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A guerra nuclear em 140 carateres

Um dos piores lugares para desencadear uma nova corrida armamentista deve ser sem dúvida o Twitter. Mas não para Donald Trump. Por Alejandro Nadal
"Que comece uma nova corrida armamentista!", tweetou Donald Trump
"Que comece uma nova corrida armamentista!", tweetou Donald Trump

E para demonstrá-lo, a 23 de dezembro lançou uma mensagem clara: os Estados Unidos, assinalou, devem fortalecer e expandir a sua capacidade atómica até que o mundo finalmente acorde para a realidade das armas nucleares.

Se houvessem dúvidas, no dia seguinte Trump voltou a tweetar: Que comece uma nova corrida armamentista! Parece que já não há lugar a dúvidas: juntamente com outras extravagantes promessas da sua campanha o presidente agora eleito quer acrescentar uma nova etapa na corrida aos armamentos nucleares.

Para ter alguma perspetiva, há que recordar que este ano o presidente Barack Obama assentou as bases de um gigantesco programa de modernização do enorme arsenal estratégico dos Estados Unidos.

Esse plano inclui uma despesa superior a 348 mil milhões de dólares para modernizar e atualizar mísseis, bombardeiros, ogivas nucleares, submarinos, sistemas de monitorização e identificação de alvos, bem como a infraestrutura de controle e comando do Pentágono. A isso há que acrescentar planos para fortalecer o subsistema de investigação e desenvolvimento tecnológico de todos os componentes das forças armadas. Alguns analistas independentes calculam que o custo desses projetos poderão superar o bilião (milhão de milhões) de dólares.

Os Estados Unido mantêm hoje um arsenal de aproximadamente 1.750 ogivas nucleares implantadas em mísseis balísticos intercontinentais para serem lançadas das suas bases em terra (ICBM, na sigla em inglês), em misseis lançados de submarinos (SLBM) e de bombardeiros estratégicos. A este número há que acrescentar 180 ogivas táticas localizadas em bases na Europa. Na categoria de mísseis ICBM encontram-se 441 Minuteman III, com um alcance de 6 mil quilómetros, colocados em silos subterrâneos. Estes mísseis podem ser disparados em menos de cinco minutos após receber uma ordem presidencial.

Por sua vez, os mísseis SLBM implantados em submarinos (de propulsão nuclear) são 288 e todos estão dotados de até oito ogivas independentes. Estes submarinos têm a capacidade de permanecer ocultos durante longos períodos de tempo e segundo essa perspetiva constituem o componente dissuasivo por excelência em caso do que alguns analistas chamam um intercâmbio nuclear.

O apelo de Trump soa ridículo se se considera o facto de que os arsenais dos Estados Unidos têm atravessado múltiplos programas de modernização desde os piores anos da guerra fria. De facto, os acordos de controlo e redução de armamentos que foram negociados com a antiga União Soviética serviram para emagrecer o avultado inventário de ogivas nucleares, mísseis e bombardeiros, ao eliminar os elementos obsoletos e vulneráveis, e abrir espaço aos mais modernos e letais. Um resultado foi o incremento na precisão dos novos mísseis, o que torna possível a redução do tamanho das ogivas nucleares individuais. Tudo isto levou a uma redução nos arsenais nucleares e a uma impressão de que o perigo estava a diminuir.

Além disso, o desplante de Trump (e de Obama) é absurdo de outro ponto de vista. Se fazemos uma lista dos países que mais investem em armamento verifica-se que a despesa militar dos Estados Unidos é maior do que a soma dos 10 países seguintes nessa escala. Para o estado em que se encontra hoje em dia a economia norte-americana fica claro que um dispêndio improdutivo deste calibre representa um oneroso fardo cheio de envolvimentos negativos. Nem a economia será mais competitiva, nem se gerarão empregos produtivos. E se alguém pensa em possíveis benefícios tecnológicos que este dispêndio poderá trazer, há que recordar que as inovações que os mísseis e os seus sistemas de navegação geraram já não se vão repetir.

Vladimir Putin não quis deixar a falar sozinho o seu colega de jogos e anunciou poucos dias depois do tweet de Trump que se os Estados Unidos querem iniciar uma nova corrida armamentista, a Rússia estará mais que disposta a responder ao desafio. De facto, o plano de Moscovo consiste em substituir todo o velho arsenal nuclear herdado da guerra fria por componentes modernos ao longo dos próximos 10 anos. Diga-se de passagem, que Inglaterra, França, China, Índia, Paquistão e Israel seguem a mesma trajetória de modernizar os seus arsenais nucleares.

Para o resto do mundo, o panorama é sombrio. É verdade que o número de armas nucleares caiu desde o ponto mais crítico da guerra fria. Mas há muito para ser feito para realmente eliminar o risco da aniquilação nuclear. A lentidão com que se procedeu à redução de armamentos nucleares é um sinal de alarme que há que acrescentar à sensível deterioração do regime de não proliferação.

Calcula-se que uma guerra nuclear teria uma duração de meia hora. Mas o mundo do pós-guerra sofreria milhares de anos. Isso não cabe em 140 caracteres.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado em La Jornada a 28 de dezembro de 2016. Tradução de Carlos Santos

Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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