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Greve climática: “Os governos e as instituições estão a falhar”

Centenas de ativistas juntaram-se à greve climática estudantil de Lisboa. O Esquerda.net falou com algumas jovens sobre os desafios que enfrentamos e as suas reivindicações por uma transição climática justa. Treze outras localidades portuguesas também foram palco de iniciativas. Por Mariana Carneiro.
Fotos Esquerda.net

O movimento ambientalista Fridays for Future convocou para esta sexta-feira uma nova greve climática estudantil, com mais de 1.500 ações em vários pontos do mundo, incluindo protestos em catorze localidades portuguesas: Albufeira, Aveiro, Braga, Caldas da Rainha, Coimbra, Faro, Funchal, Guimarães, Lisboa, Mafra, Porto, Santarém, Sines e Viseu.

Em Lisboa, centenas de pessoas concentraram-se no Jardim Amália Rodrigues, no topo do Parque Eduardo VII, de onde seguiram até ao jardim do Arco do Cego, “para exigir justiça climática interseccional”.

Em conjunto, reivindicaram “mudanças profundas”, com o seu call out para #UprootTheSystem. Querem “não só um futuro mas também um presente digno e justo para todas” e sublinham que “resolver a crise climática exige a maior mobilização social de sempre”.

“Os governos e as instituições estão a falhar”

A Maria Mesquita tem 19 anos, estuda na Faculdade de Letras, e sabe bem quais as razões que a levaram a sair novamente à rua: “Há décadas que existem cimeiras pelo clima, há anos que já se sai à rua pela justiça climática e continuamos a não ver resultados nenhuns”, explicou ao Esquerda.net.

“Temos de cortar cerca de 75% das emissões a nível global em menos de sete anos. Isso não se faz sem mudanças estruturais na forma como nos organizamos enquanto sociedade, seja no que respeita ao transporte, habitação, consumo de energia, alimentação…”, alertou.

“Em estado de alarme”, é assim que Mariana Gomes, com 20 anos e a estudar na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, descreveu o impacto causado pelo último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

De acordo com a estudante, este documento diz-nos, basicamente, “que os governos e as instituições estão a falhar”.

“Não podemos esperar mais pela resposta e pela ação dos governos e de todas as instituições e empresas. Sabemos que eles nos estão a levar para o colapso que significa tudo o que vem da degradação climática. Está na hora de toda a sociedade agir”, defendeu.

Mariana Gomes quer “uma transição energética, uma transição justa, que não deixe as pessoas para trás”. Não podemos permitir que “um sistema económico prevaleça sobre a vida das pessoas”, vincou.

A jovem considera que o país deve avançar com “o encerramento faseado e planeado das infraestruturas mais poluentes”, como a refinaria da Galp em Sines, que “devem ser convertidas para as energias renováveis”. Mariana Gomes acrescentou ainda que é necessário assegurar a requalificação profissional dos trabalhadores, que deve ser paga pelas empresas, e que estes devem ser “alocados ao sistema público de energias renováveis”.

Aquilo pelo que luta? Uma “sociedade eco-feminista, eco-socialista, com justiça climática, justiça social, em que a vida ocupa o centro, e não o lucro".

“Sistema socioeconómico continua a ser guiado pelo capitalismo fóssil”

Diana Neves tem 20 anos, estuda na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, e foi escolhida para ser a porta-voz da greve climática em Lisboa.

A ativista garantiu que “a luta vai continuar, até que governos, organizações, instituições se deixem de promessas vazias e de planos insuficientes e ponham em marcha uma mudança incisiva no sistema socioeconómico, que continua a ser guiado pelo capitalismo fóssil”.

Diana Neves explicou que os jovens têm ocupado as ruas porque defendem “justiça climática” e “justiça social”. “Temos em conta não só planos para o clima, queremos também reivindicar direitos e ter em conta os setores mais fragilizados da sociedade – minorias étnicas, comunidade LGBTQIA+, as mulheres, os trabalhadores. Queremos um futuro digno para toda a gente num planeta habitável”, continuou.

Também com a mesma idade e a estudar na mesma faculdade, Salomé Rita sente que “há uma grande inação por parte dos políticos”.

“É preciso fazer pressão para que as pessoas comecem a agir e percebam o quão urgente é este problema”, assinalou. Lembrando que “estamos a adiar tomar medidas mais extremas há, pelo menos 20 anos”, Salomé frisou que “é preciso agir já”.

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“Há cada vez mais razões para reivindicar justiça climática”

Para Andreia Galvão, “há cada vez mais razões para reivindicar justiça climática”.

“O estado de catástrofe climática está pior”, como revelam os relatórios do IPCC, e “se não fizermos cortes drásticos nos próximos sete anos não é possível não atingirmos 1.5º, a partir do qual chegamos a um ponto de não retorno”, afirmou.

A ativista de 20 anos, a estudar na FCSH, advertiu que, consequentemente, “os processos irreversíveis começam a tomar forma e a prejudicar ainda mais comunidades que já estão a passar fome devido à crise climática”, como é o caso de Madagáscar.

Andreia Galvão quer que governos e instituições parem de “atirar areia para os olhos das pessoas”, como acontece com “os projetos do Green New Deal, que fazem malabarismo numérico”.

De acordo com a jovem, esta luta “não é só pelo futuro, é uma luta pelo nosso presente e pelas pessoas que estão em risco devido às alterações climáticas, mesmo que indiretamente”. “Não é possível que esta luta não seja interseccional e não responda de facto a um problema transversal na sociedade”, acrescentou.

Andreia Galvão foi perentória: “não podemos ser complacentes com planos que deixam os trabalhadores na precariedade”.

“Não podem ser sempre as mesmas pessoas a pagar por todas as crises”

No encerramento da manifestação, já no jardim do Arco do Cego, ficou uma certeza: “não podem ser sempre as mesmas pessoas a pagar por todas as crises”.

“Ao contrário do que o Governo e a Galp pensam”, transição justa “não é encerrar a refinaria de Matosinhos para concentrar a indústria fóssil em Sines, nem despedir milhares de pessoas sem qualquer plano de requalificação”.

Os ativistas estudantis declararam a sua solidariedade com os trabalhadores da refinaria de Matosinhos, concentrados esta sexta-feira em frente à Câmara Municipal.

 

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
Termos relacionados Greve climática estudantil, Ambiente
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