou de lembranças, o 8 de março é um dia de luta contra o patriarcado. Deve, por isso, ser palco de reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade e de reivindicação dos direitos que ainda não foram conquistados. Por Beatriz Vieira e Iara Sobral. 
Foto de Paula Nunes

A primeira referência ao 8 de março surge durante a segunda conferência internacional das mulheres em Copenhaga, onde Clara Zetkin propôs que as operárias do mundo inteiro se unissem e construíssem um dia para as mulheres e que tinha por objetivo promover o direito ao voto feminino.

Em 1917, esta questão volta a ganhar relevância quando, no dia 8 março desse ano, as mulheres russas estabeleceram esse dia como data comemorativa da luta das mulheres. As operárias e familiares de soldados do exército russo saíram à rua em Petrogrado, andando de fábrica em fábrica a convocar os trabalhadores para uma manifestação pelo fim da monarquia e contra a participação na Primeira Guerra Mundial por parte da Rússia.

Esta ação permitiu o fim da tirania czarista na Rússia e dá-se início então à revolução russa.

Em 1975, o 8 de março foi consagrado pelas Nações Unidas como Dia Internacional da Mulher. Apesar de nunca ter deixado de ser reivindicado como dia de luta.

O 8 de Março foi em parte apropriado pelo discurso do mercado. Este deixou de ser um dia de luta das operárias e das mulheres que lutavam por direitos que ainda estavam por adquirir na sociedade e passou a ser apresentado com um carácter comercial, tornando-se norma, em vários países, os homens e as empresas oferecerem rosas e prendas às mulheres nesse dia. Isto acontece porque há uma tentativa clara de mascarar o conteúdo e o significado deste dia, um dia em que serve para as mulheres refletirem sobre a opressão, violência e desigualdade sofrida por todas as mulheres a nível global. Fazem-no, pois sabem que se vincularem este dia à sua origem, que foi a luta socialista, põe em causa o status quo da sociedade capitalista e patriarcal.

A cada ano que passa vemos a greve feminista internacional a ganhar mais força nas ruas e mulheres que nesse dia manifestam e expõem os pilares que suportam a opressão que todas as mulheres sofrem. Pelo mundo fora, cada vez mais, o 8 de março é um dia de luta e é essencial recuperar esse carácter de luta, porque as rosas e os chocolates não apagam a violência e opressão que sofremos durante todo o ano, todos os anos das nossas vidas.

Este ano, o Dia Internacional das Mulheres torna-se ainda mais necessário e importante, pois a crise sanitária e socioeconómica ampliou as desigualdades de género e tornou ainda mais evidente o facto de as mulheres serem um dos grupos mais desprotegidos e precários da sociedade. A disparidade salarial continua a ser um problema, segundo o Relatório sobre o Progresso da Igualdade entre Mulheres e Homens no Trabalho, no Emprego e na Formação Profissional, 2019, a média salarial das mulheres é de 1.005€, enquanto a dos homens é de 1.230€. Este era o panorama antes da pandemia, mas o contexto pandémico agravou esta realidade. De acordo com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, em janeiro de 2021, eram 239 mil as mulheres desempregadas, ou seja, as mulheres representam 55% da população desempregada. Os trabalhos que se perderam em contexto pandémico foram, sobretudo, os mais precários e mal pagos. Não por coincidência, aqueles que são, normalmente, desempenhados por mulheres.

A conciliação entre a vida pessoal e profissional tornou-se ainda mais difícil. O trabalho doméstico, apesar de invisível, é um dos grandes pilares da nossa economia, e continua a ser atribuído às mulheres. As mulheres são as principais responsáveis pelo cuidado da casa e da família, já que 4 em cada 5 cuidadores informais são mulheres, em conformidade com o Inquérito Nacional dos usos do tempo em Os Usos do Tempo de Homens e Mulheres em Portugal, CIG. Ora, com o encerramento das creches e escolas, este problema tende a aumentar exponencialmente. Além do trabalho doméstico, há ainda a sobrecarga emocional deste não ser reconhecido. O trabalho doméstico invisível e não pago prejudica as mulheres, impedindo que as mesmas progridam nas suas carreiras profissionais.

No primeiro confinamento, a GNR e a PSP registaram um decréscimo de 39% das participações por violência doméstica em relação ao mesmo período do ano anterior, mas tal dado não deve ser tido como uma evidência da diminuição da violência machista, muito pelo contrário. Apesar das denúncias terem diminuído, o mesmo não ocorreu com a violência perpetrada em mulheres. Na verdade, é resultado de um maior controlo da vítima por parte do agressor, devido ao confinamento.

Apesar de o confinamento obrigatório ser algo novo para a generalidade da população, as mulheres sabem muito bem o que é não poder estar na rua a partir de certa hora. Além da Covid-19, as mulheres vivenciam ainda outra pandemia - a violência machista. Contra esta enfermidade, a luta feminista é a vacina!

Por isso, neste 8 de março é importante que nos mobilizemos e que juntas façamos esta luta. Por todas aquelas que foram assassinadas ou violadas e a sociedade as culpou dizendo que não deviam estar na rua àquela hora, ou que a roupa que levavam era muito curta; por todas aquelas que saíram para irem dançar com as suas amigas e nunca mais voltaram; por todas aquelas que por esse mundo fora morrem a tentar abortar clandestinamente; por todas aquelas que abraçaram a sua mãe sem saber que ia ser a última vez; porque estamos vivas, mas não sabemos até quando. Sejamos o grito das que já não têm voz e lutemos para que o simples facto de sermos mulheres não nos custe a vida.

Artigo de Beatriz Vieira e Iara Sobral. 

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