No documento intitulado “O financiamento da FCT às universidades do interior e ilhas”, datado de junho de 2014, Paulo Coelho e Romeu Videira frisam que este padrão, que privilegia as grandes universidades em detrimento do desenvolvimento científico do interior, tem-se verificado nos últimos cinco anos nos concursos referentes a projetos de investigação, infraestruturas, bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, programas de doutoramento, investigadores e unidades de investigação.
O modelo de financiamento em vigor “não permite que o interior se desenvolva”
Em declarações ao Esquerda.net, o professor do Departamento de Química da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) referiu que “deste modo, o interior do país continuará naturalmente a definhar”.
Segundo Paulo Coelho, o modelo em vigor “não permite que o interior se desenvolva”, estando instalado um “círculo vicioso” que não permite às universidades do interior e ilhas “competir com o passado”, que tem, neste momento, demasiado peso nos resultados finais, “protegendo quem já está bem embrenhado no sistema”.
O docente defende que deveria ser aferido o investimento feito em cada universidade e qual o proveito obtido, adiantando que, no cômputo geral, a produtividade das grandes universidades não é assim tão significativa, e que a FCT deveria garantir “uma distribuição dos recursos mais equitativa”.
"A profunda quebra de financiamento verificada na área da investigação é particulamente mais expressiva no interior do país”
Já Romeu Videira, que integra a direção do Sindicato Nacional do Ensino Superior, afirmou ao Esquerda.net que o documento produzido em conjunto com o professor Paulo Coelho, “retrata questões centrais como a profunda quebra de financiamento verificada na área da investigação, que é particularmente mais expressiva no interior do país”.
O investigador da UTAD criticou o atual “sistema de financiamento, que agrava a situação das regiões do interior, que já estão muito deprimidas” e alertou para o facto de o potencial humano não estar a ser “devidamente aproveitado”.
Por outro lado, a forma como “o financiamento está a ser canalizado para áreas específicas dentro das instituições”, também “cria disparidades e é prejudicial para o desenvolvimento do país”, avançou Romeu Videira. Como exemplo, apontou o caso da investigação na área da física e química na Universidade de Coimbra, que “praticamente desaparece”.
Análise dos resultados dos concursos da FCT entre 2008 e 2013 comprova disparidades
Mediante a análise dos resultados dos concursos da FCT entre 2008 e 2013, Paulo Coelho e Romeu Videira puderam comprovar que a larga maioria dos recursos é canalizada para as grandes universidades do litoral.
Dos 2045 projetos de investigação aprovados em 2009, 2010 e 2012, as 6 universidades do interior (UTAD, UBI, UE, UALG) e ilhas (UMa, UAçores) ganharam apenas 107, o equivalente a 5,2%.
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Universidade |
2009 |
2010 |
2012 |
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Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro |
12 |
6 |
1 |
|
Universidade da Beira Interior |
9 |
6 |
3 |
|
Universidade de Évora |
13 |
8 |
9 |
|
Universidade do Algarve |
14 |
7 |
14 |
|
Universidade da Madeira |
1 |
2 |
2 |
|
Universidade dos Açores |
0 |
0 |
0 |
|
Total interior e ilhas |
49 (6.3%) |
29 (4.6%) |
29 (4.6%) |
|
Total Aprovados pela FCT |
780 |
632 |
633 |
Em 2013, e de acordo com a FCT, existiam 4799 bolsas de doutoramento em execução - 2096 na região de Lisboa e vale do Tejo, 1068 no centro e 1477 na região norte. O Algarve contava com 69 bolsas (1.4%), o Alentejo – Universidade de Évora - com 70 bolsas (1.4%). Nos Açores existiam 10 bolsas (0.21%) e na Madeira 9 (0.19%). As 6 as 6 universidades do interior e ilhas eram responsáveis por cerca de 6% das bolsas.
Bolsas de doutoramento em execução em Portugal por região da instituição de acolhimento, 2013
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Região destino |
Nº BD |
|
Norte |
1477 |
|
Centro |
1068 |
|
Lisboa e Vale do Tejo |
2096 |
|
Alentejo |
70 |
|
Algarve |
69 |
|
R. A. Açores |
10 |
|
R. A. Madeira |
9 |
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Total |
4799 |
Fonte: Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Conselho Diretivo, à data de 22 de janeiro de 2014.
Entre 2008 e 2012 foram atribuídas 2234 bolsas de pós-doutoramento - 1079 ficaram na região de Lisboa e vale do Tejo, 473 no centro e 565 na região norte. A região do Algarve recebeu 65 bolsas (2.9%), Alentejo - Universidade de Évora - 35 bolsas (1.6%), Açores 12 (0.5%) e Madeira 5 (0.22%). Tudo indica que no total as 6 instituições serão responsáveis por cerca de 7-8% das bolsas.
Bolsas de pós-doutoramento atribuídas entre 2008-2012 em Portugal por região da instituição de acolhimento
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Região destino |
Nº B PD |
|
Norte |
565 |
|
Centro |
473 |
|
Lisboa e Vale do Tejo |
1079 |
|
Alentejo |
35 |
|
Algarve |
65 |
|
R. A. Açores |
12 |
|
R. A. Madeira |
5 |
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Total |
2234 |
Fonte: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Nos concursos de investigador da FCT, foram aprovadas 159 candidaturas em 2012 e 209 em 2013. Em 2012, as 6 universidades do interior e ilhas foram contempladas com 5 investigadores e em 2013 com apenas 6 (3% no total dos dois concursos).
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Universidade |
2012 |
2013 |
|
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro |
0 |
0 |
|
Universidade da Beira Interior |
0 |
1 |
|
Universidade de Évora |
1 |
2 |
|
Universidade do Algarve |
4 |
2 |
|
Universidade da Madeira |
0 |
0 |
|
Universidade dos Açores |
0 |
1 |
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Total interior e ilhas |
5 |
6 |
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Total Aprovados pela FCT |
159 |
209 |
Em 2012 e 2013, a FCT promoveu a criação de programas de doutoramento por parte das universidades em todas as áreas científicas. Dos 96 programas financiados, as 6 universidades do interior e ilhas foram contempladas com apenas 3, o equivalente a 3%.