No passado dia 21 de Maio, as eleições legislativas seguiram o sistema de representação proporcional pela primeira vez na história da Grécia. Em 2016, o governo de coligação do SYRIZA e do ANEL (Gregos Independentes) aboliu o sistema semi-proporcional “tradicional” que atribuia um bónus para o partido que fica em primeiro lugar. Este bónus concede 50 lugares ao partido que fica em primeiro lugar (independentemente da percentagem de votos que obtenha), a fim de garantir a formação de governos governos com uma “super-maioria” no parlamento. De acordo com a Constituição de 1974, as alterações ao sistema eleitoral não são de aplicação imediata. Só depois de uma nova eleição (realizada ao abrigo do sistema anterior) é que o novo sistema pode ser aplicado nas eleições seguintes.
As eleições de 2019 foram, por conseguinte, realizadas ao abrigo do sistema semi-proporcional pré-existente. Foram ganhas pela Nova Democracia (ND) de Kyriakos Mitsotakis que obteve 39,85% dos votos e assegurou uma maioria parlamentar com 158 dos 300 deputados. O SYRIZA de Alexis Tsipras foi derrotado pela ND mas manteve uma parte significativa da sua força eleitoral, com 31,53% dos votos e 86 deputados. Uma vez no poder, uma das primeiras medidas tomadas por Mitsotakis foi alterar novamente o sistema eleitoral, restabelecendo o sistema de bónus da maioria com o objetivo explícito de permitir a formação de governos fortes de um único partido.
As novas eleições de 25 de Junho serão realizadas segundo este sistema semi-proporcional, uma vez que os resultados das eleições de 21 de Maio (realizadas segundo o sistema proporcional) não deram a maioria parlamentar a um único partido e não foi feito qualquer esforço para formar um governo de coligação.
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Em 21 de Maio, Mitsotakis conduziu a direita a uma vitória clara, obtendo 40,79% dos votos e 146 deputados, registando um crescimento de 0,94% na sua votação. A dimensão deste apoio à direita não é inédita na Grécia e pode ser explicada (como veremos mais adiante neste artigo). No entanto, os resultados eleitorais foram um choque político: não tanto pela reafirmação do poder político de Mitsotakis, mas antes pelo colapso eleitoral do SYRIZA: o partido de Alexis Tsipras, que foi às urnas com um espírito triunfalista, obteve apenas 20,07% dos votos, perdendo 11,46% em relação às últimas eleições de 2019. Atuando como oposição durante quatro anos, face a um governo repulsivo que entrou frequentemente em conflito com a maioria da sociedade e foi abalado por sucessivos escândalos (como a espionagem secreta das comunicações privadas de amigos e inimigos do primeiro-ministro), o SYRIZA conseguiu perder um terço do seu apoio eleitoral!
Se não tentarmos abordar e interpretar estes dois aspetos do resultado de forma combinada, não conseguiremos compreender o significado do dia 21 de Maio, que muitos descreveram como um terramoto político.
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A Nova Democracia obteve 40,79% dos 61% dos eleitores elegíveis que foram às urnas. Isto significa que as suas políticas foram “aprovadas” (tendo em conta as distorções inerentes à medição da “aprovação de políticas” através de eleições) por 30% da população. Trata-se de uma vitória importante, mas não de um triunfo político.
A explicação desta vitória encontra-se sobretudo no domínio da economia. O capitalismo grego registou uma “recuperação” bem-sucedida após a pandemia (superior à média da UE). A taxa de crescimento médio da rentabilidade dos 150 maiores grupos empresariais gregos em 2022 foi 35% superior à taxa de crescimento em 2021, o que, por si só, constituiu um recorde. Dentro deste total, destacam-se alguns “campeões”.
A família Vardinoyannis, que controla (entre muitos outros ativos…) a grande refinaria de Motor-Oil na cidade de Corinto, viu os seus lucros provenientes da refinação, venda e exportação de combustíveis aumentarem 330% num ano! A família Latsis, que controla (igualmente entre muitos outros ativos…) a grande refinaria de petróleo da Grécia, (ELPE), outrora pública, viu os seus lucros aumentarem 160% em comparação com a sua elevada rentabilidade em 2021. O transporte marítimo, a energia, o turismo, a construção, a logística e a indústria alimentar (produção e venda) estão entre os outros setores que lideraram esta corrida ao crescimento.
Este “mundo dos negócios” sempre teve a capacidade de influenciar, alinhar e dirigir as classes médias abastadas e de exercer uma atração sobre sectores mais vastos da sociedade. A vitória eleitoral de Mitsotakis foi sustentada pela mobilização dos chamados "vencedores do mercado", uma vez que a classe dirigente o apoiou política e eleitoralmente. Isto pode ser visto não só nos números dos resultados eleitorais mas sobretudo nas características dominantes do debate político durante o período pré-eleitoral. A classe dominante (que controla todos os “grandes” meios de comunicação social) “proibiu” qualquer tópico inconveniente que fosse além da mera “gestão” do status quo e que pudesse dar uma dinâmica anti-establishment mais ampla à exigência “Mitsotakis fora!”.
Este alinhamento da classe dirigente não foi isento de sobressaltos. Nos momentos em que o governo tropeçou (por exemplo, depois das revelações sobre a espionagem secreta de comunicações mas ainda mais depois do acidente fatal de comboio em Tempé, no final de Fevereiro), levantaram-se vozes poderosas em nome dos oligarcas gregos, apelando à preparação de governos multipartidários de “consenso alargado”, caso os resultados eleitorais tornassem essa opção necessária. Mas, como ficou demonstrado, tratava-se de um “plano B”, enquanto a prioridade do grosso dos capitalistas era apoiar Mitsotakis.
Não é difícil perceber porque assim foi. No momento em que escrevo estas linhas, a “indústria pesada” do turismo grego está a “abrir as portas”. Milhares de trabalhadores sazonais que trabalham nestas modernas “galés” estão a ser chamados a assinar o seu contrato anual. Segundo algumas informações, estão a ser obrigados a aceitar uma “multa” (10.000 euros! – para evitar a “grande demissão” que começou no Verão passado…) se decidirem abandonar o seu árduo trabalho antes do fim da época turística. São também obrigados a respeitar uma “cláusula de confidencialidade” (cuja violação implica uma coima de 5.000 euros) para manter secretos os salários à jorna baixos e ilegais pagos nos “paraísos turísticos”.
Nos primeiros quatro meses de 2023, ocorreram 71 “acidentes” de trabalho, resultando na morte de pelo menos um trabalhador. Se esta tendência continuasse ao longo do ano, seria um recorde sombrio na história do capitalismo grego. O crescimento e o aumento da rentabilidade das empresas fazem-se de forma sangrenta. E este caminho de “crescimento” é defendido por Mitsotakis de forma consistente, sem reservas ideológicas e sem hesitações.
A questão não é saber porque é que a parte superior da sociedade (os “privilegiados”: o um terço, como se costumava dizer) se juntou a Mitsotakis. A questão é saber por que razão a parte inferior, a maioria de dois terços da sociedade, não encontrou uma forma de se mobilizar politicamente e reagir eleitoralmente contra este governo extremamente neoliberal.
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Permitam-me responder sem desvios: as eleições não foram ganhas por Mitsotakis, mas sim perdidas por Tsipras. O principal financiador da vitória eleitoral da direita foi a política e tática eleitoral medíocre do SYRIZA.
Tsipras travou esta batalha crítica tendo como centro da sua estratégia a “ideia inteligente” de se deslocar para o centro político, procurando os votos da classe média. Como resultado desta viragem conservadora, não assumiu qualquer compromisso convincente com os interesses dos trabalhadores, dos agricultores e dos pobres, evitando como a peste tudo o que pudesse ser interpretado como uma ameaça ao “crescimento”, aos capitalistas, à riqueza acumulada.
Prometendo soluções “win-win”, supostamente para satisfazer todos, tentou competir com Mitsotakis a nível pessoal, no terreno da “melhor oferta”, ou seja, da gestão do status quo. A sua campanha eleitoral foi um “one man show”, obliterando o seu partido (supostamente em nome de uma concentração disciplinada de poder de fogo eleitoral), afastando dos olhos do público qualquer símbolo, característica, cor ou rótulo que pudesse fazer referência à esquerda. Para sublinhar esta mudança para o centro, ele “abriu” a lista do SYRIZA para incluir personalidades “independentes”, oficiais do exército reformados, celebridades do jornalismo na moda, social-democratas politicamente falhados e alguns políticos “desempregados” da direita histórica! Sobre a questão crucial do tipo de governo que ele procuraria formar, as respostas de Tsipras mostraram uma confusão política fenomenal: começou a campanha eleitoral do SYRIZA a propor um governo “democrático-progressista” (na verdade, uma coligação com o PASOK). Depois declarou que “não formaremos um governo dos derrotados” (o que significava que a vitória do SYRIZA era agora uma pré-condição para “mudança”). A seguir pediu uma “convergência” com o PASOK, o MERA25 e o Partido Comunista (depois de tentar marginalizá-los eleitoralmente), antes de finalmente declarar que estava aberto a uma “solução” governamental politicamente não especificada de “consenso mais amplo”.
Todos estes elementos combinados acabaram por deixar claro o grande problema de credibilidade que persegue o SYRIZA desde que traiu as esperanças e as expectativas da população em 2015. A página de Internet in.gr (propriedade do oligarca Vagelis Marinakis) expressou-o da seguinte forma: “Tsipras não compreenderá o significado do que aconteceu em 2023 porque não compreendeu o significado do que fez em 2015”.
O resultado final foi uma derrota esmagadora para o SYRIZA. O partido perdeu mesmo em zonas que considerava serem “bastiões” de apoio eleitoral, como os bairros pobres da classe trabalhadora de Atenas e do Pireu, ou entre os jovens (os eleitores entre os 17 e os 24 anos). A Nova Democracia só ficou em segundo lugar entre os trabalhadores do sector privado. Em comparação com as eleições de Janeiro de 2015 (o pico de apoio eleitoral da esquerda), o SYRIZA perdeu 1,5 milhões de votos!
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O culminar da transformação social-liberal do SYRIZA, a propaganda mediática em torno das relações calorosas de Tsipras com os líderes da social-democracia europeia, os esforços de Tsipras para se apropriar da tradição, dos slogans e até do estilo pessoal de Andreas Papandreou [primeiro-ministro de 1981 a 1989 e de 1993 a 1996], tiveram o efeito de reforçar o PASOK! Sob a nova liderança de Nikos Androulakis (que também reuniu à sua volta alguns dos “barões” experientes da época dourada do PASOK), os sociais-democratas originais aumentaram o seu apoio eleitoral em 3,35%, atingindo 11,36% e alcançando um resultado de dois dígitos pela primeira vez desde 2012, quando começou a ascensão do então radical SYRIZA, que acabou por os empurrar para a insignificância em 2015. Em seis círculos eleitorais, o PASOK retirou o segundo lugar ao SYRIZA, o que pode marcar o início de um novo processo político, onde o poder da oposição estará em jogo.
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O Partido Comunista aumentou o seu apoio em 1,93%, atingindo 7,23% e ganhando 426.000 votos. Trata-se de uma boa notícia, pois reflete a resistência de uma parte da classe trabalhadora e das camadas populares face ao ataque neoliberal de Mitsotakis e à viragem conservadora do SYRIZA. Mas este reforço do Partido Comunista, em comparação com os 600.000 votos que o partido costumava ganhar nas eleições antes da crise e, sobretudo, com o potencial que emergiu daqueles que retiraram a sua confiança ao SYRIZA, revela-se um crescimento limitado, menor do que o potencial objetivo. Há que procurar uma explicação na política sectária do PC e nas constante tática da sua direção para evitar as responsabilidades políticas que correspondem à força organizativa do partido.
O partido “MERA 25 – Aliança para a Rutura”, liderado por Yanis Varoufakis e ao qual se juntou uma parte importante da antiga formação da Unidade Popular [saída do SYRIZA], obteve 155.000 votos e 2,63% dos votos, mas não conseguiu ultrapassar o limiar de 3% para entrar no parlamento. Pagou o preço das contradições ligadas ao papel de líder de Yanis Varoufakis, que não conseguiu convencer um público mais alargado de esquerda a apoiá-lo, apesar do potencial gerado pelas perdas do SYRIZA. Esperamos que este resultado possa ser “corrigido” a 25 de Junho para que o MERA25 possa trazer uma força suplementar de oposição de esquerda ao parlamento.
A maior das listas eleitorais de extrema-esquerda, a ANTARSYA, limitou-se a um resultado que simplesmente inscreve a sua presença nos “anais”, obtendo 31.746 votos e 0,54% dos votos. Tem um crescimento marginal de 0,13%, o que não pode ser considerado satisfatório, nem em termos absolutos, nem em relação aos milhares e milhares de pessoas que retiraram o seu apoio ao SYRIZA. A ANTARSYA tentou este tipo de participação e intervenção eleitoral várias vezes ao longo dos últimos 15 anos, sem nunca conseguir um resultado diferente.
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Na ameaçadora corrente de extrema-direita, a Solução Grega, o partido nacionalista-racista de Kyriakos Velopoulos [antigo membro do LAO, Alerta Popular Ortodoxo], entrou no Parlamento, com 4,45%, 262.000 votos e 16 deputados. Também houve um recém-chegado deste lado do espectro político-eleitoral, um partido chamado Niki (Vitória), que por pouco não conseguiu entrar no parlamento, tendo obtido 2,92% e 172.000 votos. Trata-se de um partido de organizações cristãs ortodoxas ultra-conservadoras, financiado por alguns dos grandes mosteiros da comunidade monástica do Monte Athos e que admira os “irmãos ortodoxos” da Rússia de Putin.
No conjunto, as forças da extrema-direita grega continuam a ser um inimigo perigoso, embora estejam longe de ter o poder de atração e, sobretudo, a força de ataque que os neonazis da Aurora Dourada conseguiram desenvolver no seu apogeu. O desmantelamento da Aurora Dourada, uma grande conquista do movimento antifascista e antirracista, continua a ser um “modelo” para enfrentar esta corrente política ultra-reaccionária e ameaçadora.
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Ao tentar interpretar esta nova paisagem política, alguns analistas são levados a teorizar sobre um “conservadorismo generalizado” da sociedade grega. Estas generalizações simplistas podem ter algum valor para sociólogos e jornalistas, mas não são construtivas para os ativistas dos movimentos sociais e da esquerda. A validade destas teorias não se confirma se forem tidos em conta todos os aspectos da realidade social.
A relação de forças entre as classes, o equilíbrio das forças políticas e eleitorais dizem respeito a variáveis diferentes. Estão ligadas e influenciam-se mutuamente, mas não são idênticas.
Algumas semanas antes das eleições de 21 de Maio, na sequência do acidente de comboio de Tempé, mais de 2,5 milhões de pessoas participaram numa sucessão de greves e manifestações. Tanto os institutos de investigação ligados aos sindicatos como os institutos de sondagem (para o grande público) concordaram que se tratava de um pico da expressão da cólera da classe trabalhadora e do povo. Só poderia ser comparado com a atmosfera militante que prevaleceu durante o período tempestuoso de 2010-13. Esta força não irrompeu simplesmente num céu azul. Nem se evaporou no nada. A derrota da esquerda nas eleições de Maio deve e pode ser explicada pelas escolhas feitas pelos partidos políticos, e pelo SYRIZA em particular, quando tentaram expressar essa força em termos de táticas políticas e escolhas eleitorais. Pela nossa parte, insistimos que o espetáculo dos grevistas e dos manifestantes de Março passado na Grécia continua a ter uma importância política decisiva e não deve ser esquecido por causa dos resultados eleitorais desfavoráveis.
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Em certa medida, o resultado de maio antecipa o resultado das próximas eleições de 25 de junho. A menos que haja uma grande surpresa, Mitsotakis obterá uma maioria parlamentar para um novo governo de partido único. Não há dúvida de que esse governo será agressivo e totalmente dedicado à cupidez capitalista. Mas deve-se notar que o fim da “flexibilização” fiscal e o reinício da obrigação de pagamento da dívida fazem de 2024 um ponto de virada crucial para o capitalismo grego.
A Comissão Europeia já informou o próximo governo (e a opinião pública) de que, no âmbito do acordo de 2018 entre a Grécia e os credores – bem como das avaliações de “meio termo” da economia grega –, a promessa eleitoral de Mitsotakis de aumentar o salário médio dos trabalhadores (abolindo o congelamento imposto à “evolução/ajustamento salarial” durante o memorando) deve ser considerada como estando fora de questão. Por isso, não se deve subestimar o facto de haver vozes na imprensa tradicional que insistem na necessidade de um “consenso mais alargado”, apesar da vitória eleitoral de Mitsotakis.
No que diz respeito ao SYRIZA, a questão é saber se vai manter uma posição hegemónica nas fileiras da oposição. As reações reflexas de Tsipras após o resultado foram piores do que as suas táticas eleitorais. Quando o Comité Central do SYRIZA se reuniu para “analisar” as razões da derrota esmagadora, os membros do CC não foram autorizados a fazer contribuições ou a falar. Em vez disso, limitaram-se a ouvir um longo discurso do líder. Esta degenerescência do partido, capaz de fazer corar um estalinista de linha dura, nunca poderia produzir nada de decente: Tsipras declarou que “continuaria à frente do partido” e atribuiu a derrota à… representação proporcional e aos erros do PASOK, do Partido Comunista e do MERA-25, por se recusarem a reconhecer o seu papel decisivo na “mudança” que pretendia.
O PASOK procurará reduzir a distância eleitoral que o separa do SYRIZA. Um processo de “recomposição social-democrata” que envolva o PASOK e o SYRIZA (um projeto que tem alguns apoiantes sérios dentro de ambos os partidos) terá de prosseguir a um ritmo mais lento e no contexto de um novo equilíbrio de poder entre os dois partidos.
O lugar da oposição de esquerda no Parlamento será determinado pela força eleitoral que o Partido Comunista vier a registar e pela entrada ou não do MERA-25 no Parlamento.
No período que se segue, o inimigo mais perigoso para Mitsotakis será a ação “de baixo e à esquerda”. O confronto com este adversário determinará a resistência e, em última análise, a viabilidade do governo que sair das urnas a 25 de Junho.
Antonis Ntavanellos é membro da direção do DEA e redator do jornal Ergatiki Aristera.
Publicado originalmente no A L’Encontre. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.