Os executivos da Honda devem estar a coçar a cabeça. Na terça-feira foi a vez dos trabalhadores da Honda Lock, que produz chaves e fechaduras, entrarem em greve por aumentos salariais. É a força do boca-a-boca, já que apesar do bloqueio de informações por parte da burocracia chinesa, os trabalhadores estão a espalhar as notícias das vitórias obtidas noutras fábricas e a fazer novas mobilizações. Os jornalistas que tentavam cobrir a greve foram dispersados do local pela polícia e as notícias colocadas na Internet foram imediatamente apagadas.
A Honda Lock, que tem 1500 funcionários, é uma joint-venture entre a Honda e a câmara municipal de Xiolan, na cidade de Zhongshan, na província de Guangdong, um dos principais centros industriais da China moderna, e também o centro desse novo e inexperiente movimento sindical independente que se está a formar-se contra a super-exploração da mão-de-obra pelas empresas multinacionais e internacionais.
A greve, que é a terceira numa unidade da Honda, começou de facto quando seguranças da empresa agrediram batalhadores que estavam a organizar a mobilização. A polícia intimidou os trabalhadores, dizendo que greve é ilegal – o que não deixa de ser uma aberração, já que a China é governada por um partido que se auto intitula comunista – e que poderiam ir para o cárcere por três a cinco anos. Mas os trabalhadores não se conformam com as disparidades salariais e com as desumanas condições de trabalho. Eles reivindicam um aumento de 1700 para 2040 yuans e que sejam tratados como nas outras unidades da Honda. Uma característica importante destas greves é que os trabalhadores estão a formar os comités de fábrica independentes da burocracia sindical atrelada ao Partido Comunista.
Na sexta-feira da semana passada, os trabalhadores da Honda de Foshan, na mesma província, conseguiram 24% de aumento salarial, além de outras melhorias nas condições de trabalho. Esse foi um dos rastilhos de pólvora que alimenta a actual onda de greves que começou e não se sabe se vai parar nos próximos dias.
Segundo as informações que temos, a segunda greve que abateu a Honda, na fábrica de escapes Foshan Fengfu, que tem participação accionária da Honda, terminou na noite de quarta-feira com os trabalhadores arrancando outra vitória. Mas nenhum meio de comunicação divulgou o resultado concreto da vitória. Essa greve paralisou a produção de duas unidades da Honda noutras localidades por falta de peças.
A luta iniciada em Foshan estendeu-se também à KOK International, uma fábrica de maquinários taiwanesa, localizada em Kunshan, na província de Jiangsu. A greve, mais radicalizada, teve de enfrentar a repressão policial que deixou cerca de 50 feridos.
Segundo analistas, as greves têm ocorrido com mais rapidez do que a Federação Sindical da China pode acompanhar. No final de semana, a federação sindical recomendou que sejam formados sindicatos em todas as empresas não governamentais, nas estrangeiras e, em particular, as que têm origem em Taiwan e Hong Kong. A federação sindical pede que todos os seus braços sindicais aumentem as actividades para proteger os trabalhadores, principalmente os migrantes. Que urgentemente organizem negociações salariais colectivas de acordo com as Leis laborais e sindical, devendo também organizar actividades sociais e recreativas.
A burocracia sindical não teve outra alternativa além de reconhecer a força e a gravidade da situação, procurando agora correr atrás do tempo perdido e montar sindicatos para controlar o movimento independente.
A questão salarial na China entrou na agenda do dia, e o governo chinês já tem tomado medidas preventivas, como foi o aumento de 800 para 960 yuan para os funcionários de Pequin, medida essa antecipada por outros governos locais como o de Guangdong, Shangdong, Ningxia, Hubei, entre outros.