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Governo indiano prende jovem ambientalista

Disha Ravi é acusada de ser uma conspiradora contra a Índia. O seu crime? Ter participado na criação de um kit para divulgar a causa dos camponeses indianos em protesto contra a liberalização dos preços agrícolas.
Disha Ravi. Foto do seu Facebook.
Disha Ravi. Foto do seu Facebook.

Disha Ravi é uma ativista ambiental indiana de 22 anos. Foi uma das fundadoras, em Bangalore, do Fridays for Future, o movimento global iniciado por Greta Thunberg, e estava longe de merecer atenção mediática mundial. Esta voltou-se subitamente para ela quando a polícia indiana a prendeu sob a acusação de ser uma das autoras de um “kit” de apoio aos camponeses indianos em protesto contra a liberalização do setor, entretanto partilhado por Greta no Twitter.

A jovem indiana é acusada de sedição por “conspiração para travar uma guerra económica, social, cultural e regional contra a Índia" por causa de um documento com sugestões tão inócuas como as hashtags a usar nas redes sociais e as petições a assinar sobre o assunto. A polícia indiana diz que, para além de o ter criado, também foi ela a enviá-lo por mensagem no Telegram a Greta Thunberg. É considerada por isso uma “conspiradora chave”.

Disha foi presa no sábado e presente a tribunal no domingo sem a presença do seu advogado. O juiz sentenciou que deveria ficar mais cinco dias presa enquanto as autoridades investigam uma suposta ligação a um grupo separatista da minoria sikh. Na audição, confirmou que queria “ajudar os camponeses” mas disse que “apenas” editou “duas linhas a 3 de fevereiro”.

Os avós de Disha Ravi são, também eles, camponeses. Ela, a partir da sua origem modesta, conseguiu licenciar-se em Gestão na Universidade de Mount Carmel, em 2018. Acabou por escolher o ativismo ambiental, inspirada não só pela vaga mundial mas também pela experiência da família que sofreu várias perdas devido a inundações, sendo “vítima das alterações climáticas”, como disse ao Hindustan Times o ano passado: “Eu não sabia que eles eram vítimas das alterações climáticas porque a educação sobre essa questão é inexistente no lugar de onde eu venho. Apenas quando comecei a investigar sobre isto é que descobri este problema”. A este ativismo junta a pertença a redes ecofeministas, o combate à violência contra mulheres e o veganismo.

Realizaram-se manifestações nas maiores cidades indianas pela sua libertação e foi lançado um comunicado de apoio assinado por 50 académicos, artistas e ativistas de vários movimentos sociais do país.

A sua condenação à prisão une várias partes do sistema político indiano. Desde o Partido do Congresso, que já foi o pilar tradicional do sistema político, com o ex-ministro do Ambiente Jairam Ramesh a qualificar o sucedido como “assédio e intimidação”, até ao Partido do Homem Comum do qual faz parte o chefe do governo de Deli, Arvind Kejriwal, que classifica a prisão como “um ataque sem precedentes à democracia. Também o Partido Comunista da Índia (Marxista) se juntou ao coro de protestos, com o seu líder, Sitaram Yechury, a afirmar que “o regime de Modi pensa que ao prender uma neta de camponeses sob acusação de sedição pode enfraquecer as lutas camponesas. De facto, vai acordar a juventude deste país e fortalecer as lutas pela democracia”. Também os sindicatos camponeses se insurgiram, com o líder do Samyukt Kisan Morcha, Kavitha Kuruganti, a afirmar que “é atroz” prendê-la por causa do kit que “é simplesmente algo que alerta os cidadãos sobre o que podem fazer para apoiar os camponeses”.

O governo tem utilizado as leis de sedição, herdadas da era colonial, para intimidar adversários, acusa a oposição. Já em 2016, um relatório da Human Rights Watch considerava que Modi “usa leis draconianas como as provisões sobre sedição do Código Penal”, a lei sobre difamação criminosa e as leis sobre discurso de ódio para silenciar a dissidência”. São, escrevia-se então, “leis com palavras vagas, excessivamente abrangentes e propensas a más utilizações e que têm sido repetidamente utilizadas com objetivos políticos contra críticos”.

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