Hungria

Húngaros celebram a queda do líder de extrema-direita Viktor Orbán. O que se segue?

13 de abril 2026 - 15:48

O que defende o vencedor Péter Magyar e o que está a prometer? O antigo político do Fidesz reinventou-se como o rosto liberal da política.

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Tomáš Tengely-Evans

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Apoiantes de Magyar festejam na noite eeitoral em Budapeste.
Apoiantes de Magyar festejam na noite eeitoral em Budapeste. Foto Tisza

Milhões de húngaros estão a celebrar depois de o primeiro-ministro de extrema-direita Viktor Orbán ter reconhecido a derrota nas eleições legislativas de domingo.

Os votos ainda estavam a ser contados na noite de domingo. Mas era já claro que o partido de extrema-direita Fidesz tinha perdido a maioria, caindo para o segundo lugar.

O partido Tisza, liderado pelo antigo político do Fidesz Péter Magyar, disparou do nada para o primeiro lugar.

A derrota de Orbán é um golpe para Donald Trump nos Estados Unidos da América, Nigel Farage no Reino Unido e Benjamin Netanyahu em Israel - e para o sonho da extrema-direita internacional de construir uma ditadura na Hungria. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, deslocaram-se ambos à Hungria para apoiar a campanha de Orbán.

Orbán governou a Hungria desde 2010. Foram 16 anos de repressão autoritária, racismo feroz contra migrantes, teorias da conspiração antissemitas apoiadas pelo Estado e leis contra pessoas LGBT+ e contra os direitos das mulheres.

A desigualdade aumentou no contexto de políticas neoliberais que atingiram a classe trabalhadora e de uma corrupção desenfreada a todos os níveis.

Magyar, que foi um militante leal do Fidesz durante todo este período, reinventou-se como um rosto mais liberal da política.

O Fidesz, que era um partido conservador tradicional, radicalizou-se à direita após a crise financeira global de 2007-08.

Conquistou maiorias de dois terços que lhe permitiram introduzir uma constituição mais autoritária, com homens do partido a infiltrar-se em todas as instituições-chave.

Este regime, conhecido como o "Sistema de Cooperação Nacional", caracterizou-se por relações estreitas entre o Fidesz, o Estado e o capital privado, e a corrupção floresceu.

Veja-se o caso da MOL, a principal gigante energética húngara. Dez por cento da empresa pertence à Fundação Mathias Corvinus Collegium, uma "instituição académica" próxima do Fidesz e controlada pelo coordenador político de Orbán, Balázs Orbán.

Como a Hungria virou à direita

A extrema-direita tem dominado a política húngara desde a crise financeira de 2007-08, que destruiu uma classe média altamente endividada.

O partido fascista Jobbik cresceu culpando os judeus e as pessoas ciganas. Arrastou consigo outros setores da sociedade, como parte dos pobres rurais e dos jovens, que pouco tinham beneficiado das políticas de mercado livre.

O Jobbik fundou a paramilitar Guarda Húngara, agora oficialmente proibida.

O Fidesz foi eleito em 2010, depois do fim do governo cheio de escândalos do MSZP, partido da Internacional Socialista (a que pertence o PS português). Introduziu legislação em defesa da "família tradicional", visou a comunidade cigana e respondeu à ascensão do Jobbik tentando imitá-lo.

A política deslocou-se ainda mais para a direita na sequência da crise dos refugiados de 2015, quando milhares de sírios fugiram da guerra.

O Fidesz começou a usar a islamofobia para se apresentar como defensor da "Europa cristã" e a difundir teorias da conspiração antissemitas sobre o investidor financeiro George Soros.

Em resposta, a então chanceler alemã Angela Merkel e a União Europeia (UE) introduziram uma quota para reinstalar refugiados nos Estados-membros.

O Fidesz sempre foi contra sair da UE, porque isso prejudicaria o capitalismo húngaro, que depende das multinacionais e do investimento alemães.

Mas procurou canalizar a indignação das pessoas numa direção racista, fazendo pose contra as quotas de refugiados.

O governo de Orbán construiu uma vedação na fronteira com a Sérvia e organizou um referendo racista sobre as quotas em 2016.

Quando uma forma de racismo cresce, outras florescem. O Fidesz começou a usar a islamofobia para se apresentar como defensor da "Europa cristã" e a difundir teorias da conspiração antissemitas sobre o investidor financeiro George Soros.

Orbán afirmou: "o maior perigo é que milhões de migrantes ameacem vir do sul. Os líderes europeus, em conjunto com um especulador bilionário, não querem defender as nossas fronteiras, mas sim admitir migrantes."

Nas eleições de 2018 e 2022, o Fidesz conseguiu conquistar votos ao Jobbik, e o partido tem vindo desde então em declínio.

No entanto, a repressão de Orbán à imigração de fora da UE comprimiu a força de trabalho húngara.

As multinacionais alemãs exigiram medidas para resolver a falta de mão de obra. Por isso, Orbán fez aprovar uma série de reformas neoliberais do mercado de trabalho - amplamente conhecidas como a "lei do trabalho escravo" - em 2018.

Mas as reformas provocaram protestos militantes e atingiram setores da própria base eleitoral do Fidesz. E desde então, em resposta à persistente escassez de mão de obra, a Hungria tem tido de aumentar o número de trabalhadores migrantes.

Magyar atacou Orbán pela direita, dizendo que o governo deveria concentrar-se em empregos para os húngaros. Afirmou que "trabalhadores convidados" filipinos tinham comido patos e peixinhos dourados de um jardim zoológico, numa linguagem que faz lembrar Trump e Farage.

O manifesto do Tisza dizia que iria manter a vedação na fronteira sul e rejeitar o pacto migratório da UE.

Eleições na Hungria

Por que é crucial a batalha de Budapeste (e por que é difícil vencê‑la)

por

Steven Forti

12 de abril 2026

A ascensão de Péter Magyar

Magyar reinventou-se como líder da oposição durante um escândalo que derrubou vários pesos-pesados do Fidesz.

Em 2024, a política do Fidesz Katalin Novák foi forçada a demitir-se da presidência por ter perdoado um homem envolvido num escândalo de abuso sexual de crianças.

A presidência, cargo escolhido pelo parlamento húngaro de entre os seus próprios membros, é uma função em grande medida cerimonial.

Novák, que tinha anteriormente desempenhado o cargo de ministra da família entre 2020 e 2021, esteve na linha da frente da promoção do sexismo, da homofobia e da transfobia do regime. O Fidesz dificultou a adoção de crianças por casais do mesmo sexo e proibiu as pessoas trans de verem o seu nome e género reconhecidos em documentos oficiais.

Em 2021, o Fidesz fez aprovar a "Lei de Proteção da Criança", que proíbe tudo o que "propague ou retrate" a homossexualidade ou a mudança de género perante crianças.

A lei foi um ataque frontal às pessoas LGBT+ sob a habitual mentira de direita da "proteção das crianças".

Novák, uma aliada-chave de Orbán, afirmou que tinha "cometido um erro" quando, a 2 de fevereiro de 2024, se soube que tinha perdoado Endre Kónya.

O subdiretor do Lar de Crianças Kossuth Zsuzsa, em Bicske, perto de Budapeste, tinha encoberto os crimes horríveis do seu antigo chefe.

János Vásárhelyi, que se encontra atualmente preso, tinha abusado sexualmente de pelo menos dez crianças entre 2004 e 2016. Kónya ameaçou e chantageou uma criança para que retirasse uma queixa, e foi condenado a três anos de prisão pelos seus crimes.

Novák não foi a única forçada a demitir-se. A ministra da Justiça Judit Varga, e ex-mulher de Magyar, tinha referendado o perdão a Kónya.

O bispo Zoltán Balog demitiu-se da liderança da Igreja Reformada Húngara. Antigo ministro do Fidesz e mentor político de Novák, tinha pressionado pelo perdão a Kónya devido a ligações familiares à igreja que liderava.

O escândalo abalou o Fidesz e expôs a sua hipocrisia em torno da "proteção das crianças".

A 10 de fevereiro, Magyar anunciou a sua demissão de todos os cargos públicos e começou a atacar figuras de proa do Fidesz.

A 16 de fevereiro, dezenas de milhares de pessoas concentraram-se na Praça dos Heróis, em Budapeste, após um apelo de celebridades e figuras públicas.

Em março, Magyar divulgou uma gravação áudio que mostrava corrupção aos mais altos níveis do governo do Fidesz. A gravação parecia incluir Judit Varga a descrever como funcionários do Estado manipulam registos judiciais para encobrir provas dos seus próprios atos de corrupção.

A 6 de abril, o antigo apparatchik do Fidesz Magyar organizou uma manifestação de dezenas de milhares de pessoas na Praça Kossuth.

Poucos dias depois, anunciou que se candidataria pelo partido Tisza, então adormecido, que se tinha cindido do Fidesz em 2020.

Eleições húngaras

O caminho estreito da Hungria para sair do orbánismo

por

Imre Szijarto

10 de abril 2026

O que quer o Tisza para substituir o regime de Orbán?

As figuras apontadas para os principais cargos dão uma ideia de como o Tisza pretende governar.

Zoltán Tarr, o segundo homem mais poderoso do partido, disse que a prioridade era encontrar "bons gestores". "Vamos sobretudo ao mundo dos negócios à procura de nomes, porque temos certas regras", explicou.

“Não podemos lidar com pessoas com determinada “bagagem” governamental. E isso limita realmente as nossas possibilidades”.

Isto significa encher um novo governo de figuras empresariais que procurarão recompor o capitalismo húngaro.

Uma delas é Anita Orbán, apontada como ministra dos Negócios Estrangeiros. Antiga alta funcionária pública entre 2010 e 2015, tornou-se diretora de assuntos públicos do grupo Vodafone e presidente do conselho de administração da gigante química checa Draslovka.

Quem melhor para dirigir o Ministério da Energia do que o vice-presidente executivo global da Shell, István Kapitány?

O Ministério das Finanças deverá ficar a cargo do banqueiro András Kármán, que trabalha no grupo financeiro Erste.

Este mês, a UE congelou até 19 mil milhões de euros em fundos europeus. A Comissão Europeia afirma que o governo não conseguiu combater a corrupção sistémica e as "violações do Estado de direito".

Os líderes europeus estão furiosos com o facto de Orbán não ter apoiado o esforço de guerra do Ocidente na Ucrânia e ter elogiado o presidente russo Vladimir Putin.

A estratégia do Tisza para lidar com o mal-estar do capitalismo húngaro é alinhar-se mais estreitamente com as regras da ordem capitalista liberal.

Magyar prometeu reduzir o elevado custo do serviço da dívida da Hungria, que disparou para um valor recorde de 11 mil milhões de euros no ano passado. Quer fazê-lo "restaurando a confiança dos investidores" e acedendo a fundos da UE através de melhores relações.

O Tisza diz que lançará consultas sobre a adoção do euro, o que exigiria que o Estado reduzisse o défice para menos de 3 por cento do PIB.

Tudo isto é uma receita para políticas neoliberais que vão atingir a classe trabalhadora, e funcionar como incubadora da extrema-direita.

Estamos a celebrar o fim de Orbán, mas a extrema-direita húngara está em baixo, não fora de jogo.

A esperança reside no facto de o povo húngaro sentir confiança, na sequência desta vitória, para se organizar e exigir muito mais do que o que lhe é oferecido pela política oficial.


Tomáš Tengely-Evans é editor do Socialist Worker. Artigo publicado em Socialist Worker.

Nota de Tradução

O presente texto é uma tradução do artigo original em inglês publicado no Socialist Worker. Na adaptação para leitura em português foram introduzidas algumas alterações destinadas a tornar certas referências mais compreensíveis no contexto nacional, bem como a respeitar convenções ortográficas e estilísticas do português europeu:

Referência ao MSZP: o original limita-se a descrever o MSZP (Partido Socialista Húngaro) como um partido "do tipo trabalhista" (Labour-type), expressão que remete para o contexto político britânico. Na tradução optou-se por identificá-lo como "partido da Internacional Socialista (a que pertence o PS português)", de modo a situar o leitor português face a uma família política que lhe é mais familiar.