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Fórum Socialismo: Amílcar Cabral, hoje

No fim de semana de debates de 26 a 28 de agosto em Coimbra, Ângela Benoliel Coutinho apresenta o painel acerca da influência do legado político e teórico de uma das principais figuras da luta anti-colonialista nas lutas de hoje.
Mural na Cidade da Praia, Cabo Verde. Foto Paul Arps/Flickr

A poucos dias da realização do Fórum Socialismo 2022 - mais informações e programa aqui - o Esquerda.net publica alguns resumos das sessões que terão lugar em Coimbra de 26 a 28 de agosto.


Renaissance Cabralista, Cabralismo e Humanismo Radical – Qual a atualidade do pensamento político de Amílcar Cabral?

Ângela Benoliel Coutinho

Volvidos quase 50 anos após o seu desaparecimento físico, Amílcar Cabral é um intelectual político cada vez mais lido e estudado, sobretudo no mundo anglo-saxónico, mas não só, onde é tido como um “revolucionário nacionalista, internacionalista e humanista”, na linha do pensamento anti-racista, anti-colonialista e anti-imperialista.

Qual é a atualidade do pensamento de Cabral nos dias de hoje? - é a questão que se pretende lançar nesta mesa-redonda.

Iremos apoiar-nos nas afirmações dos académicos Zeynad el Nabolsy e Firoze Manji, segundo as quais:

“O trabalho teórico de Cabral teve uma influência tremenda em todo o continente africano e a nível global. Influenciou figuras icónicas da luta de libertação dos Negros nos Estados Unidos da América como Angela Davis, intelectuais do Egipto, Senegal, Eritreia, Líbano (…)”[1]

“Cabral compreendeu que o nível de dominação do capitalismo depende de forma crítica da desumanização do sujeito colonial. E no centro do processo de desumanização está a necessidade de destruir, modificar ou reformar a cultura do colonizado, uma vez que foi sobretudo através da cultura, “porque é história”, que o colonizado procurou resistir à dominação e afirmar a sua humanidade.

(…)

Neste contexto, os escritos e discursos de Cabral sobre a cultura, a libertação e a resistência ao poder têm implicações importantes para as lutas que surgirão não somente nos Estados Unidos da América, mas também na Grã-Bretanha do pós-Brexit, e na Europa continental, onde o fascismo está mais uma vez a ganhar espaço em diversos países.”[2]


Notas:

[1]  Zeyad el Nabolsy (2019): Amílcar Cabral’s modernist philosophy of culture and cultural liberation, Journal of African Cultural Studies, p. 3 (minha tradução)

[2]  Manji, Firoze, “Culture, power and resistance – reflection on the ideas of Amílcar Cabral”, State of Power 2017, s.n., Transnational Institute, 2017 (minha tradução)


Estado colonial e o colonialismo como motores da História e das revoluções sociais. Amílcar Cabral e a radiografia da dominação Colonial portuguesa à luz de perspetivas teórico-analíticas contemporâneas

Julião Soares Sousa

O discurso e a práxis colonial têm sido, por natureza, geneticamente associados à violência (armada, física e psicológica) usada como mecanismo de coerção na subalternização dos povos. Ao longo dos anos, vários autores, estudos e perspetivas teórico-analíticas têm enfatizado a relevância da identificação não só dos “mecanismos causais” que os Estados coloniais usaram nesse processo de subalternização, mas também para a necessidade de adoção de um enfoque centrado em algumas “práticas distintivas” do Estado colonial ou das suas políticas e que transformam regimes de dominação direta e exclusionários, como foi o caso do regime colonial português, em autênticos “calcanhares de aquiles” no advento de agendas radicais,  de fenómenos de anticolonialismo violento ou de movimentos revolucionários. O nacionalismo moderno e o anticolonialismo guineense e cabo-verdiano, que emergem a partir da segunda guerra mundial e que desembocam na luta armada de libertação nacional dirigida por Amílcar Cabral e o seu PAIGC, a partir dos primeiros anos da década de 60, não fogem a esta regra.

Será o propósito da comunicação proposta identificar e analisar com as lentes de Cabral a forma como os “mecanismos causais” do Estado colonial foram percebidos como vulnerabilidades e, como tais, aproveitados como oportunidades políticas e revolucionárias com o intuito de desafiar o regime colonial português tendo como fim último acelerar o seu colapso e em seu lugar erigir uma nova ordem social e política.

 

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