Eternauta, a série baseada no trabalho de um desaparecido da ditadura argentina que fala sobre o presente

11 de maio 2025 - 20:41

Héctor Oesterheld legou-nos um exemplo e uma história que, neste tempo de individualismo voraz, ajuda a recuperar a ideia do herói coletivo: ninguém se salva sozinho.

por

Facundo Maceira

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Eternauta. Imagem da série.
Eternauta. Imagem da série.

A adaptação de El Eternauta, produzida pela K&S Films e pela Netflix, representa uma das produções mais ambiciosas da plataforma na América Latina. Mas é também um acontecimento histórico para a produção audiovisual argentina, pois encarna um género bastante estranho ao panorama audiovisual local, a ficção científica, o que abre novas portas para a atingida produção nacional.

Dirigido por Bruno Stagnaro, realizador que revolucionou a produção audiovisual argentina no final dos anos 90 e início dos anos 2000 com a sua obra-prima, Pizza, birra, faso, e mais tarde com a série Okupas, El Eternauta é composto por seis episódios que transladam a icónica banda desenhada de Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano López para uma Buenos Aires contemporânea. O projeto contou com a participação de Martín M. Oesterheld, neto do autor, como consultor criativo, de forma a garantir a fidelidade ao espírito original da obra.

A série foi inteiramente filmada em Buenos Aires entre maio e dezembro de 2023, utilizando mais de 35 locais reais e 25 cenários especificamente concebidos com tecnologia de produção virtual. Esta técnica permitiu recriar com exatidão a atmosfera apocalíptica da história, ao mesmo tempo que realçou a essência única da cidade como cenário central dos acontecimentos narrados.

Comecemos por algumas breves e indispensáveis notas biográficas. Héctor Germán Oesterheld foi um escritor e argumentista argentino nascido em 1919, pioneiro da banda desenhada nacional e criador de outras obras fundamentais como Sargento Kirk, Mort Cinder e Ernie Pike. Com uma formação científica (era geólogo), verteu a sua sensibilidade humanista em histórias que exaltavam a solidariedade e a dignidade dos oprimidos. Com o tempo, a sua escrita tornou-se abertamente política, abraçando o compromisso revolucionário: nos anos 70, juntou-se à guerrilha peronista Montoneros por influência das suas filhas, e escreveu a segunda parte de El Eternauta enquanto vivia na clandestinidade. Em 1977, foi sequestrado e desaparecido pela ditadura civil-militar juntamente com as suas quatro filhas – Estela, Diana, Marina e Beatriz – e o seu neto, nascido em cativeiro, foi entregue pelos militares à avó, depois de os pais terem sido mortos num campo de concentração. Foi a última pessoa a ver o escritor com vida.

Um clássico com todas as letras

O enredo da banda desenhada começa em Buenos Aires, quando uma estranha e mortal queda de neve cai sobre a cidade e mata todos os que a ela estão expostos. Juan Salvo, o protagonista, juntamente com a sua família e um grupo de vizinhos, improvisa uma defesa doméstica para sobreviver. Depressa descobrem que a queda de neve é apenas a primeira fase de uma invasão alienígena – por detrás da qual estão os sinistros “eles” – que coloca a humanidade em xeque.

O escritor e jornalista argentino Juan Sasturain comparou El Eternauta a Martín Fierro (1872), de José Hernández, obra clássica da literatura argentina por excelência. Ambos os textos foram publicados fora do circuito literário oficial, para serem lidos pelas massas, e só ganharam o seu estatuto de “clássicos” com o tempo. Acontece com os clássicos que, independentemente da época em que são lidos, nos dizem algo de novo sobre o nosso tempo atual. “Era como se Juan Salvo, com o seu traje tão particular, tivesse estado sempre ali, à espera que lhe atribuíssemos certas caraterísticas”, contou um dia Solano López, o desenhador da obra original.

El Eternauta é, sem dúvida, a obra maior da banda desenhada argentina. Foi publicada pela primeira vez quando Oesterheld ainda não era um militante revolucionário. No entanto, os seus valores humanistas, assim como as suas ideias altamente criativas, foram contribuições para a ficção científica universal. Um humanismo que Oesterheld já tinha explorado noutras bandas desenhadas, como Sargento Kirk, um western que punha em tensão os papéis dos clássicos “bons e maus” da banda desenhada norte-americana.

Imagem de El Eternauta

A influência do mito de Juan Salvo foi imediata e continua até aos dias de hoje. Para dar alguns exemplos, no romance Starship Troopers de 1959 – que inspirou James Cameron a fazer Alien 2 – alienígenas insectóides invadem Buenos Aires e enfrentam o exército (qualquer semelhança não é coincidência). The Walking Dead, de Robert Kirkman, que mais tarde se tornou um fenómeno mainstream global quando foi adaptada ao audiovisual, também tem elementos que foram explorados na obra de Oesterheld. Tanto que é quase impossível não relacionar a primeira cena, quando Rick acorda do coma e sai para o mundo pós-apocalítico, com a primeira exploração de Juan Salvo em Buenos Aires após a queda de neve. Para além disso, o tema da organização humana e da luta pela sobrevivência é comum a ambas as obras.

El Eternauta é muito mais do que uma banda desenhada de ficção científica: é uma obra-chave da cultura argentina do século XX. A sua publicação original data de 1957 e foi concluída dois anos mais tarde, em 1959. O início da sua publicação ocorreu, portanto, no contexto da auto-denominada “Revolución Libertadora”, um golpe militar que pôs fim à década de governo de Juan D. Perón em 1955 e bombardeou a Plaza de Mayo. A banda desenhada tem até uma cena em que as bombas caem na Plaza Congreso, a poucos quarteirões da Plaza de Mayo, sendo inevitável não relacionar com essas imagens trágicas da história argentina.

Mas El Eternauta não só inclui referências do contexto local, como também mostra fortes influências do contexto internacional do final dos anos 50, com a Revolução Cubana como um evento inevitável. No campo da ficção científica desses anos, a Guerra Fria configurava um mundo dividido entre os blocos ocidental e soviético, com a paranoia das invasões, da espionagem e do controlo social refletida em inúmeras obras anglo-saxónicas que abordavam o tema através da metáfora das invasões alienígenas. Mas se na história construída a partir do império os alienígenas representavam o terror de um ataque da União Soviética, a partir do Terceiro Mundo o invasor tomava a forma do próprio imperialismo. Aqui, mais uma vez, Oesterheld subverteu o género, como já havia feito com os cowboys de Sargento Kirk.

A banda desenhada foi um fenómeno editorial numa época em que a televisão era incipiente e a casa da ficção eram as páginas das dezenas de revistas publicadas no país. Mas o seu verdadeiro impacto foi-se revelando com o passar do tempo. El Eternauta tornou-se uma obra de culto, estudada nas escolas e universidades e lida como uma alegoria política. A radicalização política do seu autor e o seu desaparecimento no contexto do terrorismo de Estado levaram a que a obra fosse revisitada sob outros pontos de vista. Em 1969, quando Oesterheld já era militante montonero, foi publicada uma nova versão, muito mais política, para a revista Gente.

Em El Eternauta, o inimigo não mostra o rosto: esconde-se atrás de múltiplas camadas de intermediários, de uma estrutura piramidal de poder que lembra as ditaduras militares e as formas invisíveis de dominação económica. Já na clandestinidade, o autor escreveu uma segunda parte da história, que foi o seu último trabalho antes de ser preso e assassinado pela ditadura militar em 1977.

O herói coletivo

Em oposição ás histórias mainstream norte-americanas, repletas de super-heróis, os protagonistas de El Eternauta são cidadãos comuns, vizinhos de diferentes classes sociais que se organizam para resistir. Juan é um homem de família de classe média que se vê forçado à aventura. Favalli, o intelectual do grupo, fornece elementos de interpretação do que está a acontecer. Franco é um operário metalúrgico que assume protagonismo quando é necessário agir.

O “herói coletivo”, um tópico muito comentado por estes dias, desde a estreia da série, faz referência precisamente a isto, à ausência de um herói específico e individual. Nesta história não há um protagonista único que tome as rédeas a toda a hora, mas sim cada uma das personagens é imprescindível à sua maneira, a partir do seu lugar. E o trabalho de equipa e a cooperação são constantemente apresentados como ferramentas fundamentais para resistir à ameaça externa.

Assim, os protagonistas de El Eternauta não são super-heróis solitários, mas um grupo de pessoas comuns que resistem coletivamente. O slogan que atravessa toda a obra – “ninguém se salva sozinho” – constitui o coração ideológico da história, como o próprio Oesterheld explicou anos mais tarde, no seu prólogo à edição completa da banda desenhada publicada na década de 1970. E num presente como o de hoje parece revelar (ou recordar) uma verdade profunda, contra os ventos atuais.

Uma história que desencadeou críticas da direita

O forte conteúdo humanista da obra e a sua mensagem anti-imperialista, reforçada na adaptação de Stagnaro ao tornar o protagonista um veterano da Guerra das Malvinas, provocaram uma reação dos seguidores de Javier Milei, sempre predispostos para aquilo a que chamam a “batalha cultural”. E como é que uma história criada por um “montonero” não poderia incomodar um governo negacionista da ditadura?

Os detratores mileístas começaram por rejeitar a série por considerá-la “woke”. Mas depois do enorme sucesso global da série, mudaram o seu discurso para o argumento de que El Eternauta “prova que se podem fazer boas produções sem apoio estatal”. Embora a produção seja independente dos organismos de fomento da produção audiovisual que a direção do La Libertad Avanza tem vindo a esvaziar, o certo é que uma produção com estas caraterísticas teria sido impossível sem a contribuição de décadas de tradição cinematográfica local com financiamento estatal.

Sem ir mais longe, Bruno Stagnaro, realizador e criador da série, estreou-se com a curta-metragem Guarisove, los olvidados, uma ideia que ganhou o concurso “Histórias breves” do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA) em 1994. Mais tarde, a sua obra-prima Pizza, birra, faso, que deu início ao chamado “novo cinema argentino”, foi possível graças ao financiamento da mesma instituição. E a sua série emblemática, Okupas (2000), embora produzida de forma independente, foi transmitida no canal estatal (Canal 7), sem o qual o investimento necessário para a sua produção teria sido incomportável.

Tal como a história de Stagnaro, a de muitos dos atores, atrizes, realizadores, técnicos e produtores desta nova adaptação da Netflix está intimamente ligada a um circuito cinematográfico local que preparou as condições para que, pela primeira vez, uma obra audiovisual argentina pudesse competir com produções internacionais de alto nível, mesmo com um orçamento muito inferior (menos de 20 milhões de dólares).

El Eternauta é uma obra fundamental para a recuperação das narrativas identitárias populares, um elemento-chave na reconstrução de um relato solidário capaz de enfrentar as injustiças presentes e passadas. Mas, além disso, a produção é uma obra coletiva que combina os melhores talentos em cada área: direção, representação, fotografia, efeitos especiais, direção… A estreia da série na Netflix representa, sem dúvida, um antes e um depois para as produções argentinas, mas também latino-americanas.

Recuperemos o mito de Juan Salvo, mas também o de Héctor Germán Oesterheld. Que o seu exemplo, nestes tempos de individualismo voraz, nos ajude a recuperar a ideia do herói coletivo: ninguém se salva sozinho.

Cartaz do Eternauta com fotos da família do autor
Um cartaz da série El Eternauta nas ruas de Buenos Aires com fotos da família Oesterheld, "desaparecidos" da ditadura militar argentina (Autor desconhecido).

 


Texto publicado originalmente na JacobinLat. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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