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FTX: o que aconteceu no mais recente colapso no mundo cripto?

Em poucas horas, o mercado de criptomoedas perdeu 158 mil milhões de dólares, após o recuo da Binance na intenção de adquirir os negócios da plataforma FTX, que entretanto declarou falência.
Foto Satheesh Sankaran/Flickr

Os últimos dias têm sido marcados por rápidas mudanças em torno da situação de liquidez da FTX. O desfecho final desta que foi outrora a terceira maior corretora de criptomoedas foi a declaração de falência. A sucessão de eventos provou uma desvalorização generalizada da indústria. O que aconteceu?

Ascenção e queda da FTX

A FTX de Sam Bankman Fried foi criada em 2019 e rapidamente consolidou o seu poder de mercado, sendo uma competidora direta da Binance, de Changpeng Zhao. 

O ano passado a Binance retirou capital da FTX e recebeu cerca de 21,1 mil milhões de dólares em Binance USD e FTT (a moeda associada à FTX). No início desta semana, Changpeng Zhao anunciou que se ia desfazer de todas as FTT, levando a uma quebra de 20% do seu valor na madrugada seguinte.

A decisão da Binance, ao que parece, foi sustentada pela notícia avançada na semana passada pela Coindesk que uma parte significativa do balanço da Alameda Research, o braço de investigação e investimento da FTX, era composta por FTT, ou seja, a sua própria moeda. Isto levantou a suspeita da falta de liquidez da Alameda Research. Para além disso, os utilizadores da FTX estavam a ser confrontados com dificuldades em converter criptomoedas em moeda fiduciária. 

Desvalorização generalizada da indústria cripto: Binance anunciou fusão e recuou no dia seguinte

Na terça-feira, a Binance anunciou a intenção (não vinculativa) de adquirir os negócios fora dos Estados Unidos da FTX. A ideia era que a fusão parcial se traduziria em liquidez imediata que a FTX necessitava para assegurar os seus compromissos e manter sua credibilidade.

Contudo, uma vez gerado o pânico em torno da qualidade dos ativos detidos por todo o império de Sam Bankman Fried, o anuncio da fusão não foi suficiente para conter a queda generalizada no mercado. 

Nas palavras de Fabian Astic, responsável pelo departamento de finanças descentralizadas e ativos digitais da agência de rating Moody’s: “Os agentes da indústria cripto estão a reagir mais rápido às notícias e rumores, o que, por sua vez, cria uma crise de liquidez muito mais rápida do que se veria nas finanças tradicionais”. 

O jornal ECO noticiou que a Bitcoin desvalorizava na terça-feira 12,43%, para valores mais baixos do que em novembro de 2020, e a Ethereum perdia 18,61%. Outras moedas digitais relevantes como a BNB, Cardano, Dogecoin e a Polygon viram o seu valor cair. O mesmo no mercado de ações para a Coinbase e a Robinhood, bancos de criptografia como o Silvergate e o Signature, e para mineradores de Bitcoin como o Hut 8 e o Riot Blockchain.

No dia seguinte, a Binance anunciou em comunicado o recuo da fusão com a FTX, justificando-o com a descoberta de fundos mal administrados. No Twitter a Binance escreveu que “como resultado da due diligence corporativa, bem como das últimas notícias sobre fundos de clientes mal administrados e supostas investigações de agências dos Estados Unidos, decidimos não continuar com a potencial aquisição da FTX.com”.

Horas antes da decisão final este já parecia ser o desfecho, depois da Bloomberg ter avançado que equipa da Binance se deparou com um “buraco” financeiro da FTX "na casa dos mil milhões de dólares, que pode ser superior a seis mil milhões de dólares". 

Bitcoin cai para valores mínimos e reguladores investigam gestão da FTX

O recuo da Binance agravou ainda mais a desvalorização, e numa questão de horas, o mercado de criptomoedas perdeu 158 mil milhões de dólares, o que significa uma perda de quase 5%. Sam Bankman Fried, CEO da FTX, perdeu 94% da sua riqueza.

Esta quinta-feira, a Bitcoin, ainda a criptomoeda de referência, viu o seu valor de transação cair para perto dos 15 mil dólares, valor que só se registou em março de 2020. O JPMorgan avança um cenário de possível queda para os 13 mil dólares.

Como consequência deste evento, o regulador financeiro norte-americano (SEC) e a Comissão de Negociação de Futuros de "Commodities" (CFTC) estão a investigar a gestão dos ativos da FTX e a relação entre a FTX.com a FTX EUA assim como com a Alameda Research.

A senadora democrata Elizabeth Warren reagiu às notícias alegando que “o colapso de uma das maiores plataformas de criptomoedas mostra quanto da indústria parece ser uma cortina de fumo. Precisamos de uma fiscalização mais agressiva e vou continuar a pressionar o SEC para fazer cumprir a lei de forma a proteger os consumidores e a estabilidade financeira”. 

Para o eurodeputado bloquista José Gusmão, "as cripto continuam a dar provas da sua inutilidade e instabilidade. O caso da plataforma FTX confirma o caráter fraudulento destes esquemas ponzi mal disfarçados". Referindo-se à proposta do Governo no Orçamento do Estado para 2023 sobre tributação das mais-valias com criptoativos, Gusmão afirmou nas redes sociais que este "lóbi não tem vergonha de continuar a pedir vantagens regulatórias. E o nosso Governo, de lhes fazer a vontade".

FTX acaba por declarar falência e fundador pede demissão

Finalmente, esta sexta-feira, depois de uma corrida aos levantamentos pelos problemas de liquidez, a FTX apresentou pedido de falência. Sam Bankamn-Fried, até recentemente visto como uma das figuras mais influentes no universo cripto, pediu demissão.

Segundo notícia do jornal ECO, a falência foi feita num enquadramento legal que permite à FTX continuar a operar enquanto chega a um acordo para reembolsar os credores.

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