Grécia: organizar uma base alargada para a transformação

07 de julho 2012 - 1:32

Christos Giovanopoulos (ativista do Movimento das Praças) e Michalis Tziaras (jovem membro da Syriza em Salonica) falaram ao Esquerda.net sobre o rumo da resistência popular à troika, o crescimento dos neonazis e o futuro da Syriza.

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Que contributo deu ao crescimento eleitoral da Syriza o ascenso da luta social dos últimos anos, com as manifestações, greves e as ocupações da Praça Syntagma e outras praças na Grécia?

Christos Giovanopoulos: Para mim, o grande momento foi a ocupação das Praças que durou dois meses, entre maio e julho, em Atenas. Isso dirigiu o descontentamento das pessoas em relação ao sistema político para uma posição mais radical e de esquerda. E também deu forma à urgência social sentida pelo povo. E quando as Praças se esvaziaram, o movimento foi disseminado por todo o país. A grande questão após o movimento das Praças era "E agora?".

Houve uma multiplicação rápida de pequenas lutas ao mesmo tempo, mas também grandes lutas como a de 28 outubro que levou à demissão do governo Papandreou, ou a do 12 de fevereiro, quando milhares de pessoas enfrentaram a polícia durante muitas horas contra o segundo resgate da troika.

Acho que tudo isto foi integrado num apoio à Syriza por duas razões: a primeira é que a Syriza tinha raízes no movimento. Não foi a Syriza que o lançou, mas alguns ativistas, em particular de algumas tendências da Syriza, participaram ativamente no movimento. Havia uma ligação com o movimento social.

A segunda razão é que a Syriza se manteve aberta ao apelo da unidade da esquerda. Creio que a discussão foi ganha quando o PC grego, a Esquerda Democrática e a extrema esquerda disseram que não era altura para coligações, justificando esta posição com razões diversas.

A Syriza obteve um grande apoio da juventude nas eleições de maio e ainda cresceu em junho. Quais as razões desse fenómeno?

Michalis Tziaras: A Syriza foi o único partido grego que apoiou a juventude, porque foi o único a dar-lhe esperança com um sentido realista. As medidas do FMI e do Memorando destruíram as nossas vidas como não se viu em nenhum lado do mundo. Em apenas dois anos, a sociedade foi duramente atingida pelo governo. A nossa sociedade quer democracia, quer educação, quer um sistema de saúde que não seja apenas para os ricos, mas para todo o povo. Eles querem fazer da Grécia uma Bulgária ou uma Roménia, no que respeita à Saúde e Educação. Eles querem tirar-nos do euro, mas dizem que eles é que nos querem manter no euro. Isto é uma mentira. A nossa sociedade e os jovens em especial, já perceberam qual será o futuro se esta situação prosseguir. Por isso votaram Syriza, para que haja uma grande mudança na vida política e na sua vida também.

Como pensas que irá evoluir a forte ligação que hoje existe entre a Syriza e o movimento social contra a austeridade e a troika?

Christos Giovanopoulos: O problema que enfrentamos agora na Syriza é saber como conseguimos responder às tarefas e à confiança que foi depositada por 27% dos eleitores. E também saber como conseguiremos organizar uma base alargada para a transformação social, a começar por dar soluções aos problemas que existem. Eles vão agravar-se e multiplicar-se, porque o governo irá acelerar a implementação das medidas de austeridade. Isto dá-nos mais responsabilidade para nos organizarmos envolvendo as pessoas, para criarmos uma base social para uma mudança política.

O mais importante é o que faremos ao nível social. Como organizaremos as pessoas que estão dispostas a resistir para tornar essa resistência mais eficaz. Quanto à representação política, creio que o apoio que o povo grego deu à Syriza é condicional. Enquanto mantiverem esta linha política que reflete a vontade do povo, a Syriza vai transformar-se numa força real e radical de mudança. Mas se tentarem fazer compromissos e assumir apenas o papel de oposição institucional no atual sistema político, isso poderá ser o fim da Syriza e uma grande desilusão para o povo grego. Creio que existe aqui uma tensão entre o movimento social e a representação política. Uma tensão que ainda não está resolvida, não há uma tendência clara em ambos os níveis. Mas também acho que essa tensão é fértil e é bom que exista. Nós queremos reconstruir as condições para uma grande transformação social e não apenas para irem fazer leis num governo integrado no atual sistema.

O partido neonazi continuou a ganhar apoios nos últimos meses. Como é que a esquerda grega poderá travar este crescimento?

Michalis Tziaras: Creio que devemos tornar claro aos eleitores da extrema-direita neonazi quem são aqueles em quem votaram. Eles são criminosos e muitos deles cumprem penas de prisão por muitos crimes. Eles atacaram o povo que apoia a esquerda e os imigrantes, a um ritmo diário. Muita gente que votou Aurora Dourada não sabe quem eles são. Também temos de deixar claro que os neonazis não amam o seu país. Só gostam de si próprios. Eles não são a solução dos problemas da Grécia, porque eles não querem saber da solução dos problemas na Grécia.