O Governo contratou os serviços de uma empresa irlandesa para ter acesso à ferramenta Newswhip, que promete ajudar os seus clientes a identificar não apenas os temas que estão a atrair maior interesse no debate público nas redes sociais, mas também prever o alcance que cada tema em discussão terá nos dias seguintes e adaptar a resposta a situações de crise para ganhar alcance através da análise de dados em tempo real.
Segundo a notícia revelada pelo Correio da Manhã, esta ferramenta de inteligência artificial permite ainda identificar os jornalistas e autores cujos conteúdos são suscetíveis de gerar maior atenção e provocar o debate público em torno das suas publicações.
“Acompanhe a forma como os meios de comunicação e o público estão a reagir e a interagir com os conteúdos relacionados com as suas campanhas e anúncios de políticas. Ajudá-lo-emos a identificar as vozes e publicações mais influentes e fornecer-lhe-emos resumos diários ou semanais dos principais temas que surgem através do nosso exclusivo AI Digest”, refere a empresa na zona do seu site dedicada à forma como os governos estão a usar o Newswhip.
Liberdade de imprensa
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Para o Bloco de Esquerda, a finalidade desta ferramenta “não é o estudo agregado do espaço informativo, mas a construção, com dinheiros públicos, de perfis individualizados e hierarquizados de jornalistas em função da repercussão do seu trabalho”. A gravidade da contratação do Governo passa não só por essas listas serem incompatíveis com a liberdade de impresa consagrada na Constituição, mas também pelo facto de a Secretaria Geral do Governo, que contratou o Newswhip, estar sob tutela do mesmo ministro, Leitão Amaro, que tem a pasta da comunicação social. Além disso, refere o deputado Fabian Figueiredo, não se trata de um contrato isolado, pois já tinham sido contratados os mesmos serviços em fevereiro do ano passado, “o que indicia uma utilização sistemática e não experimental deste tipo de ferramenta pelo aparelho de comunicação do Executivo”.
Num requerimento dirigido ao ministro da Presidência, o Bloco de Esquerda pretende saber qual é a fundamentação do interesse público desta contratação, “para além da gestão da imagem do Executivo”, que o leva a gastar 60 mil euros no total dos dois contratos. Além disso, pergunta se a funcionalidade de elaborar listas de jornalistas e a sua ordenação em rankings de impacto estará ativa e quem no Governo terá acesso a essa lista.
O deputado Fabian Figueiredo quer que Leitão Amaro se comprometa a não usar a plataforma para fins de classificação individualizada de jornalistas e pretende saber quais os dados que serão recolhidos e quantos jornalistas foram já objeto de monitorização através deste tipo de plataformas ao serviço do Governo.