“A desigualdade educativa não pode ser resolvida através de aprendizagem social ou emocional”. As palavras são de Rob Gruijters, um dos principais autores de um estudo global publicado no jornal académico Sociology of Education que analisou 248.375 estudantes de 15 anos em 74 países e que coloca em causa a ideia de que se poderia ultrapassar o fosso educativo entre os estudantes ricos e pobres através do ensino a estes de “ética de trabalho”, da inculcação de uma “mentalidade” mais adequada ao “sucesso escolar” ou do ensino de “competências sócio-emocionais”.
Pelo contrário, os investigadores das Universidades de Cambridge, Zurique e Tübingen descobriram que apenas cerca de 9% da diferença de resultados escolares pode ser atribuída a diferenças nestas características e competências emocionais. O estudo não pretende contudo colocar em causa a ideia de que aprendizagens emocionais e sociais possam influenciar positivamente os resultados académicos, mas sobretudo questionar a ideia de que podem “reduzir substancialmente” o fosso económico. Em quase todos os países, a riqueza e o estatuto sócio-económico deixa prever com precisão o sucesso académico.
A ideia de que o ensino de competências “sócio-emocionais” aos alunos mais carenciados seria o mais importante para colmatar a desigualdade na educação tem guiado políticas e é um negócio em crescimento. De acordo com a Universidade de Cambridge, é uma “indústria” que valia em 2020 1,5 mil milhões de dólares e que deverá alcançar os 3,9 mil milhões em 2025.
Já Gruijters, que integra o Research for Equitable Access and Learning Centre desta universidade, afiança que “a ideia de que as crianças podem ultrapassar desvantagens estruturais cultivando uma mentalidade de crescimento e uma ética de trabalho positiva ignora os verdadeiros constrangimentos que muitos alunos desfavorecidos enfrentam e arrisca-se a culpá-los pelo seu próprio infortúnio”.
O seu colega Nicolas Hübner, da Universidade de Tübingen, sublinha que o desenvolvimento de competências sociais e emocionais é “altamente valioso para as crianças mas as provas sugerem que tem pouco a ver com as razões pelas quais os estudantes com rendimentos baixos têm mais probabilidades de ter dificuldades academicamente”.
Os dados que deram origem ao estudo foram retirados do PISA, concluindo-se que o fosso sócio-económico é “muito grande”. Em média nos testes de ciências a diferença entre os 25% mais ricos e mais pobres é de 70.5 pontos, “equivalente a quase três anos de escolaridade”.
Apesar de as crianças de famílias mais ricas terem competências sócio-económicas mais elevadas em média, as diferenças não serão assim tão significativas. Ou seja, em geral, tanto os jovens mais ricos como os mais pobres apresentavam níveis “relativamente elevados” destas competências. E mesmo os 9% de diferença atribuível a este tipo de competência, admite-se, pode estar sobreavaliado por causa de uma “potencial causalidade invertida na sua relação com o sucesso académico”. Isabel Raabe, da Universidade de Zurique, explica que “os estudantes que não têm a mentalidade apropriada podem ter resultados menos bons na escola mas isso pode ser porque o seu desempenho académico erodiu a sua auto-estima; não o contrário”.
Assim, defende-se que as políticas para reduzir o fosso educativo se devem focar em razões mais estruturais que incluem a qualidade e os recursos das escolas, a falta em muitos países de opções pré-escolares de qualidade, a falta de recursos extra-curriculares e oportunidades fora da escola.