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Fukushima: riscos aumentam

Operação de retirada das hastes de combustível nuclear do reator 4 começou com sucesso; mas, inexplicavelmente, a próxima leva envolve as hastes mais radioativas, suscitando dúvidas de que a situação pode ser mais grave do que se admite.
O contentor cilíndrico onde são postas as hastes de combustível. Framde de filme de divulgação da TEPCO

Começou no dia 18 a retirada da primeira leva de hastes radioativas do reator número 4 da central nuclear de Fukushima. O primeiro grupo, de 22 hastes, foi retirado sem ter ocorrido nenhum problema durante o trabalho.

As hastes foram postas num contentor cilíndrico de 5,5m e cujo peso é de 91 toneladas, submerso no tanque onde se encontram as 1553 hastes que é preciso retirar. As hastes foram colocadas no contentor por um guindaste, uma por uma. Depois de postas as 22 hastes, o cilindro foi retirado por um guindaste do tanque e colocado num trailer, que o transportou para um novo tanque de armazenamento a cerca de cem metros. Os guindastes estão dotados de duplos cabos e travas de segurança, para evitar que em caso de terremoto o contentor possa cair. Também foram preparadas enormes molas para amenizar o choque, caso ocorra. Para os que acreditam que isso é um exagero, é necessário relembrar que, durante essa primeira semana de trabalho, ocorreram dois terremotos com epicentro no mar de Fukushima: o primeiro dia 21, cuja magnitude foi de 4.8 e o segundo, dia 22, com magnitude 4.4.

A TEPCO alega ter tomado todas as medidas para que o trabalho decorra com segurança mas, devido a todas as mentiras contadas, não existe ninguém que acredite que toda a verdade esteja a ser dita. Fica patente também a falta de informação existente, devido a todo o segredo que a TEPCO tem mantido e também pelo lamentável papel que os média mainstream têm desempenhado. A maioria dos meios de comunicações japoneses e também as agências internacionais têm repetido apenas as lacónicas informações apresentadas pela TEPCO e pelo governo japonês. As agências citam um ou outro especialista que comenta o assunto, mas nenhum órgão de comunicação se dispôs a investigar com profundidade esse que pode se transformar no maior desastre já criado pelas mãos humanas, caso ocorra, numa situação extrema, uma fissão nuclear. Seja por erros humanos ou desastres naturais como um terremoto ou mesmo um furação como o Haiyan, que formou algo parecido a um tsunami que devastou vários locais nas Filipinas. Os furacões passam por Fukushima anualmente e sempre causam preocupação, mas não existe uma única palavra dita pela TEPCO sobre esse problema. Segundo o cronograma da empresa, serão necessários 40 anos para terminar o processo, período no qual milhares de pessoas vão sair e entrar para concluir essa tarefa, o que acrescenta mais incertezas sobre como tudo isto irá acabar. Serão várias direções da TEPCO, um entra e sai de governo e ninguém para se responsabilizar pelas consequências.

Riscos são crescentes

Depois de ter retirado essa primeira leva de hastes, a TEPCO declarou que irá parar os trabalhos para analisar todo o processo desenvolvido, antes de reiniciar a remoção de um novo grupo de hastes.

As informações são precárias, e somos forçados a chegar às próprias conclusões com o que temos em mãos. Segundo um artigo explicativa da NHK, a televisão estatal, em seu web site, das 1553 hastes, 1331 têm alto teor de radiação. Se usarmos aritmética simples e subtrairmos 1331 de 1553, resulta em 222 hastes com menor teor de radiação. Se os dirigentes da TEPCO não forem “patrícios brasileiros”, desculpem a piada neste momento tão grave, devem ter começado o trabalho retirando as hastes que apresentam menos risco. Mas não seria de espantar se optassem por outro caminho.

No entanto, segundo acaba de noticiar a NHK, é provável que na segunda leva comecem a retirar as hastes com mais radiação, em vez das menos radioativas. Isto, por qualquer ângulo que se olhe, só pode demonstrar o desespero e a gravidade da situação. Por que não gastar mais alguns dias retirando o material menos perigoso, ao mesmo tempo que os trabalhadores vão se acostumando com o trabalho? É uma pergunta à qual não temos resposta no momento.

Segundo esclarece a própria TEPCO, na medida em que as hastes forem retiradas, será possível verificar se houve ou não danificação, pelo facto de o telhado do reator ter caído em cima delas. Os materiais de construção maiores foram retirados, mas a TEPCO esclarece que parte dos destroços entrou nos pequenos vãos existentes entre as hastes e não foi possível retirá-los. O curioso é que todos são unânimes em dizer que o processo é complexo e envolve riscos, mas ninguém explica exatamente do que se trata. Ninguém, nem o presidente da TEPCO nem o primeiro-ministro Abe, declara que a população pode ficar tranquila, que não existem riscos. A maioria deverá estar de acordo que alguma coisa precisa de ser feita e que as hastes devem ser retiradas. O principal motivo é que edifício do reator 4 está muito abalado e não aguenta um terramoto forte, que são frequentes na área de Fukushima. A decisão de começar a retirar de imediato as hastes com mais radiação pode significar que o temor de que o prédio do reator número 4 desabe num terremoto é muito maior do que se tem noticiado.

O que tivemos até agora foi sorte, apenas isso

Mas a grande pergunta que fica no ar é se as pessoas precisam estar em volta de Fukushima durante esse processo. Pessoalmente acredito que não, o melhor seria evacuar. Uma ordem de evacuação por parte do governo teria um significado económico profundo e, por esse motivo, nenhum governo capitalista poderia fazê-lo, principalmente o imperialismo japonês.

O governo japonês já decidiu que vai manter a população sob risco. E, cinicamente, sabe que uma parte irá sair da área por conta própria, sem onerar os cofres públicos com indemnizações e coisas do tipo. Provavelmente, a questão de Fukushima põe-nos diante de um dos anos mais críticos da história humana.

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