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França volta a parar devido à greve geral contra a reforma das pensões

Depois de cinco e dez de dezembro, esta terça-feira decorreu a terceira grande jornada de luta contra a reforma das pensões em França. Desta feita, com a junção da central sindical mais à direita, a CFDT, os sindicatos apelaram unanimemente à greve e às manifestações. Uma greve que nos transportes se mantém há 13 dias.
Manifestantes contra a reforma das pensões de Macron. Paris, dezembro de 2019.
Manifestantes contra a reforma das pensões de Macron. Paris, dezembro de 2019. Foto de LUSA/EPA/IAN LANGSDON.

Os transportes públicos continuam a ser o setor mais afetado pela greve contra a reforma das pensões de Macron. Estes trabalhadores mantêm-se em greve por tempo indeterminado há 13 dias. Para esta terça-feira, e ainda antes do início da jornada de luta, a companhia ferroviária francesa SNCF já tinha anunciado a suspensão de um quarto dos TGV, de um quinto dos comboios suburbanos da região de Paris, de três em cada dez inter-regionais e de 95% dos intercidades. Também foi anunciado que, pelo menos, oito linhas de metro em Paris estariam encerradas. De manhã, os números adiantados pelos sindicatos iam no sentido da paralisação de um terço dos trabalhadores ferroviários, 59,2% dos controladores de tráfego e mais de 75% dos maquinistas. A greve dos transportes continua a não ter um prazo definido para terminar, ameaçando arrastar-se para a época de Natal e Ano Novo.

Segundo a União Francesa das Indústrias Petrolíferas, cinco das oito refinarias do país não laboraram.

Também a Função Pública, nomeadamente o ensino e a saúde, conheceram fortes mobilizações. O ministério da Educação admite 25,05% de professores em greve. No conjunto da Função Pública, o governo reivindicava a paralisação somente de 16,92% dos trabalhadores do Estado central, de 3,5% dos trabalhadores locais e 10,7% dos trabalhadores do setor hospitalar público. Os números sindicais, claro, são muito mais elevados. Por exemplo, no caso dos professores o número destes apontava para entre 50 a 60% de grevistas.

Controladores aéreos, pessoal de bordo e pilotos de aviões também pararam. E, à partida, a Direção Geral de Aviação Civil pediu que as companhias restringem-se em 20% o serviço. Há perturbações, por exemplo, nos aeroportos de Paris, Lyon e Montpellier.

Para além das paralisações, em duas cidades houve cortes de energia durante cerca de uma hora. Em Gironde 50 mil pessoas foram afetadas e em Lyon 40 mil. A CGT assumiu a responsabilidade avisando o governo que estas ações são “uma primeira advertência” e que este “se expõe a cortes mais massivos” de acordo com o delegado sindical Francis Casanova.

O movimento Extinction Rebellion francês repetiu a iniciativa que tinha tomado na anterior mobilização contra a reforma das pensões contra o negócio das trotinetes no meio da cidade que acusam de ser altamente poluente: os códigos QR que permitem desbloquear os veículos foram rasurados com canetas o que inviabiliza o seu uso temporariamente. Isto para além de outras iniciativas como o bloqueio de uma entrada do aeroporto de Bordéus, conjuntamente com a CGT. Também em Nantes os acessos ao aeroporto local foram bloqueados pelos trabalhadores.

E, em dezenas de cidades francesas, houve manifestações em que aos vários sindicatos se juntaram conhecidos ativistas do movimento dos coletes amarelos e estudantes. Os estudantes, que têm reunido frequentemente em assembleias gerais interfaculdades para organizar a sua participação nos piquetes de greve, marcaram igualmente presença.

Foram centenas de milhares no país: 20 mil em Montpellier e Clermont-Ferrand, 200 mil em Marselha onde a manifestação não avançou durante horas devido ao número de participantes, 30 mil em Nantes, onde o percurso pensado inicialmente para a manifestação teve de ser estendido. E em Paris, também foram precisas horas para que muitos dos manifestantes se conseguissem meter a caminho. Houve 350 mil trabalhadores a desfilar na capital francesa segundo a CGT.

Durante a manifestação, a polícia chegou a disparar gás lacrimogéneo contra os manifestantes. Numa dessas ocasiões, os manifestantes não desmobilizaram. Com a ajuda de uma fanfarra que continuou a tocar apesar de tudo.

Quem também atuou na manifestação foi a ópera de Paris que, em greve, improvisou um concerto no meio da manifestação. E, também no setor da cultura, os trabalhadores intermitentes dos espetáculos bloquearam a saída dos camiões que contêm o material de filmagem para anúncios publicitários, programas de televisão ou cinema.

Esta terça-feira, ao contrário das duas grandes jornadas de luta anteriores, todos os sindicatos apelaram às greves e manifestações. O que não quer dizer que se viva um clima de unidade total entre eles. A CFDT, o sindicato mais à direita e habitual parceiro de negociações dos governos, foi a última central a juntar-se ao protesto e não partilha as exigências dos restantes: apoia o sistema por pontos mas opõe-se à implementação de uma “idade de referência” de 64 anos para a reforma, uma maneira de subir a idade atual.

Prova destas divisões é que em várias manifestações houve cortejos separados como em Cherbourg ou em Metz. Noutros, como em Paris, a CFDT estava longe da cabeça da manifestação, na qual outros sindicatos se encontravam. O seu secretário geral, Laurent Berger, presente apenas durante o início da manifestação, criticou “irresponsabilidade” alheia, jurando que a sua central “nunca se opôs a discutir as questões de equilíbrio”.

Um discurso que contrasta com o de Philippe Martinez, secretário geral da outra grande central, a CGT, presente na cabeça da manifestação, que exige não só que o projeto existente seja retirado quanto que o “sistema atual evolua” para ser “mais justo e solidário”. Ou seja, a maior parte dos sindicatos está contra o fim dos sistemas especiais de pensões que vai nivelar direitos por baixo, a criação do sistema por pontos que vai tornar o valor das pensões e a idade dependente de uma decisão política do parlamento a cada ano, opondo-se também ao aumento previsto na idade da reforma.

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