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A hegemonia do dólar e o crepúsculo do império

Uma parte importante do poderio dos EUA assenta no papel de moeda hegemónica que o dólar mantém. A capacidade de impor sanções a países como o Irão ou a Venezuela, por exemplo, e de separá-los dos canais financeiros globais baseia-se nesta hegemonia. Por Alejandro Nadal
Dólar - Foto de 401(K) 2012/flickr
Dólar - Foto de 401(K) 2012/flickr

Os Estados Unidos deixaram de ser uma república e converteram-se num império há já várias décadas. E uma parte crítica do seu poderio assenta no papel de moeda hegemónica que o dólar mantém.

A divisa norte-americana começou a sua carreira ascendente na primeira metade do século XX. Durante muitos anos o seu principal concorrente foi a libra esterlina, cuja hegemonia tinha durado mais de um século. Mas a libra começou a declinar com a erosão do império britânico e a supremacia do dólar reafirmou-se com o regime monetário estabelecido no final da segunda guerra mundial.

Para que uma moeda aspire à hegemonía deve ser a divisa mais utilizada como reserva internacional. Além disso, deve ter ampla aceitação como meio de pagamento em transacções internacionais e deve servir como unidade de conta nos mercados internacionais de capital e nos mais importantes mercados de divisas.

Os produtos estratégicos mais importantes do mundo, como energéticos e outros do complexo mineiro e agroalimentar, devem estar cotados nessa moeda. Todas estas funções encontram-se intimamente relacionadas e podem fortalecer-se umas às outras.

Desde 1945, o dólar dos EUA tem desempenhado o papel de moeda hegemónica no plano internacional, mas periodicamente surgem questionamentos sobre a duração deste regime monetário. O aparecimento do euro em 1999 e os apelos em 2010 de funcionários públicos do banco central da China para afastar o dólar de certas atividades, alimentaram a ideia de que o reinado do dólar estadunidense estaria a acabar. A crise financeira de 2008 gerou grande preocupação sobre o futuro da hegemonia do dólar.

No entanto, em quase todos os itens o dólar continua a manter a sua posição hegemónica. 62,7 por cento das reservas mundiais em divisas são constituídas por dólares ou títulos denominados nessa moeda, enquanto as reservas em euros, o concorrente mais próximo, representam 20 por cento do total. Por outra parte, das divisas estrangeiras que circulam pelo mundo, o dólar norte-americano continua a ser a moeda mais utilizada em transacções em numerário. O papel dominante do dólar baseia-se num fenómeno de rendimentos crescentes à adoção, o que é um fenómeno típico de qualquer moeda exitosa. Quanto mais agentes económicos adotarem o uso dessa moeda e a aceitarem como meio de pagamento, mais pessoas farão o mesmo no futuro.

Os benefícios desse estado de coisas não são desprezíveis. Calcula-se que os ganhos de senhoriagem desta circulação de dólares permite à Reserva Federal obter mais de 40 mil milhões de dólares por ano, o que é, na realidade, uma quantidade modesta se comparada com as outras vantagens que a hegemonia confere ao poderio dos EUA. A capacidade de impor sanções a países como o Irão ou a Venezuela, por exemplo, e de separá-los dos canais financeiros globais baseia-se nesta hegemonia, e, como dizem alguns analistas, é tão ameaçadora como dois porta-aviões nucleares.

A realidade é que talvez a força do dólar seja o calcanhar de Aquiles do império. Assim como a aceitação do dólar como meio de pagamento conduz a uma maior adesão ao dólar como reserva de valor num processo cumulativo, os sinais de debilidade podem conduzir a uma maior fragilidade num processo circular de esgotamento. Estas mudanças podem tardar muito menos do que se crê em tempos normais. Uma combinação de acontecimentos poderá trazer mudanças profundas em poucos anos. A importância do dólar nas transações comerciais à escala mundial foi diminuindo gradualmente, mas essa tendência poderá acelerar-se sigmificativamente nos próximos anos.

Hoje, os mais fortes concorrentes do dólar são o euro e o yuan. O euro sofreu um revés com a crise de 2018, mas conseguiu sobreviver. O yuan chinês fortaleceu-se em 2016, quando o Fundo Monetário Internacional o incluiu entre as divisas que servem para determinar o valor dos direitos especiais de saque. A criação do mercado de futuros chinês para o petróleo serviu para dar um novo alento ao yuan, ainda que se mantenha a sua desfasagem face ao dólar. Em síntese, a irritação europeia pelo que é considerado o privilégio exorbitante dos Estados Unidos, assim como as aspirações da China, combinam-se para constituir a mais séria ameaça à hegemonia do dólar. A próxima recessão poderá debilitar o papel do dólar para além dos remédios que a Reserva Federal possa tratar implementar.

Sem a hegemonia monetária, o império norte-americano não poderá sustentar-se. Assim, ainda que pareça paradoxal, a preeminência do dólar é o seu calcanhar de Aquiles. Se o fim do império britânico marcou o fim da hegemonia da libra esterlina, hoje a transição para uma nova moeda dominante poderá ser marcada por uma causalidade invertida: o final da supremacia do dólar seria o crepúsculo do império norte-americano.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado em La Jornada a 13 de fevereiro de 2019. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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