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Manolis Glezos: "Não nos venceram na Segunda Guerra e também não nos derrotarão agora"

Aos 89 anos, Manolis Glezos é um herói europeu e nacional. Em 1941, em plena ocupação nazi da Grécia e com apenas 18 anos, subiu à Acrópole, arriou a bandeira nazi e içou a grega. Glezos acaba de ser eleito deputado pela Syriza. "Os anos não contam. O que conta é ganhar a próxima batalha". A reportagem é de Eduardo Febbro, direto de Atenas.
Manolis Glezos foi eleito deputado pela Syriza, nas últimas eleições gregas

Atenas - Manolis Glezos não tem tempo para escrever as suas memórias. Poderia rechear vários volumes, mas prefere viver. Os 94 anos que marca o relógio do tempo não detém nem as suas ânsias, nem a sua força, nem as suas convicções políticas inalteráveis desde aquela madrugada de maio de 1941 quando, em plena ocupação nazi da Grécia e com apenas 18 anos, subiu à Acrópole de Atenas, arriou a bandeira nazi e içou a grega.

Manolis Glezos é um herói europeu e nacional. Os historiadores localizam o seu gesto como o primeiro ato de resistência contra a ocupação nazi da Europa do Sul. Nada parece deter este homem enérgico que atravessou um século XX em rebeldia constante e agora, neste nascente século XXI, acaba de ser eleito deputado pela coligação de esquerda radical Syriza.

Detido, libertado, preso, condenado, foragido, torturado e sempre livre. A história de Manolis Glezos é o relato de uma insubmissão sem rendição. Juntamente com Mikis Theodorakis, Glezos foi uma das cabeças mais visíveis do combate contra a ditadura dos coronéis (1969 a 1974). Mais recentemente, o agora deputado da Syriza foi um dos primeiros a chamar os gregos a se manifestarem quando a Grécia caiu no precipício dos planos de austeridade. A memória dos povos costuma ser infiel com os seus heróis.

Cabe a Manolis Glezos viver nestes dias um episódio incomum: quanto ingressar no Parlamento como deputado terá que compartilhar esse berço da democracia com os deputados do partido neonazi Aurora Dourada. Com 7% dos votos, a formação que reivindica Hitler como herança e os seus valores como método foi legitimada nas urnas. Glezos conviverá no Parlamento com os herdeiros daqueles que ele combateu toda a sua vida. A sombra daquela bandeira nazi que arriou da Acrópole em 1941 segue os seus passos. Entretanto, não se detém em lamentos, muito pelo contrário.

Por isso escolheu a batalha política e as ideias da Syriza para vencer os seus dois inimigos: Aurora Dourada e os planos de austeridade promovidos pela União Europeia, em especial pela Alemanha. Da mesma forma que a Syriza, Glezos denuncia “os bancos internacionais, as agências de classificação de risco e os fundos de investimentos que assentam o seu poder na Europa e no mundo e se preparam para destruir os Estados e a democracia utilizando a arma da dívida”. A atitude agressiva e humilhante da Alemanha – entre outros insultos Berlim chamou os gregos de vagabundos — deu a Manolis Glezos uma nova dimensão. Como ele mesmo diz: os anos não contam. O que conta é ganhar a próxima batalha.

- Tantas e tantas décadas depois, o que sente ao ver os neonazis ingressar ao Parlamento?

- É algo triste o que aconteceu, mas acho que devemos analisar estes eventos e ver por que ocorreram. Em primeiro lugar dá-me tristeza e raiva. Apesar de nossa grande história ainda existem traidores no nosso país. Sinto pena de ver como há gente que pode chegar a este ponto. Também sinto raiva porque o nosso sistema político alimenta estes fenómenos, fortalece-os. Durante a ocupação da Grécia pelos nazis tivemos traidores e colaboradores. Dissemos a muitos desses colaboradores: vocês são gregos, têm que trabalhar para a Grécia. Fizemos um trabalho tão forte que muitos deles passaram logo a formar parte da Frente de Libertação Nacional.

É preciso fazer um trabalho similar com aqueles que votam pelos neonazis. Hoje também é preciso olhar de perto as bandeiras e as políticas que estas organizações promovem. Dizem que estão contra o capital, contra os protocolos de austeridade, dizem que estão a favor da Pátria e contra os imigrantes. É curioso constatar que durante a ocupação, uma das primeiras organizações criadas por gregos traidores e alemães se chamava ESPO, Organização Social Nacionalista Patriótica. Pois a ESPO defendia os mesmos temas que os neonazis de hoje: o nacional, o patriótico e o socialismo. O mesmo que agora: patriótico contra o protocolo, social contra o capital e contra os imigrantes pela nação. O que nos cabe fazer, então, é revelar ao povo os planos desta gente e demonstrar que os problemas do povo não se podem resolver com o fascismo. Para mim, não se trata de saber o que eu sinto, mas como enfrentar este problema sem sentimentalismo, com lógica. Para a Grécia, o mais importante é recuperar a sua independência nacional. Neste momento levaram-nos a ser quase um protetorado sob o domínio da Alemanha.

- Quando subiu na Acrópole para tirar a bandeira nazi e colocar a grega no seu lugar, você era muito jovem, tinha apenas 18 anos. Por que escolheu fazer esse ato?

- Baixei a bandeira na madrugada de 30 para 31 de maio de 1941. Escolhemos esse dia porque havíamos escutado na rádio que Adolf Hitler, num discurso que pronunciou no Reichstag, disse que com a ocupação da ilha de Creta toda a Europa estava libertada. O que quis dizer é que a Europa estava completamente sob o poder do fascismo. Então, nós decidimos mostrar-lhes que a luta começava agora, que a Europa não estava libertada como ele dizia. É dado a esse gesto um valor histórico. Eu não concebo assim. Este foi só um dos muitos atos que fizemos durante esta luta. Desse momento até agora nunca deixei de lutar. Nunca baixarei os braços.

- Se fizermos uma comparação histórica, que bandeira teria que ser baixada hoje do mastro que ocupa?

- Teria que baixar a bandeira dos súbditos e içar a bandeira da independência e da soberania nacional. Agora lembro-me de uma coisa que Goebbels, o ministro de Informação do Hitler, escreveu num artigo que apareceu durante a Segunda Guerra Mundial. Goebbels disse que no ano 2000 veríamos uma Europa dominada pela cultura alemã. Só errou em 10 anos. Hoje a Alemanha domina política e economicamente toda a Europa.

- Sente-se humilhado com a atitude depreciativa e degradante que a Alemanha teve com a Grécia durante todo este período da crise da dívida?

- Nós combatemos os alemães durante a Segunda Guerra Mundial e continuamos a combater agora, mas de outra maneira. É outro tipo de guerra. Mas há uma coisa que é certa: naquele momento não nos venceram e também não nos derrotarão agora. Durante a Segunda Guerra Mundial vencemo-los com as armas, hoje os venceremos de outra maneira.

- A Grécia votou no domingo passado sob uma imensa pressão externa, começando pela da Alemanha. A Europa pôs a Grécia no banco dos réus, fê-la parecer como um país de vagabundos que só podia reparar o seu erro de uma maneira: não votando na esquerda. Como julga estas eleições e as condições em que foram realizadas?

- Na véspera das eleições e pela primeira vez na história do nosso país, os jornais alemães, os políticos e outros dirigentes da Europa meteram-se diretamente na política grega. Foi algo incrível! No entanto, em que pese tudo isso, nós, a coligação de esquerda radical Syriza, saímos como a segunda força política do país. Isto representa uma das maiores vitórias deste último período. Prometo uma coisa: quando houver eleições na Alemanha eu vou lá. Aí Angela Merkel vai saber o que realmente significa a palavra intervenção!

- E quanto ao resultado da eleição, em que pese a Syriza não ter vencido, passou a ser o primeiro grupo de oposição no Parlamento. Isso é inédito, e não só na Grécia, mas também na Europa. É a primeira vez que um partido à esquerda da social-democracia é maioritário.

- Nós teríamos vencido as eleições se não fossem dois fatores: primeiro, a intervenção externa, que foi determinante: em segundo lugar, as enormes dificuldades que tiveram muitos dos nossos eleitores para regressar aos seus povoados e votar. Não tinham dinheiro para pagar a viagem. De qualquer forma, o essencial é que o terrorismo dos meios de comunicação conseguiu assustar as pessoas, por isso a direita ganhou.

Reportagem de Eduardo Febbro, disponível em Carta Maior. Tradução de Libório Junior

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