Levar livros ao deserto. Não a qualquer parte do deserto mas aos campos de refugiados do Sahara Ocidental, “a última colónia em África”. A ideia nasceu da Fundação José Saramago. Chega dez anos depois do escritor, à chegada às Canárias, ter visitado Aminetu Haidar, uma ativista dos direitos do povo Saharaui que estava a cumprir uma greve de fome de 32 dias no aeoroporto de Lanzarate.
Saramago expressou assim o seu apoio à luta do povo do Sahara Ocidental. E dez anos depois é altura da Fundação que tem o seu o nome continuar esse apoio através deste projeto. Em seu nome. Porque, lembram, José Saramago escreveu: “Marrocos em relação ao Sahara transgride tudo aquilo que são as normas de boa conduta. Desprezar os Saharauis é a demonstração de que a Carta dos Direitos Humanos não está enraizada na sociedade marroquina, que não se rebela com o que se faz ao seu vizinho, e que é a prova de que Marrocos não se respeita a si próprio - quem está seguro do seu passado não necessita expropriar quem lhe está próximo para expressar uma grandeza que ninguém jamais reconhecerá. Porque se o poder de Marrocos alguma vez acabasse por vergar os saharauis, esse país admirável por muitas e muitas coisas, teria obtido a mais triste vitória, uma vitória sem honra, nem glória, erguida sobre a vida e os sonhos de tanta gente, que apenas quer viver em paz na sua terra, em convivência com os seus vizinhos para que, em conjunto, possam fazer desse continente um lugar mais feliz e habitável.”
No documento que lança a campanha, a Fundação justifica que “vendo grande parte” da população do Sahara Ocidental “confinada a acampamentos de refugiados” decidiu lançar uma campanha para a criação de uma biblioteca nos campos de refugiados. Meteu as mãos à obra e lançou um apelo “a entidades privadas e públicas” e “a leitores que individualmente queiram somar-se a esta campanha” para que “façam chegar livros, preferencialmente em língua espanhola, que venham a constituir uma biblioteca, levando a leitura e a literatura, ferramentas de liberdade e conhecimento, a quem deles tanto precisa”.
No seguimento das iniciativas de apoio ao Sahara Ocidental foi inaugurada também uma exposição na Casa dos Bicos no dia 10 de julho. Já este mês, a Biblioteca Municipa de Beja anunciou que se juntava a esta campanha.
A recolha dos livros vai estender-se até novembro.