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FSE 2010: A água é um bem público comum

Em Istambul, os movimentos sociais reiteraram o compromisso da luta pela preservação da água na esfera pública dos bens não privatizáveis. Por Mamadou Ba
Manifestação que encerrou o Fórum Social Europeu 2010 em Istambul

Um dos debates mais determinantes e estrategicamente importantes que se travaram no Fórum Social Europeu de Istambul, em torno dos serviços públicos, dos bens essenciais e da necessidade de os manter sob controlo público, centrou-se sobre a questão da água e da sua gestão.

Além de ser um bem comum vital para a sobrevivência da sociedade e estando a água a escassear cada vez mais, tem de se garantir a sua gestão pública para responder aos enormes desafios que se colocam actualmente quanto ao seu acesso livre e publico para todos os povos.

Infelizmente, a realidade é que de facto, continuam, cada vez mais, a morrer muitos milhões de pessoas por não terem acesso a água potável, ou, pura e simplesmente, por não terem acesso a água. Porque um país que não tem água não pode sustentar a sua população e muito menos pode aspirar a qualquer espécie de politica de desenvolvimento económico e social sustentado.

É por isso que a agua é tão importante ou mais que os combustíveis fosseis. O acesso a agua é um desafio global e pode tornar-se num dos primeiros factores de tensões e/ou conflitos internacionais.

Cerca de 40% da população mundial vive nas 250 bacias fluviais transfronteiriças do planeta. Ora, isto implica que todas estas populações tenham a obrigação de partilhar a água com os habitantes dos outros países vizinhos. E como é sabido, desde sempre que a gestão da agua é uma questão geoestratégica em que muitas vezes, os países situados a montante dos cursos da água usam o controlo da mesma como uma questão de poder para a definição da geopolítica.

Em muitos países, como o Egipto, a Turquia, o México, os Estados-Unidos, a Bolívia, a água é um dos instrumentos de luta pela hegemonia nacional, regional e internacional. Por exemplo, a Turquia tem sempre brandido a ameaça de fechar o acesso às águas do Eufrates à Síria e ao Iraque e o Egipto tem procedido da mesma forma com a Etiópia ou o Sudão! À medida que o escasseio da água se vai tornando uma realidade inegável, a sua cobiça é tanta que a sua relação com as guerras está mais que evidente. Todas as potências pequenas, médias ou grandes não hesitam em usar a força, seja ela, dissuasiva ou real pelo controlo da água

Pela sua importância estratégica, a água tornou-se a cobiça dos grandes grupos económicos que lutam pelo seu controlo através da privatização. Essa privatização da água só veio agravar este flagelo ,e no Fórum Social Europeu de Istambul, os movimentos sociais reafirmaram a urgência e a necessidade de encetar todas as formas de luta para garantir que a água é e manter-se-á um bem público comum não privatizável.

A água tornou-se o “ouro azul” para o capitalismo e, tal como os outros sectores estratégicos e vitais para a vida de todos os dias e de tod@s, ela está ameaçada pela voracidade e pela lógica neoliberal do lucro das multinacionais que a exploram em quase toda a parte no mundo e cuja estratégia consiste na sua total privatização impedindo o seu controlo pelo sector público, único garante do seu acesso universal e público.

Tal como dizia um dos participantes no Fórum social de Istambul, “Um bem de todos. Não é privilégio de alguns”. É por isso que a manutenção da água sob controlo público é um dos desafios maiores para a construção de uma sociedade ambientalmente sustentada, economicamente rentável e justa para tod@s!

Porque a problemática da agua não se cinge apenas no escasseio da mesma, mas sim e sobretudo arreiga na sua desigual repartição entre regiões, países, comunidades, ricos e pobres, rurais e urbanos. Para além das possíveis guerras, a água é hoje uma fonte de tensões sociais, económicas e sociais e a sua gestão reveladora da natureza politica das relações de classes entre os cidadãos que dela necessitam e põe a nu o apetite do capitalismo que não hesita em transforma-la no “ouro azul” dos tempos que correm.

É por isso que o modelo económico capitalista que faz da apropriação do que é de todos para alguns, tem a agua a na sua mira. Ao centralizar a discussão sobre esta questão, o Fórum Social Europeu não só, responde politica e ideologicamente ao capitalismo, como desafia todas as forças políticas e os movimentos que querem um outro mundo possível a lutarem pela manutenção de todos os bens essenciais na esfera pública!

A ofensiva sobre a água é de certo avassaladora, mas a força das resistências em defesa dos bens essenciais contra a sua privatização é a única alternativa! Se, como dizia o escritor argentino Eduardo Galiano,"Em 2000, um caso único no mundo: uma localidade "desprivatizou" a água. A chamada "guerra da água" ocorreu em Cochabamba. Os camponeses marcharam, saindo dos vales, e bloquearam a cidade, e também a cidade se rebelou. Respondendo com balas e gás lacrimogéneo, o governo decretou o estado de sítio. Mas a rebelião colectiva continuou, impossível de parar, até que, na investida final, a água foi arrancada das mãos da empresa Bechtel e as pessoas recuperaram a irrigação de seus corpos e de suas plantações (a Bechtel, com sede na Califórnia, hoje associada a contratos milionários no Iraque)". Podemos dizer que para o sucesso da defesa da água como bem publico comum universal, a derrota do capitalismo terá de ser global.

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