Jogos Olímpicos de Paris

A extrema-direita odiou a cerimónia de abertura

27 de julho 2024 - 12:24

Críticas à cultura “woke”, ódio às drag queens, racismo contra a cantora franco-maliana Aya Nakamura foram algumas das respostas ao evento. À esquerda saudou-se terem-se sublinhado os valores da sororidade, paridade e inclusão.

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Aya Nakamura durante a Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Paris
Aya Nakamura durante a Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Paris. Captura de ecrã.

Para além da discussão “estética” sobre uma cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos que pretendeu ser inovadora ao sair do habitual ambiente do estádio, em França o mundo político debruçou-se sobre outros aspetos da cerimónia.

A ideia de uma abertura “inclusiva” foi assumida. Patrick Boucheron, o historiador que foi um dos criadores do evento, disse aos microfones da France Inter que “assume tudo, coletivamente, alegremente”, mostrando uma França diferente de muitos dos lugares comuns com que é e gosta de ser retratada.

O seu diretor artístico, Thomas Jolly, trouxe a atacada cantora Aya Nakamura, introduziu drag queens no espetáculo e dedicou um momento à sororidade.

Foram ingredientes mais do que suficientes para fazer a extrema-direita reagir nas redes sociais. Contudo, as principais figuras da União Nacional, Marine Le Pen e Jordan Bardella, abstiveram de o fazer. Ele preferindo comentar as sabotagens do TGV para as tentar colar à esquerda, afirmando na conta no X que é um “modo de operação da extrema-esquerda” e “um ato de traição. Ela alinhando exatamente pelo mesmo discurso e escrevendo “durante demasiados anos, a violência e a sabotagem contra a propriedade pública (...) tornaram-se métodos operacionais comuns do movimento de extrema-esquerda. Cabe aos investigadores encontrar os culpados, mas é urgente que o Estado acabe com esta leniência que incentiva a impunidade destas hordas de destruidores” e fazendo depois uma publicação “redonda” em que se limitava a desejar “boa sorte a todos os nossos atletas”

Marion Maréchal, a sua sobrinha eurodeputada que se mudou instantaneamente do partido de Éric Zemmour para a União Nacional no rescaldo das eleições que a levaram ao Parlamento Europeu, criticou uma “propaganda woke muito grosseira”, dedicando três publicações de seguida ao evento. Mostra-se chocada com “as Maria Antonietas decapitadas, a trupe que se beija, drag queens, a humilhação da Guarda Republicana forçada a dançar Aya Nakamura, a fealdade geral dos figurinos e da coreografia”.

Noutra das mensagens escreve em inglês e francês “a todos os cristãos do mundo”, certamente atentos à sua conta de X, para dizer que a “paródia de drag queen da Última Ceia” não era “a França a falar mas uma “minoria de esquerda preparada para qualquer provocação” e terminando com um “não em meu nome”.

Em quantidade, pelo menos, se não na tentativa de se mostrar indignada, foi ultrapassada pelos quatro tuítes de Damien Rieu, conhecido influencer de extrema-direita e co-fundador da Geração Identitária, que se questionava se eram os “Jogos Olímpicos das drag queens” e “quando é que param com as mulheres com barba”, criticando que “não fazem uma paródia de Maomé”.

E se alguns destes aspetos terão surpreendido os elementos da extrema-direita, outro foi apenas uma confirmação, a presença da cantora franco-maliana Aya Nakamura, a artista francófona mais escutada no mundo atualmente. Desde que o seu nome fora anunciado, há meses, a extrema-direita entrou em modo de “campanha” para a criticar, muitas vezes de forma abertamente racista. A própria Marine Le Pen, na altura, tinha dito que se tratava de uma tentativa de Macron de “humilhar o povo francês”. Figuras como o porta-voz da União Nacional, Julien Odoul, tuítaram “que vergonha! Aya Nakamura, não há como! A abertura dos Jogos Olímpicos é uma devastação para a cultura francesa.”

À esquerda, as reações foram muito diferentes, o coordenador da França Insubmissa, Manuel Bompard, assumiu “orgulho quando a França fala ao mundo” desta forma. O líder do PS, Olivier Faure, viu no que aconteceu uma celebração dos “valores da liberdade, igualdade e fraternidade aos quais se juntaram sororidade, paridade e inclusão”. A dirigente ecologista Sandrine Rousseu comentou ser “a melhor resposta à ascensão do fascismo e da extrema-direita” e uma “bofetada na cara dos obscurantistas”.

No campo do presidente Macron, as reações foram divididas com o próprio e o ex-primeiro-ministro Gabriel Attal a elogiar a cerimónia e com outros como o deputado Charles Rodwell a utilizar também onda “woke”. O mesmo sucedeu à direita com figuras como a senadora Valérie Boyer, dos Republicanos”, a atacar “uma visão da nossa História [...] que procura ridicularizar os cristãos” e Xavier Bertrand, do mesmo partido, presidente da região de Hauts-de-France, a qualificar a cerimónia como “magnífica”.