Num primeiro comunicado, após o anúncio da renúncia do Presidente egípcio Hosni Mubarak, os militares expressaram o seu agradecimento “a todos os mártires que sacrificaram a vida” a favor da liberdade do país e prometeram uma “transição pacífica” para um “poder civil eleito”.
O Conselho Superior das Forças Armadas, a quem o ex-Presidente Hosni Mubarak cedeu o poder, garantiu ainda que no período de transição, a nova autoridade vai “respeitar todos os tratados internacionais”.
Os militares afirmaram também que o actual governo, nomeado por Mubarak, vai continuar em funções até à formação de um novo executivo para assegurar a gestão dos assuntos correntes.
Contudo, muitos egípcios temem que a saída de Mubarak apenas tire de cena a figura principal de um regime até então sustentado por dois pilares, o Exército e os empresários que dominavam a economia.
O líder do Conselho Superior das Forças Armadas é Mohamed Tantawi, que ocupou nos últimos 20 anos o cargo de ministro da Defesa e que era visto como próximo de Mubarak. Na remodelação apressada que o antigo Presidente fez tentado responder aos protestos, Tantawi foi até promovido a vice-primeiro-ministro (mas agora terá sido o próprio Tantawi uma figura essencial na decisão de afastar Mubarak).
Enquanto isso, activistas pró-democracia já lançaram um comunicado com exigências à nova autoridade. Pedem a dissolução deste Governo e a suspensão do Parlamento que saiu das eleições de Novembro, marcadas por graves irregularidades. Querem ainda uma autoridade provisória constituída por quatro civis e um militar, que prepare uma eleição para daqui a nove meses.
Neste espaço de tempo, pedem, deve ser elaborada uma nova Constituição, deve haver liberdade dos média e dos sindicatos, e possibilidade de formar partidos políticos. E os tribunais militares e de emergência (que têm servido para julgar dissidentes sob capa da ameaça à segurança nacional) devem ser abolidos.
Exército começa a remover barricadas na praça Tahrir
Segundo a AFP, os militares estavam, este sábado de manhã, a retirar as barricadas situadas ao lado do Museu Nacional do Egipto, na entrada norte da praça, e as carcaças dos carros queimados, vestígios dos confrontos entre as forças de segurança, pró e anti-Mubarak, no auge da revolta. Também os tanques do exército que bloqueavam os caminhos em direcção à praça Tahrir libertaram a passagem.
Alguns milhares de egípcios ainda estavam eufóricos na praça, na sequência da renúncia de Hosni Mubarak ao cargo que ocupou durante 30 anos e da entrega do poder aos militares após 18 dias de protestos populares que causaram a morte a 300 pessoas e deixaram milhares de feridos.
Exaustos, mas felizes, demoraram um pouco a ler jornais, e ajudaram na limpeza. Uma menina varria a rua com uma vassoura quase da sua altura, descreve a imprensa.
As operações de limpeza misturavam-se com festejos. Manifestantes e soldados, que tinham passado estes dias numa convivência de quase neutralidade, abraçavam-se e limpavam, uns retirando lixo, outros o arame farpado.
A imprensa egípcia deste sábado ilustra a saída do presidente escrevendo, por exemplo, que o povo tirou Mubarak do poder e falando na “revolução dos jovens”.
Muitos não dormiram: no Twitter alguém perguntava a Wael Ghonim, o executivo da Google que se tornou a face dos jovens-do-Facebook que marcaram os protestos, quando é que ele dormia: “Quando não estou tão entusiasmado”, respondeu, antes de twitar: “Bom dia Egipto! Senti a tua falta nos últimos 30 anos!”