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Greve Feminista: "Queremos multiplicar vozes e construir pontes na sociedade"

Associações e coletivos prepararam o 8 de Março com uma série de debates feministas. Catarina Vitorino e Carla Branco, ativistas da Associação Centro de Vida Independente, falaram ao Esquerda.net sobre os objetivos da iniciativa e o impacto da pandemia na luta feminista.
Catarina Vitorino e Carla Branco.

O segundo de uma série de cinco debates da Greve Feminista tem lugar esta quarta-feira às 21h na página Facebook da associação SOS Racismo. Para saber mais sobre a preparação do 8 de Março em tempo de pandemia, falámos com duas ativistas ligadas à Associação Centro de Vida Independente. Catarina Vitorino é estudante de Doutoramento em Psicologia na Universidade de Coimbra, co-coordenadora da Delegação de Coimbra da Associação e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. Carla Branco é Doutoranda em Psicologia Social no ISCTE-IUL e defensora de uma sociedade feminista e anticapacitista.

Quais os objetivos deste ciclo de Conversas Feministas?

O principal objetivo do ciclo de Conversas Feministas é promover o debate sobre os grandes pilares da greve feminista, multiplicando as vozes e construindo pontes entre os principais setores da sociedade.

Ao longo das cinco Conversas Feministas, que designámos “A Caminho do 8 de março”, pretendemos abordar as múltiplas faces que compõem a luta feminista. Em cada um dos debates, será proposta uma reflexão conjunta, não só para quem está a dinamizar o debate, mas também para quem está a assistir. Na nossa perspetiva, o ativismo só faz sentido se chegar, de facto, a todas as pessoas e se as envolver em todas as fases do processo. Deste modo, sentimos que seria fundamental preceder a Greve Feminista com estes momentos de discussão, criando uma base de entendimento comum, a partir da qual toda gente pode, em conjunto, começar a construir este caminho connosco para o futuro.

Por outro lado, esta é uma mobilização coletiva, que pretende lutar por uma sociedade mais justa e inclusiva, ou seja, também se materializa através da representatividade da sua população. A força das nossas lutas é tanto maior, quanto mais vozes conseguirmos juntar e multiplicar. Sendo que a construção de propostas deve ser feita conjuntamente, convocamos todas as pessoas interessadas a juntar-se a nós nesta luta!

Que temas discutiram no debate inaugural do passado sábado?

A primeira conversa feminista, “Feminismos a caminho do 8M”, serviu como ponto de partida para todas as que se seguem. Tinha como principal objetivo fazer uma contextualização histórica e um enquadramento do movimento feminista, respondendo às questões “de onde vimos?” e “para onde vamos?”. O palco foi inaugurado com alguns dados de estudos da atualidade, que comprovam os problemas e as desigualdades que a mulher enfrenta no seu quotidiano, agora agravados pela crise pandémica, económica e social. Foi transmitido através da página de Facebook d’A Coletiva, tendo como moderadora Andreia Quartau e como convidada Rebeca Gomes de Freitas, historiadora e socióloga, investigadora no Coletivo Afreketê, sobre a relação entre género, raça e classe. Durante, aproximadamente, 1h15min foram debatidas várias interseções do feminismo, principalmente, com a raça e a etnia, realçando-se a importância do feminismo interseccional, que se pretende representativo das diversas lutas das categorias sociais oprimidas. Realça-se a quantidade de questões que ficaram em aberto, mas que certamente voltarão a ser abordadas ao longo das próximas conversas.

 

E o que é que vai acontecer a 8 de Março?

Convocar o dia 8 de março é, para nós, imperativo! A forma como o faremos está dependente da evolução da situação pandémica e, naturalmente, das orientações das entidades de saúde pública. No entanto, a ocupação do espaço público é fundamental para que as nossas reivindicações sejam ouvidas e tenham um eco efetivo. De salientar ainda que esta ocupação da rua pode ser realizada de diversas formas, sendo que o limite é sempre a nossa criatividade.

No que diz respeito à Greve Feminista, esta está convocada e, como sempre, vai muito para além do conceito de greve a que estamos habituadas e habituados, uma vez que o trabalho que a mulher exerce ultrapassa também a dimensão do emprego tradicional, estendendo-se ao âmbito da reprodução social, aos trabalhos inivisibilizados domésticos e dos cuidados. Traz à luz do dia o peso associado ao papel da mulher e coloca a nú a sua importância para a engrenagem que faz com que a sociedade não pare. Porque sabemos também que muitas de nós não podem parar, mobilizamo-nos em sua representação, para que todas, sem exceção, sejam ouvidas.

Que impacto teve a pandemia e os confinamentos na vossa intervenção?

Podemos destacar impactos da pandemia a dois níveis. Primeiro, um impacto em termos práticos na própria organização da Greve Feminista. Devido ao confinamento, tivemos que adaptar as conversas para o formato digital. Contudo, parece-nos também que este formato permite-nos chegar a pessoas de todas as áreas geográficas de Portugal. Por outro lado, o maior impacto prende-se com a impossibilidade de marcarmos o dia 8 de março com uma grande manifestação, à semelhança dos anos anteriores. Esse será o nosso principal desafio, mobilizar a sociedade para que tenha um impacto real na sua dinâmica.

Segundo, podemos destacar o impacto da pandemia para a própria luta feminista, uma vez que a pandemia veio salientar a importância de diversos aspetos já apontados pelo feminismo anteriormente. A chamada linha da frente é composta, na sua maioria, por mulheres auxiliares de saúde (92%), enfermeiras (82%), médicas (55%) e cuidadoras (80%). No entanto, o trabalho das mulheres continua a ser menos reconhecido, comparativamente ao dos homens. Em média, a diferença salarial entre homens e mulheres é de 52 dias de trabalho pago, o que significa que as mulheres trabalham aproximadamente 2 meses de graça. São também as mulheres a maior categoria a ganhar o salário mínimo. Nestes tempos de pandemia, vários dos setores mais afetados pelas restrições são compostos maioritariamente por mulheres, como o setor das limpezas, os cabeleireiros e as esteticistas (composto em 90% por mulheres), e o atendimento ao balcão e comércio (composto em 64% por mulheres).

Para além desta diferença no emprego formal, as mulheres gastam em média, aproximadamente, mais duas horas diárias do que os homens em tarefas domésticas e do cuidado, um trabalho não remunerado e ainda invisibilizado.

Em cima de tudo isto, 85% das famílias monoparentais são compostas por mulheres, o que numa altura de confinamento, vem agravar toda a dinâmica doméstica e laboral, obrigando a uma gestão quase impossível entre o tempo dedicado ao apoio às crianças em ensino online e o horário de trabalho (para quem o tem).

As violências são muitas, complexas e distintas e os problemas são estruturais. Por isso, estamos convictas da importância da interseccionalidade e de efetivar o compromisso numa construção coletiva, onde sabemos que todas as vozes contam e todas as vidas (todas) têm direito a uma condição de dignidade e justiça. Propomos o feminismo como programa de ação e, neste sentido, é crucial ativar a escuta e construir com todas, e para todas, propostas de mudança.
 

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