Farfetch anuncia que portugueses são os primeiros a ser despedidos

16 de fevereiro 2024 - 14:16

Sul-coreanos da Coupang assumem controlo da gestão e o bilionário José Neves demite-se da administração do "unicórnio" que fundou e afundou. Trabalhadores portugueses são os primeiros a sair.

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saco da Farfetch
Foto [email protected]/Flickr

O fundador da Farfetch anunciou esta quinta-feira a sua demissão do cargo de CEO da Farfetch, a plataforma de venda de moda de luxo online que foi um dos primeiros "unicórnios" britânicos - e que a imprensa nacional adotou como o "primeiro unicórnio português" -, a expressão usada para empresas com valor de mercado acima dos mil milhões de dólares. Um valor que chegou aos 24 mil milhões, antes de a empresa que liderou o mercado de comércio eletrónico da moda de luxo ir ao fundo devido a erros de gestão, mas também a fatores externos que abalaram o setor, como as sanções à Rússia após a invasão da Ucrânia e a lenta recuperação da China pós-pandemia, a par da inflação e das taxas de juro.

Na carta de despedida enviada na quinta-feira aos funcionários da empresa, citada pelo portal Women's Wear Daily, José Neves diz acreditar que deixa a empresa em boas mãos e que irá "festejar convosco todos os sucessos que a Farfetch atinja por muitos anos". Um memorando a que o portal teve acesso diz que Neves irá manter-se como "consultor" dos novos donos da empresa e não será substituído para já por um novo CEO, com o negócio a ser supervisionado pelo fundador da Coupang, Bom Kim.

No caso dos mais de três mil trabalhadores portugueses nas instalações da Farfetch em Braga, Guimarães e Matosinhos, muitos não terão razões para festejar esta sexta-feira, pois serão os primeiros a conhecer a decisão de despedimentos por parte dos novos donos, uma gigante do mercado retalhista sul-coreano. Para segunda-feira estão previstos os anúncios de despedimentos no Reino Unido, onde a Farfetch emprega mais de mil trabalhadores.

A "redução global do número de trabalhadores e das funções redundantes" é anunciada como o objetivo da empresa, que viu também sair a líder do departamento de moda e merchandising, Elizabeth Von Der Goltz, e a responsável da Farfetch Platform Solutions, Kelly Kowal.

Apesar das graves dificuldades financeiras que a Farfetch atravessava, José Neves disse em agosto, na última comunicação ao mercado, que 2023 estava a caminho de ser um ano ótimo para a empresa. No final de novembro anunciou que não apresentaria os resultados dos primeiros nove meses do ano, desencadeando o pânico entre os acionistas que tentaram vender as ações a qualquer preço. Foi então que a Coupang anunciou o resgate da empresa, com uma injeção de 500 milhões em troca de 100% da propriedade e com os acionistas da Farfetch a verem o valor do seu investimento evaporar-se.

A operação de compra está ainda a ser contestada por um grupo de investidores institucionais que detêm mais de metade das obrigações conversíveis da Farfetch que venciam em 2027. Eles argumentam que a Coupang subavaliou a empresa e que a gestão de Neves não foi transparente sobre as dificuldades nos meses anteriores à venda a preço de saldo. Além disso, alegam que havia outras três entidades credíveis que declararam o seu interesse em adquirir a empresa no seu todo, ou partes dela. Agora exigem o pagamento de mais de 400 milhões de dólares pelas suas obrigações e a liquidação da holding criada para levar a empresa a ser cotada em Wall Street em 2018.