O segundo movimento de neodireita organizado advindo desta conjuntura foi o “Movimento Vem pra Rua (MVPR)”, possuidor de características parecidas ao MBL, teve por fundador e líder Rogério Chequer e por co-fundador Collin Butterfield, um alto executivo da empresa RADAR SA, ligada a empresa Cosan Alimentos.
O nome do MVPR surgiu também oportunisticamente, aproveitando-se de um dos lemas e jingles das Jornadas de Junho de 2013. Uma música da banda brasileira “O Rappa”, à época hit de uma propaganda da montadora FIAT, transformou-se em mídia amplamente difundida nas redes sociais e redes de televisão, servindo de motivadora para que as pessoas fossem para as ruas, participassem das manifestações, virando praticamente um hino da segunda fase das Jornadas de Junho. Com o desenvolvimento e intensificação das manifestações, a montadora encerrou a veiculação da publicidade, porém o lema já fixado no inconsciente coletivo foi aproveitado para criação do MVPR.

O “Movimento Vem pra Rua” foi financiado igualmente por empresas, principalmente na época das manifestações a favor do golpe de estado, a exemplo da AMBEV que repassou recursos através da compra de um domínio de página da internet, utilizando-se a Fundação Estudar, que tem por proprietário um dos empresários mais ricos do mundo, Jorge Paulo Lemman, dono da AMBEV.
Afirma ter natureza apartidária, apesar de ter eleito uma de suas líderes, Janaína Lima, vereadora de São Paulo pelo partido “Novo”, possuindo ligação direta com tal agremiação que de novo só tem o nome, facto que pode ser constatado pela simples leitura do seu estatuto, dos seus princípios e das suas propostas que demonstram ser um partido de caráter extremamente neoliberal e de direita.
São mais de 1,6 milhões de likes na página do Facebook do MVPR, que centraliza suas ações em campanhas de denúncia e de combate a corrupção, aproveitando-se dessa bandeira para crescer.
Ora, nenhum cidadão sensato no mundo se portaria contra tal bandeira. Porém, é possível afirmar que o combate a corrupção proposto pelo movimento se trata de fisiologismo puro, uma vez que após a desestabilização política e social do país que culminou no golpe e destituição de Dilma (objetivo central do movimento), o mesmo parou de convocar a classe média às ruas, admitindo inclusive o “benefício da dúvida” a Michel Temer.
O terceiro movimento que se organizou após as Jornadas de Junho de 2013, que não merece tantas linhas escritas pois praticamente extinto, foi o “Revoltados Online”, que teve atuação e repercussão infinitamente menor que os outros dois citados e que no atual momento se encontra praticamente em inatividade.
Foi fundado pelo empresário Marcello Reis, que durante as Jornadas de Junho de 2013 e protestos a favor do golpe, gravava vídeos arrancando e queimando bandeiras de partidos de esquerda das mãos de ativistas e que desde a fundação foi o movimento que sucessivamente utilizou ferramentas de ativismo digital, principalmente vídeos, para propagação de mensagens de ódio, através de discursos homofóbicos, misóginos e racistas. No auge das manifestações a favor do golpe de estado, em 2015, o Movimento referia-se a líderes do Partido dos Trabalhadores com termos como "ladra", "vaca", "sapo barbudo" e "cachaceiro", e por esse motivo teve sua página, possuidora de 1,4 milhões de likes em 2015, sendo líder à época e estando à frente dos outros dois movimentos, conforme Penteado e Lerne (2015), banida sucessivamente do Facebook após denúncias constantes, perdendo por isso seguidores e poder de mobilização.
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Fora os três movimentos, após junho de 2013 inúmeros outros surgiram em metástase pelo Brasil, em esferas menores, sem o crescimento, a organização, a consolidação e o poder de mobilização dos demais, engrossando uma militância que passou a se identificar e a se ligar à velhos expoentes tradicionais políticos que atuam em quadros partidários de direita e de extrema direita e que impulsionam através das suas funções pautas antiprogressistas. Sugiram ainda “lobos solitários”, principalmente youtubers, que usam seus canais digitais e seu ativismo no ciberespaço para incitar e justificar o neoliberalismo, para propagar discursos de ódio, estes últimos com forte audiência e impacto na formação de opinião pública e na polarização e desestabilização social do país.
Esse mosaico de novos players políticos nacionais pode ser representado pela imagem em cinza acima (cor escolhida propositalmente pois foi uma das pautas defendidas pelos movimentos: a política de higienização proposta por João Dória de apagar arte urbana em São Paulo e pintar tudo de cinza), onde vemos ao lado do MBL seus fundadores e líderes: Kim Kataguiri, Renato Santos, Fernando Holiday e Arthur do Val. Ao lado do Vem Pra Rua: Rogério Chequer, Collin Butterfield e Janaína Lima. Abaixo do Revoltados Online: Marcello Reis.
O crescimento da neodireita não é um fenómeno brasileiro, é um fenómeno mundial e acompanha também o crescimento de grupos reacionários, de extrema direita e grupos neofascistas. Para reforçar tal afirmativa presenciamos: Trump ser eleito nos EUA e o crescimento da Alt-Right por lá; Le Pen concorrer ao segundo turno na França; Surgimento da Aurora Dourada na Grécia; 13,2% de votos para extrema direita na Alemanha que voltou a ter cadeiras no Parlamento; Marcha fascista com recorde de participantes na Polónia; Jair Bolsonaro (deputado federal que dedicou seu voto para derrubada de Dilma ao maior torturador da ditadura militar brasileira) em segundo lugar nas sucessivas pesquisas de opinião de voto para presidência do Brasil.
Alguns movimentos brasileiros que antes defendiam bandeiras neoliberais e focavam suas ações objetivando a saída do Partido dos Trabalhadores do poder com a finalidade de viabilizar tais bandeiras, passaram a não só defender e focar suas ações neste sentido como também a tencionar seus discursos para um viés anticomunista, militarista, armamentista, nacionalista, machista, antiprogressista, liberal autoritário, anti-intelectual, e por fim fascista.
Calil (2017), trata o MBL e os inúmeros movimentos difusos que apoiam a candidatura de Bolsonaro como os expoentes do neofascismo nacional e lembra, através de dados do Monitor do debate político no meio digital, que na conjuntura brasileira hoje, o ativismo digital da direita passou a estruturar-se em torno de páginas digitais ligadas a ambos os movimentos.
Villaça, através de uma análise muito ponderada e acertada, recorda que o Movimento Brasil Livre depois de atingir seu objetivo maior de destituir Dilma, passou a atuar como milícia de extrema direita. Tal afirmativa pode ser justificada se analisarmos alguns atos protagonizados pelo movimento como: o patrulhamento ideológico em escolas para publicitar o projeto “Escola sem partido”; o ataque físico a estudantes em ocupações de escolas que protestavam contra a reforma educacional feita por Michel Temer; campanhas contra exposições de arte e contra a presença da filósofa Judith Butler no Brasil; sendo ainda um grande difusor de fakenews, propagador de estatísticas falsas e caluniador dos seus opositores alimentado a pós-verdade no ciberespaço brasileiro.
Os movimentos passaram a focar suas ações em pautas morais, retirando a prioridade às pautas ligadas ao liberalismo económico, numa viragem que objetiva aproveitar a forte polarização presente da sociedade brasileira e a baixa formação política dos seus seguidores e de grande parte da classe média, que se identificam mais com discursos morais conservadores do que com discursos político-económicos, mesmo com as sucessivas tentativas de simplificação da linguagem que visava difundir ideais neoliberais.
Os movimentos passaram a enxergar que a prioridade gasta na defesa direta das pautas neoliberais não garantiam a mobilização das suas massas, muito pelo contrário, promoviam severas críticas e perda de parte dos seus seguidores, como quando passaram a tentar convocar manifestações e apoiar as agressivas reformas promovidas pelo governo ilegítimo de Michel Temer. As manifestações convocadas não tiveram sucesso, fazendo surgir o questionamento sobre até que ponto os movimentos ainda tinham poder de mobilização e conseguiriam levar parte da população brasileira para as ruas.
A centralidade do ativismo, assim, passou a ser direcionada para discursos mais conservadores, autoritários e extremistas, focando na criação de polêmicas, nos ataques violentos à inimigos políticos, no messianismo e culto à personalidade de um líder, somados com uma tentativa de vinculação dos movimentos da esquerda e progressistas à criminalidade, à degradação social, à corrupção de jovens, à destruição de “entidades morais sacras para seus seguidores”, a exemplo da família, da propriedade e da religião.
Partindo de tais factos, que por si só nos apontariam indícios de uma viragem da natureza do MBL, é possível introduzir algumas características para apontar que tal movimento, assim como os que circundam e apoiam a candidatura de Bolsonaro, possuem natureza neofascista, características que ajudam também a identificar indivíduos neofascistas.
Tal caracterização que será feita de forma pragmática, torna-se necessária, pois não é producente para qualquer discussão política a banalização do termo “fascismo”, muitas vezes provocada pela própria esquerda, conforme alertado por Melo (2016).
É preciso afirmar que além dos movimentos mencionados, existem inúmeras células difusas, sendo o Brasil possuidor, por exemplo, de mais de 150 mil simpatizantes de movimentos neonazistas, dados afirmados pela antropóloga Adriana Dias. Dos 150 mil, 105 mil residem na região sul do país.
É possível mais facilmente encontrar essas características nesses movimentos difusos ao contrário dos demais, pois estes não escondem sua verdadeira natureza.
Assim sendo, Umberto Eco (2002), em palestra na Universidade de Columbia desenvolveu a ideia de Fascismo Eterno, que denominou Ur-Fascismo, traçando 14 características que poderiam identificar movimentos fascistas de acordo com as experiências políticas e históricas presenciadas no século XX.
Conforme interpretação ao autor italiano, pode-se listar as seguintes características propostas: (1) Culto a Tradição; (2) Irracionalismo e rechaço ao modernismo; (3) Anti-intelectualismo; (4) Culto a ação pela ação (5) Medo das diferenças e racismo; (6) Apelo as classes médias frustradas; (7) Nacionalismo e Xenofobia; (8) Inveja e medo do inimigo; (9) Princípio da Guerra permanente; (10) Elitismo; (11) Heroísmo; (12) Transferência da vontade de poder para questões sexuais; (13) Populismo qualitativo e negação da política pela política; (14) Limite a instrumentos de raciocínio e linguagem complexos
Britt (2003 e 2004) também apontou outros 14 sinais caracterizadores do fascismo, muitos deles coincidentes com os propostos por Umberto Eco, estando estes fixados na entrada do Museu do Holocausto em Washington: (1) Nacionalismo forte e contínuo; (2) Desrespeito pelos direitos humanos; (3) Uso de inimigos externos ou bode expiatórios como causa unificadora; (4) Glamorização e supremacia do militarismo; (5) Alto nível de sexismo de dominação masculina no poder; (6) Controle dos meios de comunicação; (6) Obsessão com a ideia de segurança nacional; (7) Religião e governo interligados; (8) Poder corporativo protegido; (9) Direitos trabalhistas atacados; (10) Anti-intelectualismo e ataque as artes; (10) Obsessão com crime e punição; (11) Nepotismo e corrupção ocultados; (12) Eleições fraudulentas ou manipuladas.
Diante de tais caracterizações, através da análise da práxis política perpetuada pelos grupos de neodireita desde Junho de 2013, podemos utilizando o “método Umberto Eco”, enquadrar várias ações que justificam a afirmativa que os movimentos viraram neofascistas.
Os exemplos listados são acompanhados de notícias e links de mídias digitais que comprovam as afirmativas, exemplos que também podem ser enquadrados facilmente nas caracterizações propostas por Britt e que não são terminativos, já que qualquer pesquisa de dados e metadados em motores de buscas digitais fazem surgir inúmeros outros.
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Por que o MBL e os movimentos que apoiam Bolsonaro são neofascistas? Como identificar um neofascista? (Método Umberto Eco) |
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1 |
Culto da Tradição |
As exigências políticas e manifestações convocadas e lideradas pelos movimentos possuem forte apelo a dogmas tradicionais e conservadores. Apoiam abertamente e pregam alianças com grupos religiosos e extremistas neopentecostais. |
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2 |
Irracionalismo e rechaço ao modernismo |
Promovem ataque sistémico a pilares do iluminismo e da modernidade. Defenderam a Reforma Educacional de Temer que suprimiu a carga horária de disciplinas ligadas as Ciências Humanas como Sociologia e Filosofia da grade curricular escolar. Vide projeto “Escola sem Partido” exemplo que coroa tal característica. |
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3 |
Anti-intelectualismo |
São adversos e tentam condicionar o conhecimento crítico, científico, a história, a filosofia, as artes. Promovem e apoiam manifestações contra palestras, contra exposições em museus, perseguem grupos de pesquisas, fazem propaganda contra as universidades públicas e assédio ideológico contra professores. |
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4 |
Culto da ação pela ação |
Agem como milícia e apoiam ataques físicos, como contra as ocupações nas escolas, como contra ativistas de esquerda; como o ataque a Filósofa Judith Butler. Usam como instrumento de propaganda vídeos com tais ações. |
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5 |
Medo das diferenças e racismo |
Negam a existência do racismo no Brasil, endossam discursos racistas, atacam políticas voltadas para minorias, tentam ridicularizar a legitimidade de políticas afirmativas. |
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6 |
Apelo às classes médias frustradas |
Tem como principal força mobilizadora a classe média brasileira |
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7 |
Nacionalismo e Xenofobia |
As manifestações fazem apelo as cores da bandeira, usam lemas que exaltam o patriotismo e o nacionalismo, defendem a reforma da lei de migração brasileira. |
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8 |
Inveja e medo do inimigo |
Promovem ataque sistemático ao Partido dos Trabalhadores, a movimentos sociais e a partidos de esquerda sob a justificativa de defesa. Desqualificam por inveja e medo. |
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9
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Princípio da Guerra Permanente |
Espalham a ideia que é preciso permanentemente combater o inimigo, alimentando a velha teoria do inimigo interno, da ameaça vermelha, utilizando também como retórica atual as expressas em lemas como “Contra a Bolivarianização do Brasil” “o Brasil não será uma Venezuela”, assim como no vídeo veiculado no último congresso do MBL que deixa claro o uso do princípio. |
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10 |
Elitismo |
Estão apoiados e apoiam a elite económica e parte da elite política do país. Elite que age em apoio direto ou indireto como membros do Poder Judiciário que endossam os movimentos. Característica expressa também nas estatísticas sobre os participantes das manifestações convocadas pelos grupos. |
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11 |
Heroísmo |
Os movimentos fazem culto de lideranças, ao heroísmo potencial e individual de cada cidadão e propagam o messianismo de figuras políticas. |
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12 |
Transferência da vontade de poder para questões sexuais |
Tal característica é facilmente encontrada nas pautas e discursos dos movimentos que promovem o Machismo, a Misoginia e a Homofobia. Foram forças matrizes dos ataques as exposições de arte em museus brasileiros. |
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13 |
Populismo qualitativo e negação da política pela política |
Através da justificativa de “combate a corrupção” estigmatizam a classe política e atacam instituições democráticas sólidas como o parlamento e os partidos. Negam a política pela política e escondem a natureza partidária dos movimentos. Entre seus objetivos defendem o fim do voto obrigatório e do fundo partidário. Grupos mais extremistas defendem a volta de ditadura militar. |
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14 |
Limite a instrumentos de raciocínio e linguagem complexos |
Utilizam como meio propagandístico para mobilização de massas a produção de mídias digitais com jargões prontos, frases de fácil fixação e “memes” que “viralizam” no ciberespaço |
Diante da genealogia do mal apresentada, do retrospecto histórico feito, da análise da conjuntura internacional exposta, da revelação dos players políticos que agem como empoderadores dos movimentos de neodireita e neofascistas que se organizaram e se fortaleceram pós-junho de 2013 no Brasil, é preciso avançar e ir além das construções teóricas onde tradicionalmente parte dos movimentos progressistas fica presa e pensar em instrumentos de combate direto a tais movimentos.
A História nos mostra que o campo progressista não pode se omitir em participar e promover debates, de estar nas ruas, mas a omissão não deve ser encarada tão somente sob uma perspectiva coletiva. A omissão de opinião individual e a preferência pelo resguarde, muitas vezes motivada pelo medo da divergência, do isolamento e da crítica, possui tendência progressiva e leva com que inúmeros outros indivíduos caiam numa espiral do silêncio, espiral que antecede o crescimento do fascismo e a origem do totalitarismo. Não há espaço assim para isenção. Se não falamos nós, quem por nós? Não se trata da máxima “não brigar por política”, se trata de rompimento com racistas, machistas, xenófobos, homofóbicos, reacionários e fascistas.
Num cenário de crise social e económica, de polarização na sociedade, de supressão de direitos fundamentais, sociedade que passa a viver sob pressão cotidiana, onde todos os tipos de abusos se tornam possíveis e legitimados, conjecturados também com a banalização do mal, os discursos extremos eclodem e a população se dirige e busca identidades a esses extremos como temos visto no Brasil, a exemplo dos que defendem uma volta de ditadura militar ou apoiam a candidatura de figuras como Bolsonaro. Se não existirem vozes antagonistas a tais discursos eles se amplificarão.
Esse caminho se justifica mais ainda, quando notamos que grande parte da opinião pública atualmente está sendo formada numa terra sem lei, a internet, que “deu voz a imbecis” (ECO), onde as redes sociais se tornaram instrumentos direto de manipulação de massas e que ainda constituem uma arena de forte disputa política. Eles podem até ter o exército, que apareçam as guerrilhas. Sendo necessário, assim, o investimento em canais propagandísticos em plataformas como o Youtube e de investimento e formação de lideranças políticas para agirem nessas arenas.
O avanço não se restringe obviamente ao ciberespaço e a grande bolha criada pelas redes sociais, que estão no centro da formação de opinião pública e na formação de formadores de opinião pública, e que ocupam o espaço que a mídia tradicional ocupava. O avanço e a promoção de debates devem ocorrer e objetivar o “Brasil de dentro” que possui 70 milhões de pessoas sem acesso à internet, sendo necessário avançar com trabalhos interseccionais nas bases sociais, reconquistar e voltar a ocupar associações comunitárias, muitas delas sob forte influência de movimentos neopentecostais, e identificar e formar lideranças nas regiões periféricas, nos morros, no campo, em todos os espaços que possam ser ocupados.
Outro caminho a ser considerado é a alimentação da fragmentação e do conflito interno nos grupos de neodireita e neofascistas. Uma característica muito comum nos movimentos progressistas é a segregação, mas não na direita. Ela enfraquece, desmobiliza, divide e suprime forças. Qualquer faísca que provoque conflito interno em grupos de neodireita e neofascistas deve ser alimentada, como a protagonizada pelo ex-ator porno Alexandre Frota que reivindica judicialmente o movimento MBL e que judicialmente tem travado uma batalha com o mesmo. Sim. Um ex-ator porno é um dos baluartes do neofascismo brasileiro.
Torna-se necessário ainda a judicialização de ataques que afrontem direitos básicos constitucionais. Processar quem difama, quem promove discurso de ódio, quem agride, pedir direito de resposta a mentiras expressas em capas de jornais, de revistas, em posts nas redes sociais. Se o Partido dos Trabalhadores tomasse medidas judicias desde o princípio dos ataques midiáticos sofridos diuturnamente, a conjuntura podia ser diferente, existiria essa polarização social como presencia-se agora? Utilizar das estruturas partidárias que possuem legitimidade para usar instrumentos judiciais coletivos para judicializar toda e qualquer tentativa de avanço de pautas e medidas reacionárias. Não que tal caminho seja visto como crença irrestrita da resolução dos conflitos sociais pelo poder judiciário, que tem sido um dos principais poderes de desestabilização nacional, mas o poder tem o dever de impor limites legais e ainda há de ter Juízes e Juízas no Brasil, como notamos nos vários coletivos de “Juristas pela Democracia” espalhados pelo país, coletivos que podem ser acionados através dos advogados para efetivação desse caminho.
Por fim, é preciso ainda estar atento e forte e promover a criação e treinamento de grupos antifascistas em cada Estado do país, já que em várias situações os movimentos progressistas se deparam com a impossibilidade do diálogo. Essa medida visa fazer frente às intimidações, às agressões físicas, às invasões das universidades, às interrupções de seminários, de exposições de arte, visa promover a reconquista das ruas.
Talvez com o desenvolvimento dessas medidas e instrumentos, os dias não continuem assim.
Por Rômulo Góis, doutorando pela Universidade Nova de Lisboa, Ativista do Coletivo Andorinha — Frente brasileira democrática em Lisboa, do PSOL e do Bloco de Esquerda em Portugal.
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