A campanha eleitoral na Hungria ganhou uma nova polémica esta semana. O Fidesz de Viktor Órban tenta manter-se no poder face ao crescimento da oposição liderada por um antigo dissidente do partido, Péter Magyar. Este aparece nos cartazes de propaganda do Fidesz ao lado de Zelensky e von der Leyen com a frase “Eles são o risco!”. A campanha de Órban tem estado centrada em apresentar o opositor como uma marioneta de Bruxelas e Kiev, considerando a guerra da Ucrânia como a principal ameaça ao país.
O mal-estar entre o governo e a União Europeia aumentou após uma investigação jornalística ter revelado que o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro Péter Szijjártó ligava frequentemente ao homólogo russo Sergei Lavrov para o pôr a par dos pormenores confidenciais das reuniões em que participava no âmbito da União Europeia. O ministro começou por negar os contactos, mas depois admitiu conversar com Lavrov antes e depois daquelas reuniões para o informar das decisões e dos temas tratados, considerando essas conversas como “diplomacia”.
Agora, a máquina do governo húngaro virou-se contra o jornalista autor da notícia e um dos mais reputados jornalistas de investigação do país. Num artigo publicado num jornal pró-governamental, Szabolcs Panyi é apontado como tendo ajudado uma rede de espionagem em escutas ao ministro. Na base da acusação está uma conversa gravada sem o consentimento do jornalista com uma das suas fontes desta investigação, em que Panyi alude a um número de telefone usado pelo ministro.
Em seguida, o chefe de gabinete de Órban anunciou que irá processar o jornalista por “espiar contra o seu próprio país em cooperação com um estado estrangeiro”. Gergely Gulyás acrescentou que “cada vez mais espiões ucranianos estão a ser descobertos na Hungria”, mais um dos motes da campanha do Fidesz para as eleições de 12 de abril. Do lado da oposição, a interferência externa mais temida nestas eleições é a que vem da Rússia, com os bots nas redes sociais a alimentarem desinformação a favor de Viktor Órban.
“Acusar jornalistas de investigação de espionagem é praticamente algo sem precedentes no século XXI para um Estado-membro da União Europeia”, escreveu o jornalista nas redes sociais, acrescentando que situações destas são mais frequentes “na Rússia de Putin, na Bielorrússia e em regimes semelhantes.” Szabolcs Panyi nega ter colaborado com serviços de informações estrangeiros para fazer escutas ou vigilâncias ao ministro e afirma que o seu trabalho foi recolher informações sobre algo de que se fala há muitos anos acerca da relação entre Szijjártó and Lavrov. “Desde 2023, tenho vindo a investigar especificamente a suspeita de que a relação entre Péter Szijjártó e responsáveis russos possa ter ultrapassado os limites legais”, diz o jornalista, explicando o contexto da referência aos telefones usados pelo ministro.
‼️Statement on the Orbán Government Accusing Me, an Investigative Journalist, of Espionage‼️
Today, the Hungarian government has filed a complaint against me for espionage. Accusing investigative journalists of espionage is virtually unprecedented in the 21st century for an EU… pic.twitter.com/K3qa3NjB0K— Szabolcs Panyi (@panyiszabolcs) March 26, 2026
Szabolcs Panyi está na mira do regime de Órban há muitos anos. Em 2021 descobriu-se que o seu telemóvel era um dos infetados pelo software israelita Pegasus, a par de outros jornalistas, advogados e políticos da oposição. Mais tarde um alto responsável governamental admitiu que o Governo tinha adquirido aquele software que permite aceder a todas as comunicações dos visados.