Gigantes do setor alimentar são cúmplices da crise climática

27 de maio 2014 - 18:08

Um relatório da Oxfam conclui que as emissões de gases de efeito de estufa das dez maiores empresas do setor alimentar e de bebidas equivalem às do 25º país com maiores emissões. A ONG recomenda a estas empresas que cortem 80 milhões de toneladas de emissões até 2020.

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Desmatamento de terras na Libéria para a plantação de óleo de palma. Foto Anna Fawcus/Oxfam America

Se fossem um país, as dez maiores empresas do setor de alimentos e bebidas, juntas, estariam na frente de grandes produtores de petróleo e gás, como Emirados Árabes e Catar, no que diz respeito às emissões de gases do efeito estufa (GEE). A conclusão consta num estudo da ONG britânica Oxfam, divulgado na semana passada.

Elas representam algumas das marcas mais famosas do mundo doméstico: Associated British Foods, Coca-Cola, Danone, General Mills, Kellogg, Mars, Mondelez International, Nestlé, PepsiCo e Unilever. Se fossem um país, estas gigantes da indústria de alimento e bebidas seriam a 25ª nação com maior emissão de GEE.

Embora seja uma das atividades mais ameaçadas pelas alterações climáticas, a produção de alimentos também contribui para o problema. Ao partir de uma análise crítica das políticas sobre o tema adotadas por cada uma, a Oxfam adverte que essas empresas estão arriscando sua própria saúde financeira “se não fizerem mais para enfrentar a crise climática, usando sua influência e tamanho”.

Essas 10 gigantes emitem 263,7 milhões de toneladas de gases efeito estufa por ano. É mais do que as emissões combinadas da Finlândia, Suécia, Dinamarca e Noruega.

Para fazer frente às ameaças, o relatório sugere que as chamadas “Big 10” cortem suas emissões combinadas em pelo menos 80 milhões de toneladas até 2020. Isso seria equivalente a tirar das ruas todos os carros de Los Angeles, Pequim, Londres e Nova York.

Os dados sobre as emissões das empresas foram obtidos a partir do Carbon Disclosure Project (CDP), a plataforma que é referência mundial no relato de emissões no mundo dos negócios.

Origens das emissões

De acordo com o estudo, juntas, essas 10 gigantes emitem 263,7 milhões de toneladas de gases efeito estufa por ano. É mais do que as emissões combinadas da Finlândia, Suécia, Dinamarca e Noruega.

Do total, 29,8 milhões de toneladas têm origem nessas operações, e mais da metade vem da produção agrícola das suas cadeias de fornecimento, que não fazem parte dos planos internos de redução de emissões das empresas.

É por essas emissões agrícolas que a Oxfam acusa as empresas de serem “particularmente negligentes” e incita-as a rever os seus métodos de produção e ações de combate às alterações climáticasclimáticas.

Fome e pobreza

O estudo destaca ainda que os eventos climáticos extremos afetam o abastecimento de alimentos e pressionam os preços, causando mais fome e pobreza.

Especialistas preveem que até 2050, 50 milhões de pessoas deverão ser lançadas à fome por causa das mudanças climáticas.

Algumas das empresas admitem que o fenómeno já começa a prejudicá-los financeiramente.
A Unilever, segundo o relatório, relata que perde 415 milhões de dólares por ano, enquanto a General Mills informou perder 62 dias de produção no primeiro trimestre fiscal de 2014 só por causa de condições climáticas extremas.

Se as empresas não mudarem sua estratégia de ação frente às mudanças climáticas, pelos cálculos da Oxfam, o preço de produtos essenciais, como flocos de milho Kellogg e cereais da General Mills podem aumentar 44% nos próximos 15 anos.

“A indústria de alimentos tem um imperativo moral e uma responsabilidade empresarial para intensificar dramaticamente os seus esforços para combater as alterações climáticas”, ressalta o diretor-executivo da Oxfam Winnie Byanyima.

Outros dados do relatório:
    •    Todas as empresas citadas reconhecem a necessidade de reduzir as emissões agrícolas;
    •    Três das dez empresas deixam de reportar e divulgar as emissões agrícolas todos os anos (Associated British Foods, General Mills e Kellogg’s);
    •    Oito das dez empresas não têm metas de redução das emissões agrícolas (Coca-Cola e Unilever tem metas “em parte”);
    •    Seis das dez empresas não identificam fornecedores com emissões elevadas;
    •    Nenhuma empresa requer que fornecedores tenham metas de redução de emissões.


Publicado originalmente no portal EcoD.