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Florbela Espanca, a primeira mulher na Seara Nova

Um poema de Florbela Espanca, então com 27 anos de idade, é o primeiro texto de uma mulher a ser publicado na revista progressista. A colaboração da poetisa ficará por aí e só anos mais tarde a Seara Nova terá participação feminina regular. Por Miguel Pereira.
Florbela Espanca.
Florbela Espanca.

A revista Seara Nova surgiu em 1921. Desde logo com uma feição bem progressista. Pretendia agitar ideias e promover a cultura.

No seu manifesto inaugural, “os homens da Seara Nova” definiram-se, “sob o ponto de vista político”, como estando na “extrema esquerda da República”. Até manifestavam “as suas simpatias” pelo “triunfo do Socialismo”, numa perspectiva “dentro da ordem, dos métodos democráticos e desse espírito de realidades sem o qual são inteiramente ilusórias quaisquer reformas sociais”.

Também se apresentaram como “um núcleo de homens”.1

E, de facto, demoraram quase um ano para publicar um texto de uma mulher!

Esse texto foi um poema de Florbela Espanca.

Ela tinha então 27 anos de idade. Já publicara um primeiro livro de poesia, em 1919. Mas estava ainda muito longe de ver reconhecido o seu talento. Aliás, nunca veria, pois só depois da sua morte é que isso aconteceu…

Na Seara Nova, Florbela Espanca apresentava um soneto com o título “Prince charmant” (Príncipe encantado, em francês). No seu segundo livro de poesia, que publicou no ano seguinte, lá estaria incluído este poema, acrescido de dedicatória a um dos fundadores da Seara Nova – Raul Proença.

A colaboração de Florbela Espanca ficou por aqui. A Seara Nova iria demorar a ter uma colaboração feminina regular. Embora viesse a contar com a participação de destacadas feministas e mulheres de letras como Ana de Castro Osório (em 1928), Elina Guimarães (1928), Irene Lisboa (1929), Francine Benoit (1931), Maria Isabel Aboim Inglês (1946), Natália Correia (1956), Maria Lamas (1960), etc.

O jornal O Diabo apresentaria uma mulher como colaboradora regular logo no seu primeiro número - Alice Ogando. Mas isso foi 13 anos depois.2

Na Seara Nova, Florbela Espanca foi a primeira. Não se envolveu na ação coletiva pelos direitos das mulheres, não era uma ativista. Mas pela sua afirmação literária também contribuiu para a igualdade de género.

Um chão árido

Entre Setembro de 1928 e Março de 1929, a Seara Nova publicou uma série de artigos reveladores acerca da situação do feminismo no Portugal da época. O autor, Emílio Costa, seria porventura o ‘seareiro’ de então com ideias mais avançadas: era anarquista. Mas nesta questão não era assim tão avançado…

Ele defendeu que a mulher devia ter acesso a instrução, que os serviços domésticos deviam ser reduzidos e melhorados, nomeadamente com recurso a aparelhos eléctricos. Mas ressalvava que, a seu ver, era melhor que “o ganho do marido fosse suficiente para a vida da família”. E propalava que, para as mulheres casadas, o trabalho “mais útil, o mais nobre e o mais interessante para a sua mentalidade” seria “governar a sua casa, criar e educar os filhos”...3

Portugal parecia um chão árido para o cultivo da igualdade de género. E o próprio Emílio Costa apontava várias dificuldades. Considerava que “o que as feministas portuguesas têm feito para a propaganda do seu ideal, é pouquíssimo”. Mas “elas pouco ou nada mais poderiam realizar. É até para admirar o que se tem feito”, no quadro de “um analfabetismo desolador; uma rudeza de vida que, em muitos pontos do país, toca as raias do primitivo; uma indústria fraca, e essa mesma, limitada a meia dúzia de povoações; um fraquíssimo espírito associativo; grande falta, na pouca vida associativa que se criou, de espírito construtivo, de sequência e tenacidade”.4

Foi neste contexto que Florbela Espanca se procurou afirmar como poetisa. E se tornou a primeira mulher a publicar na revista Seara Nova.

Com este poema:

Prince Charmant

 

No lânguido esmaecer das amorosas

Tardes que morrem voluptuosamente

Procurei-O no meio de toda a gente.

Procurei-O em horas silenciosas

 

Das noites da minh'alma, tenebrosas,

Bica sangrando beijos, flor que sente...

Olhos postos num sonho, humildemente...

Mãos cheias de violetas e de rosas...

 

E nunca O encontrei!... Prince Charmant...

Como audaz cavaleiro em velhas lendas

Virá, talvez, nas névoas da manhã!

 

Ah! Toda a nossa vida anda a quimera

Tecendo em frágeis rendas...

- Nunca se encontra Aquele que se espera!.. 5


Miguel Pereira.


Notas:

1 Seara Nova, 15/10/1921, pp. 1/3

2 O Diabo, 02/06/1934, p.6

3 Seara Nova, 20/12/1928, p.421

4 Seara Nova, 07/03/1929, p.110

5 Seara Nova, 01/08/1922, p.58

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