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Herdade da Parreira: um caso de sucesso agro-silvo-pastoril

Em tempos de alterações climáticas, os resultados ambientais e económicos da exploração agrícola da Herdade da Parreira, em Montemor-o-Novo, devem ser uma inspiração para agricultores, investigadores e governantes. Aceda ao documentário completo a partir do artigo.
Herdade da Parreira, Montemor-o-Novo - foto esquerda.net
Herdade da Parreira, Montemor-o-Novo - foto esquerda.net

No passado dia 2 de abril foi lançado o documentário Herdade da Parreira – 50 anos a Construir Sustentabilidade Económica e Ambiental, resultado da colaboração entre a Herdade da Parreira e o MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento. O documentário surge também na sequência da publicação do livro Herdade da Parreira – Sustentabilidade Económica e Ambiental (2020), da autoria de Nuno Marques, engenheiro agrónomo e proprietário da herdade.

Numa iniciativa que juntou cerca de uma centena de pessoas no interior da Herdade da Parreira, o debate iniciou-se com intervenções de Nuno Marques e dos investigadores do MED, Teresa Pinto Correia e Mário de Carvalho, ambos professores da Universidade de Évora. As intervenções demonstraram como é possível adaptar uma exploração agrícola e o território às alterações climáticas e de como é essencial que a preservação e melhoria da fertilidade dos solos seja colocada no centro das decisões. Neste caso concreto, trata-se de um modelo agro-silvo-pastoril numa exploração agrícola com um longo historial de colaboração com a Universidade de Évora. De salientar que este modelo de exploração já foi replicado com sucesso em várias explorações da região.

Na Herdade da Parreira há uma componente de montado com pastagens permanentes melhoradas de sequeiro (não regadas) que garante a alimentação animal entre o outono e a primavera. Todo o regadio é aplicado em culturas de outono-inverno, numa componente agro que cultiva forragens e cereais que possibilitam a alimentação de animais durante o verão (pastoreio dos resíduos das culturas e parte da produção de cereais - grão) quando o sequeiro não tem capacidade para o fazer. Além de uma forte melhoria dos resultados económicos, este modelo possibilitou regenerar solos e aumentar fortemente a produtividade da água, com uma expansão de 80 para 220 hectares regados, num total de 800ha cultivados. Estes resultados só foram possíveis porque se abandonou o regadio de culturas de primavera-verão (milho), apostando na complementaridade às culturas de sequeiro, reduzindo as regas aos períodos em que a precipitação é insuficiente. Desta forma, reduziram 3,5 vezes os custos energéticos do regadio, que atualmente é totalmente suportado por energia solar. Diminuiu também de forma muito expressiva os consumos de fertilizantes e pesticidas e possibilitou o abandono do recurso a rações importadas. De forma global, resultou um sistema de produção mais resiliente às alterações climáticas, com menos emissões e com um forte contributo para a captura de CO2. As necessidades de trabalho estão bem distribuídas ao longo do ano, não há recurso a empresas de trabalho temporário e toda a mão de obra é de origem local.Anunciando uma estimativa de “custos associados à degradação dos solos na União Europeia” superior a “50 milhões de euros por ano”, Nuno Marques aponta a má gestão e a sobreexploração dos solos como causa e reforça que os atuais desafios comunitários na resposta às alterações climáticas, “só podem ser enfrentados com uma abordagem sistémica e uma estratégia agronómica assente na melhoria significativa das funções do solo”, pode ouvir-se no documentário que está disponível para visualização clicando abaixo.

Para o engenheiro agrónomo e ex-deputado do Bloco de Esquerda, Ricardo Vicente, que assistiu ao lançamento do documentário, “no Alentejo há centenas de milhar de hectares onde este modelo devia estar a ser implementado, mas mais do que isso, trata-se um exemplo que importa replicar no país em todas as suas dimensões. É preciso criar pontes que vão de encontro ao interesse público entre a investigação e as explorações agrícolas e florestais e, de norte a sul do país, as instituições públicas de ensino superior e de investigação devem inspirar-se neste caso de sucesso. Mas para isso é essencial que a política pública seja promotora deste caminho. Por um lado, a investigação não pode continuar a ser um lugar de precariedade e de corrida desenfreada à publicação de artigos, por outro, a política pública não pode continuar a promover modelos extrativistas e tem de direcionar esforços no desenho e aplicação de medidas baseadas em processos ecológicos em vez de se limitar ao financiamento de tecnologias ou, pior, a procurar justificações para a continuidade de rendas de sobrelucro que lesam o interesse público em favorecimento de uma minoria privilegiada, como acontece com avultadas verbas da Política Agrícola Comum.”

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