Conferência

Feminismo internacional(ista) no Porto: a 6.ª edição da MarxFem

25 de novembro 2025 - 11:05

Mais de 300 participantes de 49 países estiveram em dezenas de mesas-redondas, oficinas e plenários que cruzaram marxismo, feminismo e lutas decoloniais.

porRebeca Moore

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Plenário MarxFem
Foto Rede Transform!

Este fim-de-semana, entre 21 e 23 de novembro, o Porto acolheu dezenas de mesas-redondas, oficinas e plenários que cruzaram marxismo, feminismo e lutas decoloniais, com a presença de mais de 300 participantes de 49 países. Na MarxFem, conferência internacional e internacionalista organizada pela transform! europe, em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, a Fundação Iratzar e a Fundacja Naprzód, debateu-se a apropriação dos corpos, a violência sobre territórios e as práticas de resistência que hoje desafiam o capitalismo. A conferência procurou materializar uma estrutura não hierarquizada, com diferentes formatos de discussão, atravessado por momentos de convívio entre as participantes, abrindo espaço para o diálogo e a colaboração entre todas. Procurou também mobilizar metodologias plurais - performances, vídeos, oficinas, intervenções artísticas -, além das comunicações, combinando teoria e prática de diversas formas.

A conferência centrou-se em três eixos principais: descolonizar os corpos, ao denunciar a mercantilização, objetificação e violência que afetam os corpos das mulheres enquanto territórios autodeterminados; descolonizar os territórios, ao problematizar processos de ocupação, expropriação e desumanização, e propor formas feministas de reconfigurar espaços institucionais, urbanos e ancestrais; e descolonizar as práticas, refletindo criticamente sobre formas de organização e ativismo.

Plenário MarxFem
Conferência MarxFem no Porto. Foto Rede Transform!

Através da partilha das lutas e do horizonte do amor e do cuidado (o construído, e não aquele que nos é socialmente imposto), na MarxFem procurou articular-se feminismo, marxismo e descolonialismo, confrontando o feminismo liberal, o femonacionalismo, o pacifismo, ou seja, a organização económica, política, social e cultural capitalista, na perspetiva do seu combate e da sua superação, por meio de políticas que colocam a vida no centro e se procuram edificar a partir de uma ideia expandida de justiça - social, política e ecológica. Através de várias vozes - de Ruth Wilson Gilmore a Dima Mohammed ou Rita Alsalaq - partilhou-se conhecimento e pensamento crítico - do abolicionismo do sistema prisional à ocupação sionista da Palestina - e construíram-se e aprofundaram-se solidariedades. Ao longo dos três dias de conferência, o marxismo foi explorado e reinvindicado como ferramenta de análise e transformação, ao serviço de redes internacionais de solidariedade e do fortalecimento de um projeto feminista anticapitalista, antirracista, descolonial e ecologista.

As sessões - plenárias ou mesas redondas - trouxeram uma multiplicidade de contributos e perspectivas. Desde a reflexão sobre como as estruturas sociais e a linguagem moldam o que sabemos e sentimos sobre o mundo às leituras críticas sobre a forma como o sistema económico controla e desvaloriza corpos marcados pela idade, pela origem e pela classe, passando pela precarização laboral no sul global, os mecanismos de controlo sobre mulheres migrantes, os impactos da gentrificação em territórios racializados e o papel do artivismo como forma de resistência política e cultural.

De realçar os debates sobre a Teoria de Reprodução Social, como ferramenta essencial para compreender e elaborar sobre a produção e a reprodução, desdobrada em propostas práticas sobre o trabalho de cuidados (por exemplo, em Portugal, a proposta do Serviço Nacional de Cuidados) e economia feminista. A par e passo os acordos sobre a interseccionalidade, ou seja, a compreensão de que os diferentes sistemas de opressão - como o racismo, o patriarcado, o classismo ou a xenofobia - se materializam e cruzam, quotidianamente, no mesmo corpo, criando desigualdades específicas e aprofundando a exploração de mulheres e pessoas marginalizadas

De igual modo, as discussões sobre militarismo, guerra, território e descolonização permitiram problematizar sobre guerra e a paz, com amplo acordo de que, para povos ocupados e colonizados (como no caso da Palestina, do Congo, dos Saharauis) a paz e o pacifismo não são opções libertadoras.

Conferência MarxFem
Conferência MarxFem no Porto. Foto Rede Transform!

Salientar também as discussões sobre como transformar teoria em programa para a prática, nos dias de hoje, com a ascensão e consolidação da extrema-direita, a crise do neoliberalismo e da democracia representativa, de um lugar feminista, marxista, anticolonial, alicerçado nas vivências e nas necessidades das pessoas.

A MarxFem constrói-se, desde 2015, como um espaço onde as experiências concretas e a elaboração teórica se combinam para forjar pontes e programa ao serviço de uma transformação radical da sociedade, num período de múltiplas crises - económica, dos cuidados, ecológica etc. - inspirado naquilo a que Rosa Luxemburgo chamou de política revolucionária realista. Esta edição, em Portugal, foi um momento de encontro, de resistência, de aprendizagem e de elaboração, que permitiu refletir coletivamente sobre a urgência de fortalecer um feminismo anticapitalista, decolonial e internacionalista, centrado nas lutas contra o imperialismo e o colonialismo, contra o genocídio do povo palestiniano, lutando por uma paz justa e pela organização da vida para além da escassez, sem deixar ninguém para trás.

Rebeca Moore
Sobre o/a autor(a)

Rebeca Moore

Estudante de Educação Pré-Escolar e ativista feminista e pela libertação da Palestina
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