Expulsão de estudante kosovar provoca protestos em França

19 de outubro 2013 - 17:35

Como nos anos mais ardentes de Sarkozy, os socialistas também expulsam menores cujos pais não têm documentos. A expulsão de Leonarda Dibrani provocou protestos em França e Hollande manobra hipocritamente, afirmando que a estudante kosovar pode voltar regressar, “se fizer um pedido”. Leonarda já respondeu: "Não vou para França sozinha. Não vou abandonar a minha família." Artigo de Eduardo Febbro.

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Estudantes liceais protestaram em Paris contra as expulsões de alunos estrangeiros depois de Leonarda Dibrani ter sido presa e deportada, quando regressava de uma excursão escolar

Paris - A direita e os social-democratas são figuras intercambiáveis, menos no discurso. As palavras os distinguem, os factos os igualam. Como nos anos mais ardentes do ex- presidente conservador Nicolas Sarkozy, os socialistas também expulsam menores cujos pais não têm documentos – eles tampouco, por conseguinte – indo buscá-los na própria porta do colégio. Esse foi o destino, no início de outubro, de Leonarda Dibrani, uma estudante kosovar de 15 anos que foi detida quando participava de uma excursão escolar à fábrica da Peugeot, juntamente com os seus colegas do Colégio André Malraux, da localidade de Pontalier, no leste da França. A polícia foi buscá-la ao autocarro, obrigou-a a desembarcar diante de todos os seus colegas, prendeu-a e logo em seguida expulsou-a por não ter documentos juntamente com a sua mãe e os seus cinco irmãos. Foi enviada para Pristina, no Kosovo.

A família de Leonarda Dibrani não tinha direito de residir em França. Tinha esgotado todos os recursos para obter a residência, mas fracassou. Quando Sarkozy fazia o mesmo, a oposição socialista protestava. A memória é tão curta como a geometria variável com que se aplica a lei. As condições degradantes nas quais foi expulsa a jovem, que já frequentava escolas francesas há três anos, provocaram uma crise dentro do PS, ao mesmo tempo em que milhares de estudantes saíram às ruas em protesto contra a expulsão.

A histórica costuma dar muitas voltas. As manifestações dos estudantes funcionaram como um espelho invertido dos anos 80, uma época em que, com os socialistas a frente, milhões de pessoas se manifestaram em França contra o racismo da direita sob a consigna “Touche pas à mon pote” (“Não toque no meu companheiro”). As mesmas consignas voltam agora, mas contra a esquerda no poder. Nada escapa à impecável renda da manipulação do tema dos estrangeiros como objeto de promoção eleitoral. Nos protestos de rua, o alvo principal das faixas e slogans foi o atual ministro francês do Interior, Manuel Valls, o ministro mais popular do governo pela dureza com que trata os imigrantes. “Fora Valls”, “ Não à educação mediante a expulsão”, diziam algumas das faixas e cartazes.

No ano passado, antes de ser eleito presidente, François Hollande tinha-se comprometido a colocar fim às chamadas “prisões administrativas” de menores de idade e de famílias com crianças. O então candidato socialista dirigiu uma carta à Rede Educação sem Fronteiras (RESF) e ao Observatório sobre a detenção de estrangeiros onde dizia: “a proteção dos interesses da criança deve ser prioritária”.

Palavras e palavras triviais. O caso da adolescente Leonarda Dibrani não é o único que se descobriu. No dia 12 de outubro, um aluno do ciclo superior de 19 anos, Khatchik Kachatryan, foi expulso da França depois de permanecer detido várias semanas. O jovem tinha fugido da Arménia em 2011 juntamente com o seu pai, que teve negado o direito de asilo político. De maneira mais global, a social-democracia no poder superou a direita no que diz respeito à expulsão de estrangeiros.

Demonstrar quem é mais mau tornou-se um jogo frutífero. Em 2012, o ministro do Interior, Manuel Vals, ganhou aos seus predecessores: 36.822 expulsões contra 32.912 no ano anterior. O ministro disse: “neste governo há uma vontade de aplicar uma política humana, justa, mas muito firme em matéria de expulsões”. No anterior governo socialista, de 2001, com Lionel Jospin, foram expulsos 9 mil estrangeiros. No atual, a cifra foi multiplicada por quatro.

A expulsão de Leonarda Dibrani responde a um processo legal. A sua metodologia, porém, foi questionada por parte da sociedade civil e por líderes socialistas. Os professores de Leonarda publicaram uma carta aberta onde expõe a sua “estupefação” pela forma com que ela foi tratada. O texto lembra também que cinco dos menores da família Dibrani “já estavam há mais de três anos em escolas francesas, falando perfeitamente o francês e teriam pleno direito à naturalização dentro de dois meses”.

As denúncias apontam hoje para o ministro francês do Interior, Manuel Valls. Ele é acusado de ser “cúmplice” das propostas da extrema-direita, cujos temas favoritos são a imigração e a prioridade nacional. Há algumas semanas, Valls provocou protestos quando associou os ciganos com a delinquência.

Educar e integrar custa mais barato que expulsar. Um informe da comissão do Senado citado pelo jornal Le Monde indica que cada expulsão custa 20.900 euros. Segundo a educação nacional, um aluno custa “7.900 euros por ano”. A política migratória é impecável, governe quem governe, e a crueldade com certas minorias um caminho fácil e rápido para ser popular.

Os ciganos, kosovares e povos de outros lugares foram um prato fácil para o governo conservador de Nicolas Sarkozy. Voltam ao mesmo estatuto com o governo socialista. Ninguém cogita em expulsar os banqueiros corruptos que vivem em apartamentos luxuosos de Champs-Élysées, nem os mais do que identificáveis milionários das novas máfias do leste europeu. Mas se você é latino, africano, magrebino ou cigano, a história é outra. Neste caso a lei funciona. Com uma extrema direita situada pelas sondagens de opinião em primeiro lugar para as eleições municipais de 2014, os poucos caminhos que restam para fazer política parecem envolver dar boleia às suas ideias.

Artigo de Eduardo Febbro, publicada em Carta Maior. Tradução de Marco Aurélio Weissheimer