Greve dos pilotos é “cartão vermelho ao acionista Estado”

26 de julho 2014 - 11:57

Os pilotos da TAP anunciaram uma greve para 9 de agosto, em protesto contra o agravamento das condições de trabalho e para obrigar o Estado a “apurar responsabilidades” pela degradação do clima laboral na empresa.

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Foto Mário Cruz/Lusa

“Em 30 anos nunca vimos sair um piloto. Em dois anos e meio saíram 37”, afirmou o presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) à agência Lusa após o plenário de pilotos que decidiu marcar uma greve para o dia 9 de agosto. Ao descontentamento dos pilotos com o rumo da empresa junta-se a falta de vontade do acionista Estado para os receber.  "Esta greve de 24 horas é um cartão vermelho ao acionista, que não recebe os sindicatos para discutir a situação, e à empresa, pela sua total desresponsabilização", acrescentou Jaime Prieto.

Os pilotos acusam a atual administração de deixar sair os seus quadros ao mesmo tempo que contrata companhias externas que não asseguram a qualidade do serviço prestado pela TAP. "Há 5 anos que a empresa tem apresentado resultados positivos mas as condições de trabalho têm-se agravado, o que leva a um grande descontentamento dos trabalhadores", disse o sindicalista, que vê nesta greve uma posição de força para obrigar o Estado a dialogar para "apurar o que se pode fazer" pela empresa e "apurar responsabilidades".

Segundo os pilotos, que aprovaram a greve por 168 votos a favor, 11 abstenções e 14 votos contra, a situação na manutenção da TAP “ainda está pior” que a área da pilotagem. Por isso exigem "uma inversão total e uma responsabilização da gestão da empresa” e que o acionista Estado deixe de  “assobiar para o lado”.

Nos últimos dias a TAP cancelou 50 voos, argumentando com o atraso na entrega de seis aviões, a juntar ao atraso na formação das equipas de tripulantes. O presidente da TAP já admitiu o atraso, dizendo na semana passada que “conseguimos formar cerca de metade dos tripulantes que gostaríamos de ter formado”. A empresa recorreu ao fretamento de aviões e tripulações de outras companhias, o que tem sido insuficiente para minimizar os estragos provocados à reputação da TAP.

Falta de investimento na manutenção compromete imagem da TAP

“Cada vez é mais difícil fazermos o trabalho: temos as ferramentas que tínhamos há 30 e 40 anos para equipamentos com mais tecnologia”, diz o coordenador da CT da TAP.

O recente aumento do número de problemas mecânicos dos aviões da TAP também é visto com preocupação por passageiros e trabalhadores, que acusam a administração de combinar a falta de investimento da empresa com o crescimento desproporcional da rede, de forma a tornar a TAP “mais apetecível” para uma futura privatização.

“Não se têm feito investimentos na TAP dignos desse nome. Não é por pintar um edifício ou remodelar o mobiliário que se faz investimentos. É preciso melhores condições de trabalho, quadros suficientes, aviões que cheguem para a operação e espaço para a manutenção”, defendeu o coordenador da Comissão de Trabalhadores da empresa. Para Vítor Baeta, ouvido pela Lusa na semana passada, “cada vez é mais difícil fazermos o trabalho: temos as ferramentas que tínhamos há 30 e 40 anos para equipamentos com mais tecnologia”.

“Em dezembro de 2010, havia 971 técnicos de manutenção e, em junho deste ano eram 917, com mais seis aviões na frota da companhia”, prosseguiu o coordenador da CT, sublinhando que a entrada prevista de 50 técnicos este ano não irá repor a situação de há cinco anos, pela falta de experiência dos novos contratados: “Com experiência entraram seis profissionais, os restantes não têm experiência e estamos a falar de uma profissão que assume autonomia ao fim de seis ou sete anos”, afirmou.