Na sua intervenção, Ulrich defendeu que Portugal precisa de apresentar um plano de longo prazo para o país e que, "provavelmente para ter êxito, vai precisar que um dia exista um 'Plano Merkel' na Europa, tal como houve um Plano Marshall".
No pós programa de ajustamento, e “um pouco em paralelismo com o que aconteceu na Europa no pós Guerra Mundial, seria útil haver um Plano Merkel para estes países, como Portugal, a Espanha, a Grécia, a Itália e, se calhar, também a Irlanda, que, no fundo, enquadrasse as iniciativas que todos estes países precisam de tomar para retomarem um caminho de crescimento económico e de redução do desemprego”, avançou.
Na opinião do banqueiro, um dos "desígnios políticos" a sugerir à chanceler alemã Angela Merkel "quando vier a Lisboa”, a 12 de novembro, seria, inclusive, “ser a promotora de um 'Plano Merkel' para o Sul da Europa".
Na sua intervenção na conferência III Fórum Fiscalidade Orçamento do Estado 2013, organizada pela Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas e Diário Económico, Fernando Ulrich sublinhou que Portugal "tem feito um enorme caminho de recuperação de credibilidade" e que há que aproveitar essa credibilidade "para apresentar uma base de negociação para o futuro [com a Europa], mas não um programa de assistência social, não um programa para que os alemães paguem as prestações sociais dos portugueses, isso eles nunca farão".
Portugal precisa de apresentar à Europa um plano de longo prazo “em que eles também percebam que têm alguma coisa a ganhar”, adiantou, sublinhando que não vale a pena “ir de mão estendida a dizer 'ajudem-nos', isso não vai a lado nenhum”.
Segundo Ulrich, Portugal não vai conseguir resolver o problema da dívida pública e do desemprego "se a economia não crescer e isso precisa tempo e um esforço concertado e organizado”.” Não vai ser só por geração espontânea", rematou.
O país aguenta mais austeridade
O diretor executivo do BPI, instituição bancária que tem vindo a lucrar com a dívida portuguesa, obtendo, nos primeiros nove meses do ano, 117,1 milhões de euros de lucros, mais 15,3% do que em igual período de 2011, perguntou retoricamente, durante a sua intervenção, se o país aguenta mais austeridade, apressando-se a adiantar a resposta: “Ai aguenta, aguenta!”.
“Não gostamos, mas [Portugal] aguenta, e choca-me como há tanta gente tão empenhada, normalmente com ignorância com o que está a dizer ou das consequências das recomendações que faz, a querer nos empurrar para a situação da Grécia”, salientou.
Fernando Ulrich afirmou que fica “absolutamente boquiaberto” perante pessoas com tanta responsabilidade, “raramente da maioria ou no poder”, que fazem recomendações e considerações que “terão como consequência levar Portugal, num tempo relativamente curto, para a situação da Grécia”.
O banqueiro, que chegou a defender que os desempregados, que recebem subsídio de desemprego, deveriam trabalhar à borla no BPI ou em grandes empresas, como EDP, PT, Jerónimo Martins ou Sonae, fez ainda questão de sublinhar que apesar da austeridade, “os gregos estão vivos, protestam com um bocadinho de mais veemência do que nós, partem umas montras, mas eles estão lá, estão vivos”.