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FBI desmente o "Watergate estúpido" de Trump

Apesar de infundada, a acusação de Trump aparenta ser uma manobra para dinamitar as investigações sobre as relações de Trump com o regime de Vladimir Putin, incluindo Obama no processo.
Donald Trump por Aude Guerrucci Pool, EPA/Lusa
Donald Trump por Aude Guerrucci Pool, EPA/Lusa

Não é a primeira teoria da conspiração que Donald Trump alimenta sobre Barack Obama (a carreira política de Trump é lançada em 2011 com a acusação de Obama não ter nascido nos EUA), mas não deixa de ser extraordinária.

Sem apresentar qualquer prova, Donald Trump recorreu ao twitter para acusar o seu antecessor na Casa Branca de ter dado ordens aos serviços secretos para espiar os telefonemas de Trump no final de 2016.

A acusação já foi desmentida pelo porta-voz de Barack Obama e James Comey, diretor do FBI (célebre por ter reaberto a investigação inconsequente a Hillary Clinton a dez dias das eleições de novembro), foi mais longe e pediu ao Departamento da Justiça dos EUA que declare a acusação sem qualquer fundamento (uma vez que, a ter acontecido, o FBI teria procedido ilegalmente).

O atual Presidente dos EUA não citou qualquer fonte para esta acusação mas, alegadamente, surge na sequência de uma notícia publicada pela Breitbart News (também sem fundamentação), o sítio noticioso de extrema-direita criado por Steve Bannon, atual conselheiro de Donald Trump.

Apesar de infundada, a acusação de Trump aparenta ser uma manobra para dinamitar as investigações sobre as relações de Trump com o regime de Vladimir Putin, incluindo Obama no processo. Sean Spicer, porta-voz do Presidente dos EUA, declarou em comunicado que a comissão de informação do Congresso iria "determinar se o ramo executivo abusou dos poderes de investigação em 2016", pedindo especificamente que os "relatórios" das escutas deveriam ser incluídas nas investigações sobre a Rússia, acrescentando no twitter que "a Casa Branca não iria fazer mais qualquer comentário até ao final das investigações".


Mas a menos que os congressistas tenham realmente elementos que comprovem as declarações de Trump, será difícil ao Partido Republicano dar sequência às acusações.

Nancy Pelosi, líder da minoria do Partido Democrata no Congresso, considerou que isto eram "tácticas autoritárias": "inventa-se alguma coisa que obriga a comunicação social a escrever sobre o assunto, e depois justifica as acusações originais com as notícias em fundamento".


Segundo o sistema judicial dos EUA, uma escuta a um cidadão do próprio país tem sempre de passar por um juíz federal a pedido ou dos serviços de informação (CIA, NSA, Homeland Security, FBI) ou do Departamento de Justiça. Se o Departamento de Justiça fez o pedido, então trata-se de um caso criminal. Se veio dos serviços de informação, quer dizer que haveria razões de suspeita de conluiu com uma potência estrangeira. Seja como for, Obama nunca poderia dar a ordem de montar uma equipa de investigação a Donald Trump. O que não quer dizer que Trump não esteja sob investigação.

No final de 2016 foram lançadas várias investigações às relações entre os conselheiros de Trump e a Rússia, em concreto sobre uma troca de comunicações encriptada entre a corporação de Trump e bancos russos. Investigações que ainda não terminaram mas que, até hoje, não estabeleceram definitivamente relações criminosas entre Trump e Putin.

No programa Last Week Tonight, o comediante residente da HBO, John Oliver, apelidou o caso como "Watergate estúpido" [stupid watergate], fazendo referência ao paralelo com as escutas de Nixon sobre o Partido Democrata que Trump estabeleceu nas acusações a Obama. Na sua rubrica, John Oliver considera que "a questão relevante não é o que sabia Trump mas sim se é Trump capaz de saber coisas verdadeiras?", questionou.

 

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