Greve no setor automóvel dos EUA: os gigantes caem um a um

30 de outubro 2023 - 14:01

Stellantis e Ford chegaram a pré-acordo com as comissões negociadoras. Dos três grandes fabricantes de automóveis de Detroit fica agora isolada a GM. O sindicato UAW reforçou a luta, juntando a maior fábrica da marca no país à greve e diz estarmos perante um ponto de inflexão na luta de classes.

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Trabalhadores com cartazes da UAW sobre a greve no setor dos automóveis. Foto do sindicato.

Este sábado, os cerca de 4.000 trabalhadores da fábrica da GM em Spring Hill, no Tennesse, iniciaram uma greve juntando-se assim aos seus 14.000 colegas de fábrica do Texas, Michigan e Missouri.

A entrada da maior fábrica da empresa nos EUA na onda de greves corresponde a uma intensificação decisiva na luta dos trabalhadores da GM, já que se trata de uma instalação fabril chave onde se fazem motores para nove outras fábricas. À Associated Press, o professor Erik Gordon, da Universidade do Michigan, explica que “a greve em Spring Hill afeta tanto a produção da GM que a empresa provavelmente terá de chegar a acordo rapidamente ou fechar a maior parte da produção”.

Isto acontece num contexto em que as comissões negociadoras do United Auto Workers, o sindicato que os representa, chegaram já a um pré-acordo com Ford e Stellantis, os outros dois dos chamados “três grandes” da indústria automóvel dos EUA sediada em Detroit. Assim, a escalada decisiva da greve acontece contra uma empresa que parece ter ficado isolada na recusa em aceitar as propostas dos trabalhadores, por um lado, mas, por outro, há também pressão sobre o sindicato para obter um acordo em termos semelhantes aos já alcançados. Gordon acrescenta que, como os pré-acordos terão de ser votados pelos trabalhadores, o sindicato pretenderá fechar também o terceiro acordo para que “os trabalhadores da Ford e da Stellantis não votem contra o acordo de princípios porque querem ver ainda o que os trabalhadores da GM conseguem obter”.

Este domingo, os presidentes das secções locais do UAW da Ford aprovaram por unanimidade o pré-acordo alcançado a semana passada. Na ocasião, Shawn Fain, o presidente do sindicato, num vídeo em direto, disse que este era “um ponto de viragem na luta de classes que está a decorrer neste país nos últimos 40 anos. Também o vice-presidente, Chuck Browning, pensa que se trata de um “ponto de inflexão histórico” na organização dos trabalhadores. Tanto mais que os trabalhadores da Ford vão receber “mais aumentos salariais nos próximos quatro anos e meio do que recebemos em todos os últimos 22 anos juntos”.

Do acordo com a Ford e a Stellantis, que estará em vigor até 2028, consta um aumento salarial de 25% para os trabalhadores a tempo inteiro, 11% do qual imediatamente após a ratificação do acordo. Os novos trabalhadores passam a ter apenas três anos até alcançar o topo da escala salarial em vez de oito.

Do acordo da Ford, em particular, consta o “fim do abuso dos trabalhadores temporários”, nas palavras de Fain, uma vez que se vão tornar efetivos depois de nove meses de trabalho e que o seu aumento salarial será o dobro, junto com o fim do sistema de discriminação dos trabalhadores contratados mais recentemente chamado de two-tiers.

O documento garante ainda investimentos nas fábricas no valor de 8,1 mil milhões de dólares, uma aposta expressa nos carros elétricos, o fim da discriminação salarial entre trabalhadores das fábricas de componentes e os das linhas de montagem e a inclusão, pela primeira vez, de duas semanas de licença parental. Por outro lado, o sindicato recuou em exigências com as quais tinha começado, como a semana de trabalho de 32 horas e o nível de aumentos de 40%.

No da Stellantis, 1.200 trabalhadores vão voltar a ser contratados e salvam-se empregos em fábricas como a de Belvidere a de Trenton, no Michigan, e a de Toledo, no Ohio, onde a força de trabalho duplicará. A primeira delas deveria fechar, mas no acordo fica escrito que a produção de um novo camião da marca será aí feita. Será ainda criada uma nova fábrica de veículos elétricos criando 1.000 postos de trabalho. Assim, no total a empresa comprometeu-se com 19 mil milhões de dólares em investimento, acima do acordo da Ford. Enquanto a empresa propunha cortar 5.000 empregos, o resultado das negociações foi o inverso: serão criados mais 5.000 empregos.

Ao nível salarial, os novos contratados começaram 67% acima do que antes se ganhava nesta posição, e como em todos os casos destes aumentos salariais estão previstos “ajustamentos” de acordo com o aumento do custo de vida. O aumento dos trabalhadores temporários será de 165%.

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