HIV/SIDA: crise financeira agrava desigualdades

30 de junho 2011 - 16:53

A desigualdade e a discriminação dos portadores de HIV e dos doentes com SIDA é agravada pela crise financeira. Uma ideia partilhada pelos intervenientes num encontro acolhido por Marisa Matias no Parlamento Europeu.

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Marisa Matias anunciou a intenção de um grupo de eurodeputados em criar um grupo de trabalho que se dedique especificamente às questões da igualdade no acesso à prevenção, tratamento e cuidados de saúde no domínio do HIV e SIDA.

A desigualdade e a discriminação dos portadores de HIV e dos doentes com SIDA é agravada pela crise financeira. Esta foi a ideia partilhada pela maioria dos intervenientes na conferência “rompendo as barreiras, unindo as lacunas: as desigualdades na saúde, a resposta ao HIV / AIDS e a liderança política na política na UE”. Este encontro, acolhido por Marisa Matias no Parlamento Europeu, surge no seguimento de outros que organizou com doentes e associações de doentes de vários países e que contou ainda com a presença de membros do Parlamento e da Comissão Europeia. No final, Marisa Matias anunciou a intenção de um grupo de eurodeputados em criar um grupo de trabalho parlamentar que se dedique especificamente às questões da igualdade no acesso à prevenção, tratamento e cuidados de saúde no domínio do HIV e SIDA.

Marisa Matias tinha já realçado o contexto especial em que estas iniciativas se têm inserido. “Estes encontros são realizados em tempos de crise em que, pela primeira vez, os 27 Estados Membros reduziram todos os seus orçamentos de saúde. Assim, mais que nunca é necessário manter as questões dos cuidados de saúde na linha principal da política, seja nacional ou europeia”. Para a deputada do Bloco de Esquerda “no caso do HIV/SIDA há desigualdades enormes, quer na prevenção, no tratamento e nos cuidados de saúde. Há grupos mais vulneráveis, infelizmente fala-se nos documentos oficiais em grupos de risco. O HIV/SIDA é transversal a toda a população e devíamos arranjar formas diferente de falar, já que esta apenas aumenta a discriminação e o estigma e não responde às necessidades de prevenção”. Observando que as políticas nacionais interferem nas tendências crescentes e decrescentes de infecções, referiu que no caso português “a curva de aumento de novas infecções aparece na população heterossexual, o que mostra que o trabalho prevenção não está orientado para o que devia ser”.

“Esta doença não pode ser só deixada ao mundo médico. A desigualdade não se resolve apenas atirando dinheiro para o problema, porque existem também a discriminação e desigualdades várias”, considerou Michael Huebel da Direcção-Geral de Saúde da Comissão Europeia. No Ocidente, a doença começa a tornar-se crónica, mas “o tratamento nem sempre é fácil de suportar financeiramente e as desigualdades sociais no HIV aumentam a vulnerabilidade”, sublinhou.

Michael Cashman, eurodeputado inglês, recordou a estigmatização da “comunidade gay” nos anos oitenta. “Na altura considerava-se desnecessário proteger estas pessoas, acusando-as de estarem doentes por culpa própria, toda uma geração foi abandonada”. Deixou ainda um alerta, “temos que ter cuidado com os tratados de comércio livre, não podemos deixar que comprometam o tratamento deixando-o dependente de medicamentos baratos”. Mas a medicina não tem todas as respostas, “podemos viver com HIV sem que nos afecte a vida, mas isso não é verdade porque irá subsistir ainda o estigma”.

O Coordenador Nacional para a Infecção HIV/SIDA, Henrique de Barros, fez o diagnóstico do caso português, que tem a especificidade de uma grande prevalência na associação à tuberculose e ao uso de drogas, referindo o importante papel que a descriminalização do consumo de drogas teve no combate à infecção. O maior problema que identifica é o preço dos anti-virais, que representam mais de 40 por cento do custo do tratamento. “Temos que reduzir o preço se queremos conter a infecção”.

Notícia do portal do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu

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