Das duas uma: ou Ibrahim Traoré está deliberadamente a usar uma falsa equivalência para justificar o seu claro desejo de tomar o poder, ou apenas conhece as formas mais distorcidas de democracia. Mas uma coisa é certa: ele não estava a falar de democracia quando disse aos nossos colegas que esta "não é para nós". O "nós", supostamente, a referir-se aos africanos. Ao adotar argumentos enganosos, imprecisos e frágeis, disseminados aqui e ali por pseudo-intelectuais que se apresentam como defensores de África, ele nem sequer parece perceber que está a propagar, por vezes de forma involuntária, teorias que tendem a confinar o continente a uma espécie de atraso. É ainda mais lamentável que, através deste discurso, ele consiga desviar uma parte da juventude africana para aquilo que equivale a uma perigosa má interpretação. Daí a importância de investir na educação, a única via capaz de nos libertar primeiro das nossas próprias amarras, personificadas por aquelas elites locais que frequentemente oscilam entre posturas heroicas e práticas contrárias ao progresso.
Aí reside o paradoxo. Aqueles que denunciam veementemente a suposta incompatibilidade entre a democracia e África apresentam-se frequentemente como os mais fervorosos defensores do continente. Criticam, e por vezes com razão, a condescendência de certos parceiros ocidentais, os desequilíbrios nas relações internacionais e as formas persistentes de racismo. Mas, ao mesmo tempo, eles próprios alimentam preconceitos contra os africanos ao afirmarem que a democracia é alheia às nossas realidades.
Na verdade, os que propagam esta ideia exploram frequentemente as crises eleitorais observadas no continente para se furtarem a qualquer responsabilização. Por trás desta suposta incompatibilidade esconde-se uma agenda política: a tomada do poder e a manipulação da opinião pública. Embora Ibrahim Traoré e os seus pares invoquem constantemente o povo, as suas ações parecem ser motivadas principalmente por interesses próprios.
Para além da repressão política, das restrições de liberdades e das dificuldades socioeconómicas que estas lógicas podem gerar, esta visão constitui um forte entrave à emancipação do continente. Porque afirmar que África seria incompatível com a democracia equivale, nas entrelinhas, a negar aos africanos valores universais como a liberdade, a justiça ou mesmo a igualdade. Quase parece que ouvimos Nicolas Sarkozy a censurar o homem africano por não ter entrado o suficiente na história, durante o seu discurso de Dakar, em julho de 2007.
Ao concentrarem-se exclusivamente na dimensão eleitoral, estes discursos silenciam os princípios fundamentais da democracia. Sendo assim, com que bases se pode reivindicar a igualdade de tratamento nas relações internacionais, se nós próprios rejeitamos os valores que fundamentam essa exigência?
É verdade que, em muitos países africanos, as eleições nem sempre foram sinónimo de progresso. Demasiadas vezes, estiveram associadas a tensões, ou mesmo a violência, sangue e lágrimas. Mas a responsabilidade não recai sobre a democracia em si. Reside, antes, na recusa, por parte de certas elites, em respeitarem as regras e as instituições que elas próprias ajudaram a estabelecer.
No fundo, entre Ibrahim Traoré e aqueles que contribuíram para desvirtuar o espírito democrático em África, a diferença talvez resida nisto: ele assume abertamente a sua lógica autoritária, enquanto os outros a dissimulam por trás das aparências de um jogo democrático que, afinal, não o é. Mas ninguém se deve deixar enganar: tanto ele como os outros encarnam o verdadeiro obstáculo ao progresso do nosso continente.
Boubacar Sanso Barry é jornalista do Ledjely. Artigo publicado em Ledjely