EUA-Israel: gratificação que tresanda a conciliação vergonhosa

23 de novembro 2010 - 14:53

Três mil milhões de dólares em aviões bombardeiros, para ‘comprar’ uma suspensão temporária na colonização da Cisjordânia, e só por 90 dias – foi este ‘arranjinho’ que Obama ofereceu a Netanyahu: Por Robert Fisk, The Independent

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“Conciliador é quem oferece carne de outro ao crocodilo, na esperança de ser devorado por último” (Winston Churchill)1

Em qualquer outro país, a gratificação que os EUA ofereceram a Israel, e a relutância de Israel para aceitá-la, mesmo que em troca de uma reles suspensão temporária do roubo de propriedade dos árabes, seriam considerados escandalosos. Três mil milhões de dólares em aviões bombardeiros, para ‘comprar’ uma suspensão temporária na colonização da Cisjordânia, e só por 90 dias? Não inclui Jerusalém Leste – portanto, adeus à última hipótese de capital palestiniana na cidade santa; – e, se Benjamin Netanyahu assim o desejar, logo depois poderá retomar furiosamente as construções em terra árabe. No mundo comum e saudável no qual cremos viver, só há um nome para o que Barack Obama ofereceu: ‘arranjinho’, conciliação vergonhosa, expressão que os nossos senhores e mestres sempre usam com desdém e repulsa.

Quem cede diante da injustiça que um povo comete contra outro é dito “conciliador”2[2]. Quem espere a paz a qualquer preço, mesmo que ao preço de uma gratificação de 3 mil milhões de dólares para o criminoso, é dito “conciliador”. Quem se acovarda ante o risco de defender a moralidade internacional contra a cobiça territorial de Israel é dito “conciliador”. Quando tantos de nós nos manifestamos contra invadir o Afeganistão, fomos execrados porque seríamos “conciliadores”. E também fomos execrados como “conciliadores”, quando nos opusemos à invasão do Iraque. Pois “conciliar” foi o que Obama tentou, nesse patético, inacreditável esforço, nessa súplica dirigida a Netanyahu, para que respeite a lei internacional só por 90 dias! Obama é conciliador, no sentido sórdido da palavra.

O facto de o Ocidente e as elites políticas e jornalísticas – e aí incluo o cada dia menos respeitável New York Times – aceitarem esse disparate como coisa normal, como se o disparate pudesse ser realmente apresentado como outro “passo” no “processo de paz”, para repor “nos carris” aquele delírio místico, é útil para avaliarmos a que ponto já avançou a nossa loucura, em tudo o que tenha a ver com o Médio Oriente.

É indício de o quanto os EUA (e, porque fracassamos na empreitada de condenar essa insanidade, também a Europa) deixaram agigantar-se por lá o medo que têm de Israel – e de o quanto Obama deixou que se agigantasse nele o medo que tem dos apoiantes de Israel no Congresso e no Senado.

Três mil milhões de dólares por três meses são mil milhões por mês, para suspender temporariamente o roubo de terras palestinianas. É meio milhar de milhão de dólares por quinzena. 250 milhões por semana. 71.428.571 de dólares por dia, 2.976.190 por hora e 49.603 dólares por minuto. E, como se o pote de ouro não bastasse, Washington continuará a vetar toda e qualquer Resolução da ONU que critique Israel ou que admita a criação de algum estado palestiniano. Que bom negócio! Já teria valido a pena invadir qualquer país só para por a mão numa quantia dessas! Em seguida, encenava-se a retirada! Imaginem então receber a mesma quantia, só pelo cavalheiresco movimento de não construir novas colónias ilegais e só por 90 dias – com plena autorização para avançar simultaneamente as construções ilegais em Jerusalém!

A versão de Hillary Clinton para essa palhaçada seria engraçadíssima, não fosse trágica. Na pena afiada de Roger Cohen do NYT, La Clinton persuadiu-se de que a Palestina é “alcançável, inevitável e compatível com a segurança de Israel”. E quem teria persuadido Madame Hillary de tal coisa? Ora... Aconteceu numa viagem à “capital” Ramallah da pseudo-Palestina, no ano passado. E ela viu as colónias exclusivas para judeus – “a brutalidade da coisa atingiu-a com violência” – mas ela achava que a sua comitiva estivesse a ser escoltada por soldados israelitas “porque são tão profissionais”. E aí, ta-ta-ta-ti-ti-ti, acabou por descobrir que estava sob escolta de militares palestinianos, “muito profissionais”. – Isso mudou completamente a visão de mundo de Madame!

Sem considerar o facto de que o exército israelita é ralé e que os palestinianos são massa de miseráveis, esse incidente na “estrada de Ramallah” fez com que os apoiantes de Madame, nas palavras de Cohen, constatassem que já acontecera uma transição: “da psique de autopiedade e autoflagelação dos palestinos, sempre a apresentar-se como vítimas, para uma nova cultura pragmática de auto-afirmação e de construção de instituições”. O ‘primeiro-ministro’ palestiniano Salam Fayyad, educado nos EUA e, portanto, gente confiável, “pôs o crescimento acima das lamentações, as estradas acima da agitação, e a segurança acima de tudo.”

Sob brutal ocupação por 43 anos, os palestinianos roubados, reduzidos à miséria, com os primos da Cisjordânia que vivem sem casa há 62 anos, afinal pararam de lamentar-se e lamuriar-se e puseram-se repentinamente a cultuar a única coisa que realmente importa no mundo. Não é a justiça. Com certeza não, tampouco, é a democracia. Mas o único Deus que Madame espera que cristãos, judeus e muçulmanos cultuem: a segurança.

Agora, afinal, Israel está segura. Os palestinianos uniram-se à humanidade em geral.

Com essa narrativa escolar, infantilizada, a mulher que, há 11 anos, dizia que Jerusalém seria “a eterna e indivisível capital de Israel” demonstra que o conflito Israel-Palestina atingiu o apogeu, o momento mais traiçoeiro e decisivo. Se Netanyahu tiver algum juízo – falo de juízo sionista, expansionista – bastará esperar os 90 dias e passará pelos EUA de nariz erguido. Durante os três meses de “bom comportamento”, claro que os palestinianos terão de segurar o a batata quente e manter-se sentados na cadeira das conversações “de paz” que decidirão as futuras fronteiras de Israel e “Palestina”. Mas, dado que Israel controla 62% da Cisjordânia, Fayyad e a turma dele ainda poderão disputar 10,9% da Palestina do Mandato.

E, ao preço de 827 dólares por segundo, melhor se forem rápidos. Serão. Deveríamos nos enforcar de vergonha. Mas ninguém se enforcará. Não se trata de gente. Tudo é falso. Não se trata de justiça. Só se trata de “segurança”. E de dinheiro. Muito, muito dinheiro. Adeus, Palestina.

20/11/2010

Tradução da equipa de tradutores Vila Vudu

Traduzido de

http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fisk-an-a…

1No original, appeaser. A citação mais conhecida, em inglês, é frase atribuída a Churchill: “An appeaser is one who feeds a crocodile, hoping it will eat him last” [Conciliador é quem oferece carne de outro ao crocodilo, na esperança de ser devorado por último] (NT).

2No original, appeasement. O dicionário Cambridge registra para appeasement: “conceder ou ceder a exigências do inimigo (nação, grupo, pessoa etc.) em esforço para conciliar, algumas vezes ao arrepio da justiça ou de outros princípios” (NT).