Crónica

A Europa foi um sonho bonito

29 de dezembro 2025 - 15:46

Os governos eurocéticos não só não saem da UE, como preferem dinamitar o projeto por dentro, aliando-se a agressores externos. A Europa envelhece e o medo, gerador de fascismos, aumenta.

por

Paco Cano

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Felipe González assina em Madrid o Tratado de Adesão da Espanha à CEE em 12 de junho de 1985.
Felipe González assina em Madrid o Tratado de Adesão da Espanha à CEE em 12 de junho de 1985. / Foto UE

Para nós que crescemos nos anos setenta no sul mais pobre, a Europa era a porta de fuga das batinas, dos quartéis e do silêncio. A Europa soava a liberdade de verdade, a direitos laborais, a futuros possíveis, a ruas limpas onde a política servia para melhorar a vida das pessoas. “Quando entrarmos na Europa...”, dizia-se como quem invocava um poção mágica. Ainda não tinha uma bandeira reconhecível, mas tinha bibliotecas, cinemas, bolsas de estudo e a convicção quase revolucionária de que o fascismo tinha sido um erro histórico já superado.

A Europa entrava nas nossas casas pela televisão e pelos estádios. A chegada de Cruyff e Neeskens foi uma revelação cultural. O futebol total que defendiam era a metáfora perfeita do que imaginávamos que fosse a União Europeia. Inteligência partilhada, jogo em equipa, talento ao serviço de algo comum. Também chegou Paul Breitner, incomodamente de esquerda e que se recusou a ir ao Mundial da Argentina em protesto contra a ditadura de Videla. Era a Europa social-democrata à qual o reformismo começava a ficar pequeno, porque parecia ter compreendido que o progresso não era apenas crescer, mas repartir, e que o humanismo podia ampliar-se até se tornar uma forma comunitária e justa de socialismo. A Europa era o sol do Nuclear? Não, obrigado.

União Europeia

A remilitarização, pedra angular do novo projeto da Europa potência

por

Miguel Urbán

19 de outubro 2025

Entrámos e aquilo parecia funcionar. A Europa ampliou os nossos direitos, homologou justiças e reduziu desigualdades. Construiu-se o imaginário partilhado do bem-estar como conquista coletiva, da democracia como mínimo, da ampliação dos direitos humanos, da diversidade. Não era perfeito, mas era um projeto político reconhecível e desejável no material e no cultural. Até que começou a desilusão.

Foi uma erosão lenta, administrativa, tecnocrática. A Europa expandiu-se sem princípios, confundindo integração com contabilidade. Passou-se da transmissão de valores para a gestão de mercados. Apareceram as humidades. Um nacionalismo conservador a entrar pelas paredes, rebatizando a liberdade como segurança, a solidariedade como ameaça. O Brexit acabou por confirmar que o vínculo era mais frágil do que pensávamos. Hoje, a Europa deixou de ser uma comunidade política para se tornar um espaço regulatório, um continente que se orgulha dos direitos humanos até que chegam pessoas que deles necessitam. A extrema-direita passou de uma anomalia a uma opção eleitoral. O racismo apresenta-se orgulhosamente sob o nome de “controlo das fronteiras”.

A islamofobia disfarçou-se de defesa da identidade. A Europa mudava enquanto as suas elites fingiam que nada acontecia. Os inimigos do progresso, do bem-estar e dos direitos sociais sentiram o cheiro da fraqueza. Quem puder fazer, que faça, devem ter pensado.

Assim, Donald Trump – no modo Virgem do Ocidente – apontou-nos o dedo acusadoramente, culpando-nos por permitir uma suposta “erosão civilizacional”. Não pelo regresso do fascismo ou pela desigualdade obscena. Não. Segundo ele, o problema é a migração. O que traduzido significa que a Europa é demasiado diversa, demasiado woke, demasiado humanitária para o seu autoritarismo. Quando um presidente estadunidense de tendência neofascista aponta a Europa como um problema cultural, não pretende defendê-la, mas subjugá-la. É a velha estratégia imperial, divide e vencerás.

Elon Musk — o trilionário ketamínico que quer salvar a humanidade, embora seja incapaz de cuidar da sua filha — acusa a União Europeia de ser um obstáculo à liberdade empresarial. Para ele, a Europa não é uma comunidade de pessoas, mas um mercado incómodo que regula demais. Quando Bruxelas multou o X por violar normas básicas, Musk gritou “censura” e Washington franziu a testa ameaçadoramente. O inquietante foi que, dentro da Europa, houve quem lhes desse razão. A soberania digital europeia dura exatamente até que Silicon Valley se incomode.

Guerra tarifária

A União Europeia capitulou face a Trump

por

Romaric Godin

28 de julho 2025

Israel, protegido por um vitimismo perpétuo e pela culpa histórica europeia – a da Alemanha, mais uma vez moralmente deslocada, e a da Grã-Bretanha, responsável original pelo desmantelamento da Palestina – conseguiu normalizar um genocídio televisionado enquanto branqueia a sua imagem através do Festival Eurovisão da Canção. Esse festival que sempre foi uma piada partilhada, mas também um ritual cultural europeu. Uma noite por ano, aprendíamos palavras noutras línguas e celebrávamos o multiculturalismo e a diversidade. Até que o cenário desmoronou. Enquanto Israel bombardeava hospitais, assassinava crianças, arrasava bairros e matava jornalistas, o televoto premiava o Estado terrorista de forma inquietante, confirmando que os nossos sistemas tecnológicos também estavam capturados. A Europa observava da primeira fila com aquele sorriso tenso de quem sabe que está a fazer algo moralmente obsceno, mas prefere não complicar a vida. A cínica União Europeia de Radiodifusão explicou que o que se passava na Palestina eram “acontecimentos” e que a música não é política. Salvo raras exceções – Espanha, Irlanda, Eslovénia e Países Baixos –, a Europa calou-se. A Alemanha ficou calada. A França ficou calada. A Itália ficou calada. Os países do norte, tão exemplares, ficaram calados. A Eurovisão foi o espelho que refletiu um continente envelhecido e dócil, onde outros decidem.

Internamente, a situação não é melhor. Os governos eurocéticos não só não saem da União, como preferem dinamitar o projeto por dentro. A Hungria, a Polónia e companhia transformaram a União Europeia num campo de sabotagem permanente, aliando-se às agressões externas. A Ucrânia serve-nos como sintoma. Dois anos de guerra dividiram-nos entre aqueles que querem escalar, aqueles que querem congelar e aqueles que aceitariam uma amputação territorial para recuperar a normalidade económica. Os Estados Unidos observam. Porque para uns, a guerra é sobrevivência e para outros, um tabuleiro de Risco. A Europa joga como refém voluntária.

A Europa envelhece e o medo, gerador de fascismos, aumenta. Nós, que crescemos acreditando na Europa, vemos como as nossas ilusões se desvanecem. A Europa foi uma boa ideia, mas cada vez temos menos vontade de defendê-la e nós, as crianças do sul empobrecido que sonhamos com direitos e dignidade, teremos de aceitar que o nosso sonho não era mais do que isso, um sonho.


Paco Cano é gestor cultural e comissário de exposições. Radicado em Cádiz desde 2012, dirige vários projetos culturais e colabora com vários meios de comunicação. Artigo publicado em CTXT.