Gaza: “é a completa demolição de tudo” diz Mustafa Barghouti

15 de outubro 2023 - 20:15

O médico e dirigente político da esquerda palestiniana diz que há uma “limpeza étnica” em andamento na Faixa de Gaza.

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Mustafa Barghouti.

Mustafa Barghouti é médico, dirigente da Sociedade de Auxílio Médico Palestiniana, e secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestiniana, um partido de esquerda radicado sobretudo na Cisjordânia. Em entrevista ao canal público de rádio norte-americano, National Public Radio, explicou a situação que se vive na faixa de Gaza.

Apesar de viver em Ramallah, o dirigente palestiniano permanece em contacto com o pessoal de saúde da Sociedade de Auxílio Médico Palestiniana que trabalha em Gaza e esclarece que o que tem ouvido deles é “aterrorizador” porque há um cerco total que priva 2,3 milhões de pessoas de água, eletricidade, alimentos e até medicamentos: “nada pode entrar em Gaza”, apesar de terem “muitos mantimentos” há espera de passar.

O que estes contam é também que “todo o sistema médico está à beira do colapso. Recebemos chamadas de pânico de pacientes com problemas de rins que vão morrer porque não há acesso a diálise”. A isto somam-se obviamente as vítimas dos bombardeamentos que são “indiscriminados”: “Não se trata apenas de bombardear determinados locais, casas ou instituições. Estão a bombardear tudo – universidades, escolas, clínicas, hospitais. Muitos hospitais já foram evacuados porque foram bombardeados por ataques aéreos. Estão a demolir tudo em Gaza”, salienta.

O médico recorda que quando a guerra rebentou em 2014 estava em Gaza “mas as pessoas dizem-me que não há nada que se compare com o que se passa agora. É a demolição total e completa de tudo, a limpeza total e completa de tudo”.

Mustafa Barghouti sente-se muito “zangado” porque, afirma, “nunca pensei, em toda a minha vida que iria testemunhar outro ato de limpeza étnica no século XXI” às mãos do governo “mais extremista de sempre” que é “capaz de fazer qualquer coisa”.

E do lado da Cisjordânia, conta, também há “medo de que, se o mundo, e especialmente os Estados Unidos, permitirem que Israel efetue uma limpeza étnica em Gaza” isto seja replicado no outro território palestiniano.

O dirigente palestiniano insiste na expressão “limpeza étnica”. Porque “foi isso que aconteceu aos palestinianos em 1948” com “52 massacres contra palestinianos” e o apagamento “por completo” de “522 comunidades”. Recorda que 72% das pessoas que vivem atualmente em Gaza “são refugiados que perderam as suas casas e as suas comunidades em 1948” e agora voltam a sofrer com um processo idêntico de apagamento não só das suas identidades mas também das suas vidas.

Internacionalmente, responsabiliza os Estados Unidos já que “Israel não daria ouvidos a nenhum outro país a não ser os Estados Unidos, e o único país que tem essa influência para dizer a Israel que já chega e permitir que seres humanos recebam ajuda humanitária são os Estados Unidos”. Portanto, o que acontecer é “responsabilidade é do Sr. Biden e do Sr. Blinken”, aponta.