A chegada de Trump à Casa Branca veio acompanhada de uma agenda obscurantista para a ciência, que retoma algumas das políticas da extrema-direita que já faziam parte do cardápio de 2016. Desta vez, a agenda inclui ainda uma sede de vingança e um ataque direcionado à universidade enquanto local de diversidade, de pensamento crítico e de transformação social. Com cortes de milhares de milhões nas agências federais, cientistas no desemprego e as fronteiras do conhecimento fechadas ao mundo, rapidamente na Europa se ensaiou o discurso de que a “fuga de cérebros” americana pode ser uma oportunidade para resgatar uma hegemonia científica perdida há quase um século. Porém, o obscurantismo não se combate no “mercado de cérebros”, mas na luta social. E hoje, dia 8 de abril, é dia de luta pela ciência nos Estados Unidos.
Entrevista
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Meagan Day
Cortes sem precedentes nas agências federais
Uma parte do guião de cortes na ciência americana estava escrito e vinha da última administração Trump. Na lista de alvos a abater estavam as agências federais na área do ambiente e do clima, como a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) e Agência de Proteção Ambiental (EPA), que, não sendo instituições de ciência, geram emprego científico através da recolha e tratamento de dados climáticos e ambientais e de projetos com as universidades. À lista de Elon Musk e do seu departamento de “eficiência governamental” (DOGE) juntaram-se ainda os cortes em várias outras agências federais com um papel relevante na ciência, como é o caso do Instituto de Ciências da Educação (IES) que foi praticamente encerrado pelo ímpeto obscurantista da Casa Branca. A estratégia de cortes foi simples: despedir funcionários sem vinculação à carreira, fechar programas e cancelar contratos com universidades. Por exemplo, os cortes na Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAid) implicaram, só na universidade John Hopkins, uma perda de financiamento de 800 milhões de dólares.
Mas desta vez o grande ataque à ciência foi feito na área da saúde, através de cortes sem precedentes no Instituto Nacional de Saúde (NIH). O NIH é a maior instituição científica do mundo nesta área, com um orçamento de vários milhares de milhões de dólares dedicados a linhas de investigação fundamental em vários temas da saúde. Aqui foram cortados programas com implicações no conhecimento sobre o cancro, o Alzheimer ou a SIDA. Para além do despedimento de funcionários e do cancelamento de projetos, o NIH impôs também um limite de 15% nos custos indiretos da investigação, deixando as universidades sem recursos para financiar a infraestrutura que suporta a ciência, como os laboratórios e os funcionários que asseguram o seu funcionamento.
Cortes direcionados e ameaças à independência académica
Para além de delapidar várias áreas da ciência, Trump decidiu ainda direcionar cortes especificamente a algumas universidades por viver mal com as suas políticas institucionais e liberdades académicas. As universidades de Columbia e Princeton, por exemplo, receberam cortes devido às suas alegadas práticas antissemitas, simplesmente por terem permitido manifestações em solidariedade com a Palestina ou trabalhos académicos que criticam o genocídio. A universidade de Brown recebeu ameaças de congelamento de mais de 500 milhões de dólares em financiamento pelas suas práticas institucionais de inclusão e diversidade. Sob a batuta da extrema-direita na Casa Branca, o financiamento à investigação já não é baseado no mérito científico, mas nos comportamentos que agradam ao poder. Ao atacar as grandes universidades americanas, Trump quer mostrar ao mundo como se acaba com a independência académica.
A estes ataques, somam-se as prisões e deportações de estudantes internacionais ligados ao movimento de solidariedade com a Palestina, aos sindicatos de estudantes, aos movimentos LGBTQI+, e a tudo mais que não agrade à administração federal. Barram-se cientistas internacionais nas fronteiras, cancelam-se conferências científicas no território americano e negam-se vistos arbitrariamente a estudantes e investigadores que iniciam os seus trabalhos nas universidades americanas. Está criado o clima de caos, de medo e de incerteza no meio universitário. Alguns reitores e administradores, principalmente nas universidades privadas, vergam-se perante o poder federal com o argumento de salvar as suas instituições. A história repete-se e o obscurantismo instala-se.
O asilo europeu e uma mão cheia de nada
Com milhares de carreiras ameaçadas e investigadores atirados para o desemprego nos Estados Unidos, a Europa sonha com a possibilidade de atrair uma “fuga de cérebros” que ajude a colmatar o atraso científico europeu. Esse atraso começou a desenhar-se no pós II Guerra Mundial, quando os programas de investigação americanos foram capazes de atrair os cientistas mais reputados que fugiam de uma Europa destruída pela guerra. Agora, é o tempo de inverter a tendência e logo saíram notícias de programas de asilo científico para investigadores americanos. Tudo espremido e esses programas não vão além de 12 bolsas de pós-doutoramento numa universidade em Bruxelas e umas intenções de contratar meia dúzia de investigadores seniores em institutos franceses. Dá para fazer uma notícia de jornal, mas é pouco para mudar os destinos da história da ciência.
A União Europeia teve várias décadas para desenvolver uma política científica decente, mas optou sempre por um modelo assente no subfinanciamento e na precariedade, com algumas exceções de programas destinados a uma pequena elite de investigadores. A ciência precisa de investimento continuado de base, de infraestrutura de ponta, de carreiras científicas estáveis, de programas de investigação lançados em áreas temáticas através de agências públicas e de um ensino superior bem financiado. Numa altura em que a corrida ao armamento passou a ser o desígnio da Europa, fica claro que também aqui se escolheu o obscurantismo. Uma política científica capaz de atrair talento internacional continuará a ser uma miragem.
A luta pela ciência é na rua
A ascensão da extrema-direita na Casa Branca tem ecos pelo mundo inteiro. O obscurantismo não se combate no “mercado de cérebros”, mas com financiamento público em larga escala que aposte nas várias áreas do conhecimento e que respeite a liberdade e autonomia das universidades. Tanto nos Estados Unidos como na Europa, é tempo de sair à rua para exigir uma política científica a sério.
Sob o lema Kill the Cuts, associações e sindicatos americanos marcaram para hoje, dia 8 de abril, uma série de manifestações e ações de luta por todo o país para travar os cortes na ciência feitos pelo governo de Trump. Perante o obscurantismo, os cérebros não fogem, lutam.