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Feminismo e moralismo

A internet foi só o megafone que retirou da invisibilidade símbolos de cumplicidade, até afinidade, com uma ordem que é opressiva sobre as mulheres. Artigo de Soraia Simões.
Capa da edição brasileira do livro "A Room of One's Own", de Virgínia Woolf.

«Um decote até ao umbigo e uma racha até cá acima o que é que está a fazer senão assédio ao homem?», questiona uma médica, especialista em ginecologia e obstetrícia, a meio de uma entrevista, onde promovia o seu recente livro (do qual é co-autora), na RTP.
«Uma p* à procura de fama», «se aceitou dinheiro, consentiu», «não se deixem iludir por estas ''senhoras'' de reacção lenta do Me too», escrevem algumas, e friso «algumas», mulheres a respeito do caso de alegada violação sexual de Cristiano Ronaldo a Kathryn Mayorga.

Quando alguém enceta o seu modo de observar o mundo deste modo «eu sou feminista, mas...», raramente me engano. Trata-se, quase sempre, de uma (in)voluntária auto-defesa. Afinal, há um «mas».

E ele vem, normalmente, logo na frase seguinte «sou feminista, mas não sinto que esta mulher me represente». Afinal, sempre existirá  um «tipo». Um «tipo de mulher» que, está claro, é «mais credível» que formas «menos aceitáveis e próprias para uma mulher»,  é assim que inicia algum pretenso  (falso) feminismo.

Ora o «mas», desta semana, foi a alavanca para um conjunto de considerações como há muito não se viam tão descaradamente.

«Cristiano Ronaldo, o melhor do mundo?» questiona uma plataforma, a qual define o seu propósito/ missão assim «promover a informação e a sensibilização da sociedade civil para a igualdade de género».

«Um decote até ao umbigo e uma racha até cá acima o que é que está a fazer senão assédio ao homem?», pergunta a supracitada ginecologista.

Estes enunciados vieram-nos relembrar e alertar do lugar de onde, na verdade, nunca saímos. Obrigada à revolução digital por isso. Pela ausência de alguns filtros na «tão evoluída» contemporaneidade. Na qual se engendram movimentos e se erguem bandeiras, afinal, pouco esclarecidas.

É isso. A internet foi só o megafone que retirou da invisibilidade símbolos de cumplicidade, até afinidade, com uma ordem que é opressiva sobre as mulheres, é sexista e despótica e se impõe, ela mesma, com um conjunto de instrumentos na manutenção da mesma.

Recuaremos, porque consciente e inconscientemente nos revelamos esta semana, a Eva, criada a partir de Adão, por sua vez criado à imagem de Deus. Ela foi suficiente para que ao longo de vinte e cinco séculos se estabelecesse como «uma norma» a obediência e a submissão da mulher ao homem, bem como «a sua inferioridade».

Contemplaremos o renascimento e a invocação da figura Musa, já reavivada no final da Idade Média aquando da redescoberta da cultura clássica, e sinónimo de erudição. De Musa a Madona a mulher é a personificação da imagem imaginada e erotizada pelo homem da amada, alvo do seu desejo e satisfação. Os pré-rafaelistas pintam-nas de modo obsessivo.

Recuaremos, recorrendo à útil literatura, ao ponto em que muitos homens e muitas mulheres do século XXI, acham que uma «mulher-demónio», uma «mulher desejo» tem, ou não, os mesmos direitos. Tudo dependerá do grau de moralidade de quem opina e da pontaria das suas convicções e percepções, moldadas pelo pensamento dominante, masculino nestas matérias, no limite do que é a «mulher anjo» ou «mulher fada do lar».

Em A Room of One's Own (1929) Virgínia Woolf falou-nos da educação como ponto fundamental para o surgimento da figura da «escritora».

Em In a Different Voice (1982) Carol Gilligan veio-nos chamar à atenção para uma supervalorização do plano ético em detrimento dos aspectos afectivos, que devem ser tidos em consideração, reclamando uma «voz diferente».

Para onde caminhamos então? Para uma educação complementar, ou até que entre em ruptura, alternativa às práticas comuns de educação, as quais têm preservado as supremacias masculinas dentro do sistema educativo?

Ou, caminharemos, para o enaltecimento no espaço digital, e no espaço público, deste discurso beato, que se afasta do essencial, e fomenta cada vez mais a obliquidade na qual se tem suportado a relação de todas, sem excepção, as mulheres sobre a cultura e o poder hegemónicos?


Soraia Simões é investigadora integrada do Instituto de História Contemporânea da FCSH NOVA, Mural Sonoro.

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