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Gaza: Os desígnios de Israel

A ofensiva israelita em Gaza fracassou quer a nível militar como no plano político. Nos escombros das escolas de Gaza encontram-se os restos da argumentação israelita sobre o seu direito a defender-se. Artigo de Alejandro Nadal.
Foto retirada do facebook de Abed Enen.

O objetivo da ofensiva israelita em Gaza apresenta-se, segundo Telavive, em termos militares. Trata-se, de acordo com os comunicados oficiais, de uma investida para eliminar a capacidade das milícias Al-Qassam do Hamas de lançar rockets contra os colonatos em território israelita. Mas a excessividade dos ataques das forças de Israel faz pensar noutro tipo de desígnios. Na realidade, o objetivo é anular a esperança e enfatizar a mensagem de que o povo palestiniano não tem alternativa, não tem saída e deve abandonar qualquer expectativa sobre o emergência de um Estado autónomo.

Desde o ponto de vista estritamente militar, a ofensiva israelita em Gaza fracassou. O seu objetivo não se cumpriu. As milícias do Hamas não foram destruídas e conservam a capacidade de lançar rockets para colonatos em Israel.

No plano político a ofensiva de Israel também fracassou. Nos escombros das escolas de Gaza encontram-se os restos da argumentação israelita sobre o seu direito a defender-se. É verdade que a ordem jurídico internacional consagra o direito de um Estado a proteger-se face a uma agressão. Mas esse direito encontra-se sujeito a várias disciplinas: a resposta deve guardar proporcionalidade com a agressão e não deve acompanhar-se de crimes de guerra ou contra a humanidade. Israel violou ambas as restrições.

É uma história conhecida que remonta até as origens. Ao cumprirem-se 30 anos da fundação do Estado de Israel (1948) abriram-se os arquivos das forças armadas, do Ministério dos Assuntos Estrangeiros e de organizações como Haganah, com os quais foi possível fazer uma nova leitura dos factos. O que descobriram os historiadores é que a visão sionista padrão sobre o nascimento do Estado israelita e a guerra de cinco décadas contra os seus vizinhos árabes não tinha nada de desinteressada e estava marcada por graves distorções e simplificações.

Os novos historiadores levaram a cabo uma análise diferente sobre as raízes históricas de cinco decénios de guerras, massacres e relocalização forçada de povos inteiros. Os trabalhos de Avi Shlaim, Benny Morris, Ilán Pappe e Simha Flapan marcam uma meta neste debate.

Segundo Shlaim, os achados da nova análise podem sintetizar-se ao redor de cinco vertentes de análises: a postura britânica ao finalizar o mandato inglês na Palestina, a guerra de 1948, as causas do êxodo do povo palestiniano, os objetivos dos árabes e as razões do impasse político que vivemos até aos nossos dias.

Segundo a versão oficial sionista, o governo britânico procurou impedir a criação do Estado de Israel. No entanto, os novos historiadores mostraram que Londres foi, isso sim, um obstáculo à criação de um Estado palestiniano. A sua análise também pôde mostrar que, ao contrário do que assinala a versão oficial, os estados árabes estiveram divididos e não tinham um plano coordenado para destruir Israel.

Durante a guerra de 1948, cerca de 711 mil palestinianos tiveram que fugir dos territórios que seriam parte de Israel. Segundo a versão sionista, o novo Estado pediu-lhes que ficassem e se convertessem em cidadãos de pleno direito. Segundo os novos historiadores, inicialmente, um número de palestinianos abandonou voluntariamente as suas casas e terras, mas um número maior de palestinianos foi expulso das suas aldeias numa operação de limpeza étnica. Este é a origem da nakba ou catástrofe palestiniana.

A versão sionista também sustenta que Israel tem estado sempre em desvantagem, mas a análise histórica revela que, ainda em 1948, não foi esse o caso. É pertinente acrescentar hoje que Israel é o único possuidor de armas nucleares no Médio Oriente. E, finalmente, o beco sem saída em que se encontra a região não é produto da intransigência árabe, já que, em muitos casos, os líderes de Israel recusaram as ofertas de paz genuína dos países árabes. A ocupação ilegal da margem ocidental do rio Jordan, a destruição de casas de palestinianos, os massacres de Sabra e Shatyla, bem como o bloqueio ilegal de Gaza são alguns exemplos claros (não os únicos) da intransigência israelita.

O potencial militar de Hamas é limitado e em nenhum momento constitui uma ameaça séria à segurança do Estado de Israel. Mas a sua presença tem no seu âmago uma mensagem essencialmente política. Apenas por existirem, o Hamas e as suas milícias enviam um sinal de resistência quotidiana aos seus interlocutores em Israel e de promessa aos seus seguidores nos territórios palestinianos, não só em Gaza. Os rockets do Hamas são condenáveis, mas também o é o bloqueio desumano que aplica Israel há sete anos em Gaza. A resposta desmesurada de Israel, com os seus ataques de artilharia e bombas contra escolas e hospitais (refúgios conhecidos e bem identificados) revela que Telavive está obcecada por outras motivações. O seu objetivo central é manter o povo palestiniano sem esperanças sobre o seu futuro. Ao afundar o povo palestiniano num cruel sistema de guetos, Israel destrói-se a si mesma.

Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
Termos relacionados Massacre em Gaza, Internacional
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